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Jornada de 12 horas e alojamentos precários

Trabalhadores foram encontrados em quatro municípios gaúchos após denúncias de jornadas de até 12 horas, falta de pagamento e alojamentos precários. Polícia Civil, Ministério Público do Trabalho e Ministério do Trabalho investigam suspeita de tráfico de pessoas.

Uma operação conjunta de órgãos de segurança e fiscalização identificou 42 trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão no Norte do Rio Grande do Sul. As vítimas foram localizadas nos municípios de Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas, onde trabalhavam principalmente na colheita de frutas cítricas.

A ação envolve a Polícia Civil, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério do Trabalho, com apoio das equipes de assistência social dos municípios da região. As investigações apontam indícios de uma rede suspeita de recrutar trabalhadores no exterior mediante falsas promessas de emprego e submetê-los a condições degradantes após a chegada ao Brasil.

As apurações começaram em 19 de outubro, depois que a equipe da Operação Protetor das Divisas, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, recebeu uma denúncia sobre trabalhadores estrangeiros que estariam vivendo e trabalhando em condições precárias em uma propriedade rural no interior de Aratiba.

O que começou como uma fiscalização localizada levou à identificação de outros grupos de trabalhadores em municípios próximos. Ao longo das diligências, as equipes reuniram relatos sobre jornadas extensas, ausência de pagamento dos valores prometidos, descontos por despesas básicas e falta de condições adequadas de moradia.

Trabalhadores eram atraídos por falsas promessas

Conforme os depoimentos reunidos durante a investigação, os trabalhadores foram recrutados em seus países de origem por intermediários que ofereciam salários atrativos, moradia gratuita, alimentação, transporte e acesso à internet.

Segundo as informações divulgadas pelos órgãos envolvidos, os estrangeiros eram orientados a entrar no Brasil por rotas alternativas e, depois, transportados até municípios do Norte gaúcho, onde seriam empregados na colheita de frutas cítricas.

A realidade encontrada, entretanto, era diferente das condições anunciadas durante o recrutamento.

Os trabalhadores relataram que as despesas com alimentação, hospedagem e transporte eram descontadas dos valores que haviam sido prometidos. Além disso, até o momento das primeiras entrevistas, os trabalhadores ouvidos afirmaram que ainda não tinham recebido os salários combinados.

As autoridades também apuram a atuação dos intermediários responsáveis pelo recrutamento, pelo transporte e pelo encaminhamento das vítimas aos locais de trabalho.

Jornadas de até 12 horas e ausência de descanso

Entre as irregularidades relatadas estão jornadas de trabalho de até 12 horas por dia, sem períodos regulares de descanso. Segundo os depoimentos, não havia folgas garantidas, e alguns trabalhadores eram informados de que possuíam dívidas com os empregadores quando deixavam de comparecer ao serviço.

Em determinadas situações, conforme os relatos, os dias em que não trabalhavam eram tratados como valores devidos aos responsáveis pela contratação.

Esse mecanismo, associado aos descontos por despesas essenciais e à ausência de pagamento dos salários prometidos, é um dos pontos considerados relevantes para a investigação das condições de trabalho encontradas.

A situação também envolvia dificuldades para manter contato com familiares. Os alojamentos não dispunham de sinal de telefonia ou acesso à internet, o que limitava a comunicação dos trabalhadores com pessoas que permaneceram em seus países de origem.

Alojamentos improvisados e transporte precário

A fiscalização identificou imóveis utilizados como alojamentos coletivos sem condições adequadas de higiene, segurança e dignidade.

No primeiro endereço vistoriado, em Aratiba, foram encontrados oito trabalhadores — sete estrangeiros e um brasileiro — distribuídos em imóveis improvisados na zona rural. Os espaços não ofereciam estrutura suficiente para acomodar todos os moradores de forma adequada.

De acordo com os relatos e as informações divulgadas pelas autoridades, algumas residências abrigavam até 15 pessoas, sem camas e colchões suficientes para todos.

