NUPEFEM reunirá profissionais de diferentes áreas, dará prioridade aos casos e criará banco de dados técnico sobre mortes de mulheres no Rio Grande do Sul.
O Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS) criou uma estrutura especializada para aprimorar a investigação pericial dos casos de feminicídio no Estado. Batizado de Núcleo de Perícias em Feminicídio (NUPEFEM), o grupo terá atuação multidisciplinar e deverá dar prioridade ao processamento das perícias relacionadas às mortes de mulheres e meninas.
A criação do núcleo ocorre em um momento de forte preocupação com a violência contra a mulher no Rio Grande do Sul. Apenas entre domingo (4) e segunda-feira (5), quatro mulheres foram vítimas de crimes investigados como feminicídio em Alegrete, Barra do Guarita, Porto Alegre e Caxias do Sul. Com esses casos, o Estado chegou à marca de 60 feminicídios registrados em 2026, segundo o levantamento utilizado nas recentes divulgações sobre violência contra a mulher.
A nova estrutura pretende justamente melhorar a qualidade da resposta pericial diante desse tipo de crime, reunindo diferentes especialidades e criando procedimentos específicos para identificar, preservar e interpretar vestígios.
Núcleo terá 15 profissionais de diferentes áreas
O NUPEFEM reúne inicialmente 15 profissionais que já fazem parte do quadro do IGP-RS.
O grupo é formado por especialistas de diferentes setores, incluindo:
- Peritos criminais;
- Fotógrafos periciais;
- Papiloscopistas;
- Médicos-legistas;
- Psicólogos;
- Especialistas de laboratório;
- Profissionais da área de informática.
A proposta é fazer com que essas diferentes áreas trabalhem de maneira integrada quando um caso de feminicídio for identificado.
A coordenadora do núcleo é Juliane Lorencena Chassot, enquanto a coordenação-adjunta fica com Luciana Farias Pereira. O objetivo é estabelecer uma atuação especializada desde o primeiro contato com o local do crime até a produção dos laudos e demais elementos periciais que poderão ser utilizados durante o processo judicial.

Perícias terão prioridade
Uma das principais mudanças previstas pelo novo núcleo é a criação de uma rotina de prioridade para os casos de feminicídio dentro do IGP.
Isso significa que, diante de uma ocorrência desse tipo, os profissionais das diferentes áreas poderão ser acionados de maneira integrada para iniciar o processamento dos vestígios e exames.
A intenção é reduzir o tempo entre a ocorrência do crime, a coleta dos materiais e a produção das informações técnicas necessárias à investigação.
O IGP também prepara uma instrução normativa interna para estabelecer formalmente essa prioridade no processamento das perícias relacionadas aos feminicídios.
Na prática, a expectativa é que o caso seja tratado como uma investigação que exige atuação coordenada, evitando que informações produzidas por diferentes setores fiquem isoladas.
Não haverá, inicialmente, uma estrutura física exclusiva
Apesar do nome e da especialização, o NUPEFEM não significa, neste primeiro momento, a criação de um novo prédio ou de uma estrutura física independente.
Os 15 profissionais selecionados continuarão vinculados aos setores onde já trabalham dentro do IGP.
A diferença estará na forma de atuação.
Quando ocorrer um caso que precise do acompanhamento do NUPEFEM, os especialistas serão acionados para atuar de maneira coordenada, cada um dentro de sua área de conhecimento.
A estrutura, portanto, funciona como uma rede especializada dentro do próprio IGP, conectando profissionais que já possuem experiência em diferentes tipos de perícia.

