QUEM CUIDA DE QUEM JÁ NÃO CONSEGUE CUIDAR DE SI? O ABANDONO QUE INCOMODA NO CENTRO DE PORTO ALEGRE

Colunista : Deivid Jorge Benetti – MPV REALIDADE de Porto Alegre e Região.
Porto Alegre (RS) | Caminhar pelas ruas da região Central de Porto Alegre é observar muito mais do que o movimento do comércio, o trânsito e a rotina de quem passa apressado. É também encontrar histórias humanas que parecem ter sido esquecidas pelo poder público e pela própria sociedade.
Nos últimos tempos, três situações têm chamado especialmente minha atenção. São pessoas que circulam diariamente pela região, aparentemente sem conseguir organizar a própria rotina ou cuidar adequadamente de suas necessidades básicas. Não cabe a mim fazer diagnósticos médicos, mas o que se vê nas ruas levanta uma pergunta que não pode continuar sem resposta: quem está cuidando dessas pessoas?
Três histórias que expõem um problema maior
Um dos casos mais preocupantes é o de uma mulher que, segundo relatos e observações, vive há anos com uma abertura abdominal decorrente de uma situação envolvendo uma colostomia. A condição é visível e causa preocupação em quem passa pelo local.
Não sou médico para avaliar seu estado clínico ou psicológico. Entretanto, uma situação dessa gravidade exige atenção, avaliação profissional e uma resposta concreta dos serviços públicos de saúde. Não é razoável que uma pessoa permaneça exposta a possíveis complicações de saúde sem que a sociedade questione se ela está recebendo o atendimento de que necessita.
Outro caso é o de um senhor que permanece há bastante tempo na Rua Otávio Rocha, na região Central, com uma condição física bastante evidente. Sua situação também desperta questionamentos sobre acesso à assistência médica, acompanhamento social e condições mínimas de dignidade.
Há ainda um rapaz jovem que observo caminhando repetidamente pelas ruas, aparentemente sem um destino definido. Em algumas ocasiões, ele para em praças, utiliza os balanços e depois retoma a caminhada.
Não tenho elementos para afirmar o que acontece com ele, se existe algum transtorno de saúde, qual é sua história familiar ou se recebe algum tipo de acompanhamento. Mas a repetição desse comportamento, somada à vulnerabilidade aparente, levanta uma questão legítima: será que alguém está acompanhando sua situação?
São histórias diferentes, com necessidades que podem ser distintas. O que elas têm em comum é a necessidade de uma avaliação responsável, sem julgamentos precipitados e sem que essas pessoas sejam tratadas como se fossem invisíveis.
De quem é a responsabilidade: Prefeitura, Estado ou Saúde?
Essa é a pergunta que precisa sair das conversas nas calçadas e chegar aos órgãos responsáveis.
Quando uma pessoa vive em situação de rua e apresenta sinais de grave vulnerabilidade física, desorientação ou possível comprometimento da capacidade de cuidar de si, o atendimento não deve depender apenas da iniciativa de um comerciante, de um morador ou de alguém que se sensibilize com a cena.
A rede pública pode envolver diferentes áreas, conforme a necessidade identificada: saúde, assistência social, serviços de abordagem social e atendimento de urgência.
Em Porto Alegre, é necessário esclarecer qual serviço deve ser acionado em cada situação, quem realiza a avaliação inicial, como funciona o encaminhamento e o que acontece quando a pessoa não consegue ou não aceita buscar ajuda por conta própria.
A Prefeitura tem responsabilidades importantes na organização dos serviços municipais de saúde e assistência social. O Estado também possui atribuições na rede de saúde e em outros serviços públicos. A responsabilidade concreta depende do caso e do tipo de atendimento necessário.
O que não pode acontecer é a população ficar sem respostas, sem saber a quem recorrer, enquanto pessoas em condições preocupantes continuam expostas nas ruas.

É possível ajudar alguém que não reconhece que precisa de ajuda?
Aqui está uma das questões mais delicadas dessa discussão.
Uma pessoa estar em situação de rua, apresentar comportamento incomum ou aparentar desorientação não significa, automaticamente, que ela perdeu a capacidade de tomar decisões. Essa avaliação precisa ser feita por profissionais qualificados, considerando as circunstâncias de cada caso.
Também não significa que seja permitido retirar alguém à força da rua simplesmente porque sua condição causa desconforto ou preocupação.
A legislação brasileira protege os direitos das pessoas com transtornos mentais e estabelece critérios para tratamentos involuntários, que não podem ser decididos arbitrariamente por comerciantes, moradores ou agentes públicos. Quando há uma emergência médica, a avaliação e a conduta devem seguir os protocolos aplicáveis.
Mas existe uma diferença fundamental entre respeitar a autonomia de uma pessoa e simplesmente deixá-la sem assistência.