O transporte até as áreas de colheita também foi apontado como precário. Os trabalhadores relataram que eram levados na caçamba de caminhões e que os custos dos deslocamentos eram cobrados deles, inclusive conforme a distância percorrida.

As condições descritas fazem parte do conjunto de elementos analisados pelos órgãos de fiscalização para apurar a possível submissão dos trabalhadores a condições análogas à escravidão.

Fiscalizações identificaram novas vítimas em quatro municípios

Após a primeira intervenção, realizada em 19 de outubro, as equipes deram continuidade às ações nos dias seguintes.

Entre 20 e 23 de outubro, novas diligências foram realizadas em Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas. Durante essas etapas, outros trabalhadores estrangeiros foram identificados e encaminhados para atendimento.

Em uma das ações posteriores, realizada em 23 de outubro, mais 25 trabalhadores estrangeiros foram localizados em condições consideradas degradantes e ilegais pelas autoridades.

O balanço divulgado nesta terça-feira (27) chegou a 42 estrangeiros identificados na operação.

A atuação conjunta permitiu ampliar o alcance da fiscalização, localizar pessoas em diferentes municípios e reunir informações sobre o possível funcionamento da rede investigada.

Suspeita de tráfico internacional de pessoas

Além da apuração sobre trabalho análogo à escravidão, os órgãos envolvidos investigam possíveis crimes relacionados ao tráfico de pessoas.

A suspeita é de que uma estrutura organizada recrutava trabalhadores em situação de vulnerabilidade fora do Brasil, utilizando promessas de remuneração e condições dignas de trabalho para convencê-los a viajar.

Depois da chegada ao território brasileiro, essas pessoas seriam encaminhadas para atividades de colheita na região Norte do Rio Grande do Sul, onde enfrentariam condições diferentes das anunciadas.

Segundo as informações divulgadas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Trabalho, os responsáveis pelo recrutamento, pela logística de transporte e pela contratação dos trabalhadores foram identificados, mas ainda não haviam sido localizados até a divulgação do balanço.

A investigação busca esclarecer a participação de cada envolvido, reunir provas sobre as irregularidades e apurar as responsabilidades criminais e trabalhistas. A identificação dos suspeitos, por si só, não equivale a uma condenação judicial.

Trabalhadores foram encaminhados para locais seguros

Após a identificação das situações de exploração, os trabalhadores foram retirados dos alojamentos e encaminhados para locais seguros, com apoio das equipes de assistência social de Erechim, Aratiba, Três Arroios, Severiano de Almeida e Getúlio Vargas.

O atendimento busca garantir acolhimento e condições de proteção às pessoas resgatadas enquanto as autoridades dão continuidade às investigações e aos procedimentos de fiscalização.

O Ministério do Trabalho informou que as ações devem prosseguir nos próximos dias, com novas entrevistas e verificações para identificar possíveis trabalhadores que ainda estejam submetidos a condições semelhantes na região.

A operação permanece em andamento, e o número de pessoas afetadas poderá ser atualizado conforme o avanço das diligências.

Fiscalização continua no Norte do Rio Grande do Sul

O caso evidencia a importância da fiscalização das relações de trabalho e do combate a redes que exploram a vulnerabilidade econômica e social de trabalhadores migrantes.

A promessa de emprego e renda pode ser utilizada como instrumento de aliciamento quando as condições oferecidas não correspondem à realidade encontrada no destino. A ausência de pagamento, as jornadas extensas, os alojamentos precários e a cobrança de despesas básicas são elementos que exigem apuração rigorosa pelas autoridades competentes.

No caso investigado no Norte gaúcho, os órgãos públicos seguem trabalhando para identificar outras possíveis vítimas, esclarecer a estrutura de recrutamento e responsabilizar os envolvidos, conforme as provas reunidas.

O Jornal MPV acompanha o caso e poderá atualizar esta reportagem conforme a divulgação de novas informações oficiais.

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