Olhar de gênero será incorporado à perícia
Uma das principais propostas do NUPEFEM é ampliar a maneira como a cena de um possível feminicídio é analisada.
A perícia tradicional busca identificar e interpretar vestígios que possam ajudar a determinar como o crime ocorreu, quem participou e quais elementos podem vincular um suspeito à ocorrência.
No caso dos feminicídios, o novo protocolo pretende acrescentar uma análise do contexto da violência contra a vítima.
Isso significa procurar elementos que possam ajudar a reconstruir não apenas o momento da morte, mas também possíveis situações anteriores de violência.
Podem ser considerados, por exemplo, vestígios ou informações relacionados a:
- violência física anterior;
- violência psicológica;
- sinais de agressões anteriores;
- situações de risco;
- histórico de violência;
- elementos que ajudem a compreender a dinâmica da relação entre vítima e suspeito.
O objetivo não é substituir a investigação policial, mas fornecer evidências técnicas adicionais que possam ajudar a compreender o contexto em que ocorreu a morte.
Novo protocolo será criado para os casos
O IGP também deverá elaborar um protocolo regional específico para feminicídios.
Esse documento deverá estabelecer procedimentos padronizados para a atuação pericial nos locais relacionados a esse tipo de crime.
Entre os pontos previstos estão regras e orientações para:
Busca de vestígios: identificação dos elementos que podem ter relevância para a investigação.
Documentação: registro detalhado da cena e dos materiais encontrados.
Coleta: retirada adequada dos vestígios para evitar perdas ou contaminações.
Acondicionamento: preservação dos materiais para posterior análise.
Interpretação: avaliação técnica dos vestígios e sua relação com a dinâmica investigada.
A padronização é importante porque os crimes podem ocorrer em municípios diferentes e ser atendidos por equipes distintas. Um protocolo comum ajuda a garantir maior uniformidade na produção das provas.

Perícia poderá ajudar a reconstruir a história da violência
Um dos pontos mais relevantes da nova estrutura é a possibilidade de a perícia contribuir para identificar elementos que ultrapassem o momento específico da morte.
Em um caso de feminicídio, a análise de vestígios pode ajudar a indicar se havia sinais de violência anterior ou outras circunstâncias relevantes para compreender a dinâmica do crime.
Isso pode ser especialmente importante em situações nas quais a vítima não tenha conseguido denunciar previamente agressões ou ameaças.
A perícia, nesse contexto, passa a ser utilizada também como ferramenta para reconstruir o contexto da violência, sempre dentro dos limites técnicos e científicos dos exames realizados.
Essa abordagem poderá auxiliar investigadores, Ministério Público e Judiciário na compreensão dos fatos.
Cinco departamentos do IGP estarão integrados
A estrutura do NUPEFEM prevê a articulação de diferentes departamentos do Instituto-Geral de Perícias.
Entre eles estão:
- Departamento de Criminalística;
- Departamento Médico-Legal;
- Departamento de Perícias Laboratoriais;
- Departamento de Identificação;
- Departamento de Perícias do Interior.
Essa integração permite reunir informações produzidas por diferentes especialidades em um mesmo caso.
Enquanto a Criminalística pode analisar a cena e os vestígios físicos, a Medicina Legal atua nos exames relacionados à vítima, os laboratórios analisam materiais coletados, a Identificação trabalha com elementos de identificação e o setor do Interior garante integração com as unidades que atendem ocorrências fora da Capital.

Banco de dados vai reunir informações sobre feminicídios
Outra atribuição importante do NUPEFEM será a criação de um banco de dados técnico-pericial específico sobre feminicídios.
A estrutura deverá registrar, organizar, classificar e contabilizar informações produzidas pelas perícias.
Também está previsto o mapeamento dos casos no Rio Grande do Sul.
A ideia é transformar os dados periciais acumulados ao longo dos anos em uma ferramenta que permita identificar padrões e características recorrentes nos crimes.
O banco deverá respeitar o sigilo das informações e a legislação vigente, especialmente no que diz respeito aos dados pessoais e às informações relacionadas às investigações.
Dados podem ajudar a entender o fenômeno
A reunião dessas informações pode produzir efeitos que vão além de uma investigação individual.
Com dados organizados, o Estado poderá ter uma visão mais ampla sobre características dos feminicídios registrados no território gaúcho.
A análise técnica poderá contribuir para identificar, por exemplo, padrões relacionados aos locais dos crimes, tipos de vestígios, circunstâncias das mortes e outros elementos que possam ser observados de maneira sistemática.
Isso poderá ajudar na formulação de estratégias de prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres.
É importante destacar, porém, que um banco de dados técnico não substitui as estatísticas oficiais de segurança pública. Ele terá finalidade específica dentro da atividade pericial e deverá observar os limites legais de acesso e divulgação.

