Polícia Civil encontrou mais de 1 terabyte de arquivos em apartamento no bairro Sarandi; investigação aponta uso de inteligência artificial para manipular imagens reais e produzir novos conteúdos.
Um homem foi preso em flagrante na manhã desta quinta-feira (3), em Porto Alegre, durante uma investigação da Polícia Civil sobre armazenamento, compartilhamento e manipulação de imagens relacionadas à violência sexual contra crianças e adolescentes.
Segundo a investigação, o suspeito utilizava inteligência artificial (IA) para modificar imagens reais de vítimas e produzir novos conteúdos. A ação ocorreu em um apartamento no bairro Sarandi, na Zona Norte da Capital, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão.
A operação foi conduzida pelo Núcleo de Operações Cibernéticas da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca), com apoio de equipes especializadas e do Instituto-Geral de Perícias (IGP).
Mais de 1 terabyte de material foi localizado
Durante a operação, os investigadores apreenderam um celular, um tablet, um computador e um notebook, equipamentos que deverão passar por perícia.
De acordo com a Polícia Civil, foram encontrados mais de 1 terabyte de arquivos digitais relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes.
O IGP estima que o material possa reunir aproximadamente 35 mil arquivos.
A perícia deverá analisar os dispositivos para identificar a origem dos arquivos, a forma como foram produzidos e compartilhados e possíveis conexões com outras pessoas ou redes de distribuição.
O nome do investigado não foi divulgado pelas autoridades.

Imagens reais teriam sido manipuladas com inteligência artificial
Um dos principais elementos identificados durante a investigação é o uso de ferramentas de inteligência artificial para modificar imagens reais de vítimas.
Segundo a Polícia Civil, o suspeito utilizava imagens que já existiam para criar novas representações por meio de ferramentas digitais.
A tecnologia, conforme os investigadores, permitia que uma única imagem fosse utilizada para gerar diversos novos arquivos.
Além da manipulação de imagens reais, a polícia também identificou conteúdos produzidos artificialmente.
As autoridades não divulgaram os arquivos nem detalhes visuais do material, preservando as vítimas e evitando a reprodução de conteúdo criminoso.
Prisão é a primeira do tipo no Estado
Segundo a Polícia Civil, esta é a primeira prisão registrada no Rio Grande do Sul relacionada especificamente à manipulação de imagens de violência sexual infantil por inteligência artificial.
O caso ocorre poucas semanas depois da entrada em vigor de uma nova legislação federal que passou a tratar expressamente desse tipo de conduta.
A Lei nº 15.487/2026, sancionada em 6 de agosto, alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e passou a criminalizar também a simulação da participação de crianças e adolescentes em conteúdo de violência sexual por meio de adulteração, montagem ou modificação de imagens, inclusive com uso de inteligência artificial.

Nova lei prevê prisão para manipulação com IA
A legislação criou uma previsão específica no artigo 241-C do ECA.
O dispositivo estabelece pena de reclusão de três a cinco anos e multa para quem simular a participação de criança ou adolescente em conteúdo de violência sexual por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou outra representação visual, utilizando qualquer recurso tecnológico, inclusive inteligência artificial.
A mesma legislação também prevê punição para quem vende, distribui, publica, divulga, adquire, possui ou armazena o material produzido dessa maneira.
A alteração entrou em vigor na data de sua publicação, em agosto de 2026.
Armazenamento e compartilhamento também são crimes
Além da manipulação de imagens, o investigado foi autuado por condutas relacionadas ao armazenamento e compartilhamento de material de violência sexual contra crianças e adolescentes.
O ECA estabelece punições específicas para essas práticas.
O artigo 241-A prevê pena de quatro a dez anos de reclusão e multa para quem oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar esse tipo de material.
Já o artigo 241-B prevê pena de três a seis anos de reclusão e multa para quem adquirir, possuir, armazenar ou solicitar esse conteúdo.
Com a nova legislação, o ordenamento jurídico brasileiro passou a abranger de maneira mais específica situações envolvendo material produzido ou manipulado digitalmente.

Investigação tenta descobrir se havia comercialização
A Polícia Civil ainda investiga a extensão da atividade atribuída ao suspeito.
Entre os pontos que deverão ser esclarecidos está a possibilidade de comercialização ou distribuição sistemática dos arquivos pela internet.
Os equipamentos apreendidos serão submetidos a análise técnica para identificar arquivos, conexões, contas, dispositivos e possíveis contatos relacionados à atividade investigada.
A perícia também poderá ajudar a estabelecer quando o material foi produzido ou armazenado e se houve compartilhamento com outras pessoas.
Suspeito possui antecedentes
Segundo a Polícia Civil, o homem possui antecedentes criminais.
As autoridades, porém, não divulgaram detalhes sobre os registros anteriores.
Após a prisão em flagrante, ele deverá ser encaminhado ao sistema prisional e ficará à disposição da Justiça.
A investigação continuará mesmo após a prisão, especialmente para determinar a extensão dos crimes e eventual participação de outras pessoas.

