Anunciada por Luciano Zucco, futura secretária estadual é tradicionalista, declamadora, ativista cultural e defensora da valorização de diferentes manifestações artísticas.
A futura gestão do governo do Rio Grande do Sul terá Liliana Cardoso à frente da Secretaria Estadual da Cultura. O nome foi anunciado nesta terça-feira (27 de outubro de 2026) pelo governador eleito Luciano Zucco (PL), durante a apresentação dos primeiros integrantes de seu secretariado.
Atual secretária municipal da Cultura de Porto Alegre, Liliana será a primeira mulher negra a ocupar o comando da pasta estadual. Sua indicação reúne diferentes dimensões da cultura gaúcha: o tradicionalismo, a poesia, o Carnaval, as manifestações populares e a ligação com a matriz africana.
A escolha também coloca em evidência o desafio de conciliar a valorização das tradições regionais com políticas públicas voltadas à diversidade cultural, à produção artística contemporânea e à economia criativa.
A nova gestão estadual está prevista para começar em 6 de janeiro de 2027. Até lá, a equipe de transição deverá organizar a estrutura administrativa e definir as prioridades para cada secretaria.
Quem é Liliana Cardoso
Natural de Porto Alegre, Liliana nasceu e cresceu na Cohab Costa e Silva, no bairro Rubem Berta, na periferia da Capital. Sua trajetória profissional foi construída em áreas ligadas à comunicação, à poesia e à organização de eventos culturais.
Radialista, apresentadora, declamadora e mestre de cerimônias, ela iniciou sua relação com a poesia gaúcha ainda na infância. Aos oito anos, já participava de atividades de declamação e, posteriormente, consolidou sua ligação com o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).
Liliana é ligada ao CTG Coxilha Aberta, em Porto Alegre, e construiu uma carreira marcada pela participação em rodeios, festivais de poesia e eventos tradicionalistas. Ao longo dos anos, recebeu premiações em competições de declamação e acumulou reconhecimento no cenário cultural do Rio Grande do Sul.
A futura secretária é formada em Gestão Superior de Eventos e também desenvolveu atividades institucionais. Foi vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e trabalhou durante dez anos como mestre de cerimônias da Assembleia Legislativa gaúcha.
Sua experiência combina atuação artística, organização de eventos e participação em estruturas públicas relacionadas à cultura.

Tradicionalismo, Carnaval e cultura negra
Embora tenha uma trajetória fortemente associada ao tradicionalismo gaúcho, Liliana também atua na valorização de manifestações culturais que ultrapassam o universo dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs).
Ela é presidente da Comissão do Carnaval de Porto Alegre e teve participação na organização dos festejos populares da Capital. Sua atuação também inclui iniciativas relacionadas à presença negra na cultura regional e à valorização das tradições de matriz africana.
Em 2021, Liliana foi patrona dos Festejos Farroupilhas do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar essa função. No ano seguinte, recebeu o Troféu Guri, concedido pelo Grupo RBS.
Outro marco de sua trajetória foi a organização da obra A Matriz da Cultura Negra no Gauchismo, lançada em setembro de 2021 com a participação de 22 coautores e coautoras. O projeto buscou ampliar o debate sobre a contribuição da população negra para a formação cultural do Rio Grande do Sul.
A atuação em diferentes espaços culturais será uma característica relevante de sua passagem pela Secretaria Estadual da Cultura, especialmente diante das expectativas de artistas, produtores, entidades tradicionalistas e representantes de manifestações populares.
Ligação com a matriz africana
Liliana também se identifica como batuqueira e filha de Oxum, referência religiosa ligada às tradições de matriz africana. Essa dimensão faz parte de sua identidade pública e de sua atuação na defesa da diversidade cultural.
A futura secretária afirmou que pretende dialogar com diferentes grupos e que não considera a cultura restrita ao tradicionalismo.
A posição ganha importância em um estado cuja identidade cultural é frequentemente associada aos símbolos e às tradições gaúchas, mas que também possui expressões culturais negras, indígenas, migrantes, urbanas e periféricas.
A presença de Liliana no comando da pasta estadual poderá ampliar a representação desses diferentes segmentos na discussão sobre políticas culturais. Os resultados, porém, dependerão das prioridades definidas pelo governo, do orçamento disponível e da implementação das ações.