Respeitar direitos não pode servir de desculpa para a omissão. E oferecer ajuda não pode ser confundido com retirar a liberdade de alguém sem fundamento legal.
O desafio é identificar a necessidade, realizar uma abordagem adequada, avaliar as condições de saúde e construir um encaminhamento compatível com a situação.
“Dá uma injeção e tira da rua”: essa é a solução?
Na semana passada, durante uma conversa com um comerciante, ouvi uma frase que revela o nível de frustração de quem acompanha essas situações diariamente: “Dá uma injeção e tira da rua”.
Entendo que a convivência com situações graves, especialmente quando não há respostas visíveis, pode gerar indignação. Mas essa proposta não é uma solução aceitável.
Ninguém pode ser submetido a uma intervenção médica como forma de simplesmente desaparecer do espaço público. Medicamentos não são instrumentos de remoção social, e tratamentos precisam ter indicação clínica e respeitar os direitos previstos em lei.
O problema não se resolve escondendo a pessoa, afastando-a de determinada rua ou transferindo a situação para outro bairro.
Resolve-se com atendimento adequado, acompanhamento, avaliação profissional e continuidade da assistência.
A pergunta correta não é como tirar essas pessoas da frente de quem passa. É como garantir que elas recebam os cuidados necessários e tenham seus direitos preservados.
O pedido de esclarecimentos ao poder público
Diante dessas situações, procurei a Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre para solicitar esclarecimentos sobre os procedimentos adotados em casos como esses.
A intenção é compreender como funciona o atendimento, quais equipes podem ser acionadas, como ocorre a abordagem de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade e quais são os caminhos possíveis quando alguém aparentemente não consegue cuidar das próprias necessidades.
O objetivo é levar o tema ao Jornal MPV com informações oficiais e contribuir para que a população saiba como agir diante de situações semelhantes.
Também estamos em contato com um familiar de uma das pessoas mencionadas, buscando compreender melhor sua história e os caminhos possíveis para uma assistência adequada.
É importante destacar que o fato de alguém permanecer na rua não significa, necessariamente, que esteja sem família, que tenha rompido todos os vínculos ou que não receba nenhum atendimento. Cada história precisa ser investigada com responsabilidade e respeito à privacidade.
A sociedade se acostumou a passar por essas pessoas?
Talvez essa seja a parte mais incômoda da questão.
Muitas pessoas passam por essas situações diariamente. Algumas olham, outras desviam o caminho, outras comentam entre si. Depois, seguem a rotina.
É compreensível que nem todos saibam como agir. Mas não podemos transformar a falta de informação em indiferença permanente.
Estamos falando de seres humanos, com histórias que não conhecemos por completo, necessidades que precisam ser avaliadas e direitos que não desaparecem porque alguém vive nas ruas.
Não se trata de romantizar a situação, ignorar os problemas que podem surgir na convivência urbana ou afirmar que todos os casos são iguais. Trata-se de reconhecer que uma pessoa em condição de extrema vulnerabilidade precisa de uma resposta proporcional à gravidade de sua situação.
Se alguém apresenta uma ferida grave, uma condição física preocupante ou sinais de uma emergência, é necessário buscar o serviço adequado. Se a necessidade é de acompanhamento social, é preciso acionar a rede competente. Se há suspeita de comprometimento da saúde mental, cabe aos profissionais avaliar e indicar a conduta apropriada.
O que não podemos fazer é presumir que não existe solução e seguir em frente.
Minha pergunta continua sem resposta
Não escrevo esta coluna para apontar culpados antes de conhecer todos os fatos. Escrevo porque essas situações existem, são observadas diariamente e merecem uma resposta pública.
Quero saber quais serviços de Porto Alegre podem ser acionados, quem acompanha esses casos, quais são os limites legais da intervenção e como garantir que pessoas em condições tão vulneráveis não fiquem presas a um ciclo de abandono.
A população precisa de orientação. Os profissionais que atuam nas ruas precisam de condições de trabalho. E as pessoas que necessitam de ajuda precisam ter acesso a uma rede capaz de acolher, avaliar e encaminhar cada situação.
Uma cidade não pode medir sua qualidade apenas pela organização das ruas, pela força do comércio ou pelo movimento de suas avenidas. Também precisa ser avaliada pela maneira como trata quem está mais vulnerável.
Minha cobrança é simples: que os órgãos responsáveis esclareçam quais providências podem ser tomadas e como a população pode colaborar sem violar direitos.
Porque, antes de serem chamadas de moradores de rua, essas pessoas são seres humanos.
E a pergunta que fica para Porto Alegre é direta: quando alguém já não consegue demonstrar que precisa de ajuda, quem tem a responsabilidade de perceber, agir e garantir que essa ajuda chegue?
O Jornal MPV seguirá buscando respostas.