Capacitação também está entre os objetivos
O NUPEFEM poderá promover capacitações para profissionais do próprio IGP e para integrantes de outras instituições envolvidas no fluxo de investigação e processamento criminal.
A intenção é disseminar procedimentos especializados e ampliar o conhecimento sobre as particularidades dos feminicídios.
Também está prevista a possibilidade de estabelecer intercâmbios técnico-científicos com órgãos públicos, universidades e instituições de pesquisa.
Essa aproximação poderá permitir o desenvolvimento de novas metodologias e o aperfeiçoamento dos procedimentos utilizados na perícia.
Criação ocorre após sequência de quatro feminicídios
A criação do NUPEFEM ganha ainda mais relevância diante dos recentes casos registrados no Estado.
Entre domingo (4) e segunda-feira (5), quatro mulheres foram mortas em circunstâncias investigadas como feminicídio.
Os casos ocorreram em:
Alegrete, onde uma jovem de 21 anos foi morta a tiros;
Barra do Guarita, onde uma mulher de 36 anos foi morta durante uma perseguição atribuída ao companheiro;
Porto Alegre, onde Thamires de Araújo Rodrigues, de 24 anos, foi morta na Restinga;
Caxias do Sul, onde Susiele Santos de Brito, de 32 anos, foi encontrada morta e dois homens foram presos durante a investigação.
A sequência levou o Rio Grande do Sul à marca de 60 feminicídios em 2026.

Perícia é uma etapa fundamental da investigação
Em crimes violentos, a perícia exerce papel fundamental porque transforma vestígios encontrados no local em informações técnicas que podem ser utilizadas como prova.
Imagens, impressões, material biológico, marcas, objetos, resíduos e outros elementos podem ajudar a reconstruir a dinâmica de uma ocorrência.
No caso dos feminicídios, essa análise pode assumir ainda maior importância porque a investigação precisa determinar não apenas a causa da morte, mas também as circunstâncias e eventual relação do crime com a violência de gênero.
A criação de uma estrutura especializada pretende justamente fortalecer essa etapa.
O que muda na prática?
A criação do NUPEFEM não significa que a Polícia Civil deixará de investigar os feminicídios.
A Polícia Civil continua responsável pela investigação criminal, pela coleta de depoimentos, análise de informações, identificação de suspeitos e demais diligências previstas no inquérito.
O IGP atua na produção da prova pericial e científica.
A proposta do novo núcleo é fazer com que essas duas frentes tenham acesso a uma produção pericial mais organizada, rápida e especializada.
Com protocolos padronizados e diferentes especialistas trabalhando de maneira integrada, a expectativa é melhorar a qualidade das informações encaminhadas às autoridades responsáveis pela investigação e pelo processo judicial.
Uma resposta especializada diante de um problema grave
A criação do NUPEFEM representa uma mudança na forma como o Rio Grande do Sul pretende lidar com a perícia dos feminicídios.
Em vez de tratar cada ocorrência apenas como mais um caso dentro da rotina geral da perícia, o Estado passa a contar com um grupo especializado capaz de acompanhar, organizar e analisar essas ocorrências de maneira integrada.
A medida não resolve, por si só, o problema da violência contra as mulheres.
Prevenção, proteção, atendimento às vítimas, investigação policial e responsabilização dos autores continuam sendo fundamentais.
Mas a existência de uma estrutura pericial especializada pode contribuir para que os crimes sejam melhor investigados e para que as provas produzidas tenham maior qualidade.
Em um Estado que já registra 60 feminicídios em 2026, a criação do núcleo representa uma tentativa de aprimorar a resposta do poder público diante de um problema que continua exigindo atenção permanente.