O que pensa a futura secretária
Em entrevista publicada por GZH, Liliana afirmou que pretende manter uma atuação aberta ao conjunto das manifestações culturais.
“Todos importam e todas as culturas importam”, declarou ao comentar sua relação com diferentes grupos e sua disposição para dialogar com pessoas de distintas posições políticas.
A futura secretária também destacou que aceitaria o convite para o governo estadual, desde que a Secretaria da Cultura fosse mantida como uma pasta própria, com estrutura e protagonismo na administração.
A declaração ocorreu em meio a dúvidas sobre a possibilidade de a área ser incorporada a outra secretaria no novo governo. Com a confirmação de que a pasta será preservada, Liliana deverá assumir o desafio de transformar o discurso de pluralidade em programas, editais, ações de formação e mecanismos de apoio aos trabalhadores do setor.
Relação política com Luciano Zucco
Liliana fez campanha para Luciano Zucco e para Flávio Bolsonaro durante o período eleitoral. Sua indicação para o governo estadual ocorre, portanto, em um contexto de alinhamento político com o grupo que venceu a disputa pelo Executivo gaúcho.
Apesar disso, ela afirmou não manter vínculos partidários que impeçam o diálogo com outros setores.
A futura secretária terá de construir relações com artistas, gestores municipais, instituições culturais, entidades da sociedade civil e representantes de diferentes correntes políticas. A capacidade de articulação será importante para a execução de políticas que dependem da cooperação entre o Estado, os municípios e organizações culturais.
A escolha também representa um gesto político dirigido ao tradicionalismo, setor com presença significativa na identidade regional e que teve participação na mobilização eleitoral de Zucco, sem deixar de sinalizar atenção à diversidade cultural.

Os desafios à frente da Secretaria da Cultura
A principal expectativa em torno da futura gestão é saber como serão definidas as prioridades para a política cultural estadual. A experiência de Liliana em eventos, poesia, tradicionalismo e Carnaval oferece conhecimento de diferentes segmentos, mas o comando da secretaria exigirá decisões administrativas e orçamentárias.
Entre os temas que deverão entrar no debate estão o financiamento da produção artística, a distribuição regional dos recursos, o apoio a festivais, a preservação do patrimônio histórico, o acesso à cultura e o fortalecimento da economia criativa.
Também haverá expectativa de diálogo com profissionais que atuam em teatro, música, dança, literatura, artes visuais, audiovisual, museus e espaços culturais independentes.
A diversidade territorial será outro ponto importante. As políticas estaduais precisam alcançar tanto Porto Alegre e a Região Metropolitana quanto municípios do interior, onde festivais, grupos artísticos, centros culturais e iniciativas comunitárias dependem de apoio e de oportunidades de circulação.
A indicação de Liliana abre uma nova etapa para a Secretaria da Cultura, mas as diretrizes concretas da administração deverão ser conhecidas à medida que a equipe de governo apresentar seus planos.
Cultura como identidade, inclusão e atividade econômica
O setor cultural não se limita à realização de eventos ou à preservação de tradições. Ele também movimenta empregos, serviços, turismo, produção audiovisual, comércio e atividades ligadas à economia criativa.
Uma política pública consistente precisa combinar o reconhecimento do patrimônio cultural com condições para que artistas e produtores desenvolvam seus trabalhos, tenham acesso a financiamento e alcancem públicos de diferentes regiões.
Nesse cenário, a futura gestão terá de definir como distribuir recursos, estabelecer critérios transparentes para editais e garantir oportunidades a expressões culturais de diferentes origens e linguagens.
A trajetória de Liliana Cardoso reúne experiências no tradicionalismo, no Carnaval e na valorização da cultura negra. O desafio será transformar essa vivência em uma política estadual capaz de atender a um campo cultural amplo e diverso.
O Jornal MPV acompanhará a formação do novo governo gaúcho e as propostas da futura Secretaria Estadual da Cultura.