Operação ocorreu pela manhã
A ação policial ocorreu por volta das 7h15 desta quinta-feira.
O suspeito foi localizado em um apartamento no bairro Sarandi, onde os equipamentos utilizados para armazenamento dos arquivos foram encontrados.
Segundo informações divulgadas sobre a operação, o investigado trabalhava durante a madrugada na área de manutenção de uma empresa de ônibus e foi abordado após retornar para casa.
O material estava concentrado principalmente no quarto utilizado pelo suspeito.
A Polícia Civil informou que a investigação vinha sendo conduzida pelo Núcleo de Operações Cibernéticas da Deca antes da expedição do mandado judicial.
Caso ocorre em meio ao aumento dos crimes digitais
A prisão acontece em um momento de crescimento dos registros relacionados à exploração de imagens de violência sexual contra crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul.
Entre janeiro e julho de 2026, a Secretaria da Segurança Pública registrou 139 ocorrências relacionadas aos crimes de pornografia infantojuvenil e divulgação de cenas de estupro, sexo ou pornografia envolvendo menores de idade.
No mesmo período de 2025, foram registrados 92 casos, um aumento de aproximadamente 51%.
Porto Alegre lidera os registros no Estado, com 23 ocorrências, seguida por Canoas, com 16; Esteio, com nove; e Gravataí e Viamão, com cinco cada.
A Polícia Civil afirma que parte do aumento também está relacionada à ampliação das denúncias, ao maior uso da internet por crianças e adolescentes, ao aprimoramento das investigações e aos mecanismos utilizados pelas plataformas digitais para identificar e comunicar conteúdos suspeitos.

IA cria novo desafio para as autoridades
O uso de inteligência artificial acrescenta uma nova camada de complexidade às investigações.
A tecnologia permite alterar imagens existentes e produzir representações que podem dificultar a identificação da origem do material.
Para os investigadores, uma das principais questões é determinar se determinada imagem representa uma situação real ou se foi criada artificialmente a partir de material anterior.
No caso investigado em Porto Alegre, a Polícia Civil afirma ter encontrado tanto imagens reais manipuladas quanto conteúdos produzidos artificialmente.
A nova legislação brasileira passou a considerar expressamente esse tipo de representação dentro do conceito de conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes.
Proteção das vítimas é prioridade
A legislação atual também reconhece os impactos causados pela circulação desse tipo de material.
O Estatuto da Criança e do Adolescente passou a estabelecer que vítimas ou testemunhas de violência sexual têm direito a atendimento psicológico e psicossocial especializado, contínuo e integral.
A legislação considera ainda os efeitos da chamada revitimização provocada pela reprodução e circulação do material em ambientes digitais, inclusive quando o conteúdo permanece disponível ou circula internacionalmente.
Isso significa que, mesmo quando uma imagem antiga volta a circular ou é manipulada digitalmente, os impactos sobre a vítima podem continuar.

Polícia orienta população a não compartilhar conteúdo
As autoridades recomendam que pessoas que encontrem material suspeito não façam download, não encaminhem e não compartilhem os arquivos.
O conteúdo deve ser comunicado às autoridades competentes, preservando informações que possam ajudar na identificação da origem da publicação.
O compartilhamento, mesmo com a intenção de denunciar, pode contribuir para a circulação do material e prejudicar a preservação das provas.
Como denunciar
Casos suspeitos envolvendo violência ou exploração sexual de crianças e adolescentes podem ser comunicados às autoridades.
Entre os canais disponíveis estão:
📞 190 — Brigada Militar, em situações de emergência.
📞 197 — Polícia Civil, para denúncias e informações sobre crimes.
📞 181 — Disque-Denúncia.
📞 0800 642 6400 — Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca).
📞 Disque 100 — Direitos Humanos.
Em Porto Alegre, também existem canais específicos ligados ao Ministério Público e ao Juizado da Infância e Juventude.

Investigação continua
A prisão representa uma etapa da investigação, mas o caso ainda não está encerrado.
Os equipamentos apreendidos passarão por perícia e poderão fornecer informações sobre a origem dos arquivos, possíveis compartilhamentos e eventual participação de outras pessoas.
A Polícia Civil também deverá verificar se o investigado produzia os conteúdos apenas para armazenamento próprio ou se havia distribuição ou comercialização.
Por enquanto, o homem permanece na condição de investigado e responderá ao processo conforme as decisões da Justiça.
A investigação deverá definir a extensão das condutas atribuídas a ele e quais crimes serão efetivamente considerados no processo.
📊 O caso em números
📍 Local: bairro Sarandi, Zona Norte de Porto Alegre
📅 Prisão: quinta-feira, 3 de setembro de 2026
👤 Investigado: homem
💾 Material localizado: mais de 1 terabyte
📁 Arquivos estimados pelo IGP: cerca de 35 mil
💻 Equipamentos apreendidos: celular, tablet, computador e notebook
🤖 Tecnologia investigada: inteligência artificial
👮 Investigação: Núcleo de Operações Cibernéticas da Deca
⚖️ Situação: preso em flagrante e à disposição da Justiça
⚖️ O que mudou na lei?
A Lei nº 15.487/2026 alterou o ECA e passou a prever expressamente a punição para a utilização de recursos tecnológicos, inclusive inteligência artificial, na adulteração, montagem ou modificação de imagens que simulem a participação de crianças ou adolescentes em conteúdo de violência sexual.
Para essa conduta, o artigo 241-C prevê reclusão de três a cinco anos e multa.










