A discussão sobre o futuro das emendas parlamentares impositivas voltou ao centro do debate político em Porto Alegre após vereadores da base do prefeito Sebastião Melo (MDB) votarem contra a proposta que pretende extinguir esse mecanismo de destinação de recursos públicos. A decisão ocorreu na quarta-feira (21), durante reunião conjunta das comissões da Câmara Municipal.
O projeto foi apresentado em meio às repercussões da Operação Cinesia, investigação do Ministério Público que apura suspeitas de desvio de recursos públicos destinados à área da saúde. O vereador Giovane Byl (Podemos) foi preso no âmbito da operação e é suspeito de envolvimento no caso. As suspeitas ainda dependem da apuração das autoridades e não devem ser tratadas como culpa comprovada.
Apesar da resistência de parte dos parlamentares, o projeto poderá avançar na Câmara e ser incluído na pauta do plenário. A tramitação, porém, não significa que a proposta tenha sido aprovada definitivamente.
O que aconteceu na Câmara de Porto Alegre?
Durante a análise nas comissões, a proposta de extinguir as emendas impositivas recebeu votos contrários de 15 vereadores. Em quatro das seis comissões envolvidas, houve empate. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) rejeitou o projeto, enquanto a Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (Cuthab) aprovou a continuidade da proposta.
O empate permitiu que a matéria pudesse seguir para inclusão na ordem do dia e votação em plenário. Portanto, a discussão ainda não está encerrada: caberá aos vereadores decidir se o mecanismo será mantido ou extinto.
Um dos episódios da reunião envolveu o vereador Idenir Cecchim (MDB), líder do governo na Câmara. Inicialmente contrário à continuidade da proposta na Cuthab, ele retificou o voto, permitindo o avanço da tramitação.
O prefeito Sebastião Melo, segundo a reportagem, defende pessoalmente que o Legislativo não deveria determinar a destinação de parte do orçamento municipal. Apesar disso, deixou a decisão sobre o projeto para os parlamentares.

Por que as emendas impositivas estão sendo questionadas?
A proposta ganhou força após a deflagração da Operação Cinesia, do Ministério Público, que investiga suspeitas de desvio de recursos públicos destinados à saúde.
A investigação colocou sob questionamento os mecanismos de indicação, repasse e fiscalização das emendas parlamentares. O debate passou a envolver não apenas a continuidade do instrumento, mas também a transparência na aplicação do dinheiro público e a responsabilidade dos agentes envolvidos na destinação dos recursos.
O vereador Roberto Robaina (PSOL), autor da proposta de extinção, argumenta que o sistema de emendas cria distorções na política e pode favorecer parlamentares que já possuem mandato. Para ele, a distribuição de recursos públicos por meio desse mecanismo precisa ser revista.
Por outro lado, vereadores contrários ao fim das emendas defendem que os recursos são importantes para financiar serviços de saúde e apoiar projetos de interesse das comunidades. Entre os argumentos apresentados está a necessidade de melhorar os controles e a fiscalização, em vez de eliminar o instrumento.
Assim, o debate na Câmara reúne duas posições principais: extinguir as emendas impositivas ou mantê-las com mecanismos de controle mais rigorosos.
Como funcionam as emendas impositivas em Porto Alegre?
As emendas impositivas permitem que vereadores indiquem a destinação de uma parcela do orçamento municipal para ações, serviços e projetos específicos. Diferentemente de indicações sem execução obrigatória, esse mecanismo determina que a Prefeitura execute as emendas que cumpram os requisitos legais e técnicos.
Em Porto Alegre, o instrumento foi incorporado à Lei Orgânica do Município em 2019. As regras estabelecem um limite vinculado à receita corrente líquida municipal e determinam que pelo menos metade dos recursos seja destinada à saúde.
No orçamento de 2026, o total previsto para as emendas impositivas chegou a aproximadamente R$ 65,9 milhões. Cada um dos 35 vereadores teve cerca de R$ 1,88 milhão para indicar a diferentes finalidades, respeitando as normas vigentes.
Os recursos podem beneficiar áreas como saúde, educação, esporte, cultura e assistência social, além de hospitais, órgãos públicos e entidades habilitadas, conforme as regras aplicáveis.
A execução, contudo, depende de análise técnica e do cumprimento das exigências legais. A Prefeitura precisa verificar se as indicações são viáveis, se os destinatários atendem aos requisitos e se a aplicação dos valores está de acordo com a finalidade prevista.

O que pode acontecer agora?
Com o avanço da tramitação, o projeto poderá ser levado ao plenário da Câmara Municipal. A votação será decisiva para definir se a proposta de extinção continuará avançando ou será rejeitada pelos vereadores.
Caso a iniciativa seja aprovada, os efeitos dependerão do texto final e das etapas legislativas necessárias. Se for rejeitada, as emendas impositivas continuarão existindo, sujeitas às regras de execução e fiscalização vigentes.
Enquanto isso, a discussão sobre transparência e controle dos recursos permanece no centro do debate político municipal. A investigação sobre suspeitas de irregularidades também reforça a importância de acompanhar como o dinheiro público é destinado, transferido e utilizado.
A decisão dos vereadores poderá influenciar diretamente a relação entre o Legislativo e o Executivo na definição de prioridades do orçamento de Porto Alegre, além de afetar o modelo pelo qual parlamentares direcionam recursos a serviços e projetos da cidade.
Como votaram os vereadores nas comissões?
Conforme a reportagem publicada pelo GZH, os seguintes parlamentares votaram contra a proposta de extinção das emendas:
- Jessé Sangali (PL)
- Gilson Padeiro (PSDB)
- Marcio Bins Ely (PDT)
- Mauro Pinheiro (PP)
- Tiago Albrecht (Novo)
- Fernanda Barth (PL)
- Marcelo Ustra (PL)
- José Freitas (Republicanos)
- Carlo Carotenuto (Republicanos)
- Professor Vitorino Baseggio (MDB)
- Vera Armando (PP)
- Marcelo Bernardi (PSDB)
- Claudia Araújo (PSD)
- Hamilton Sossmeier (Podemos)
- Tanise Sabino (MDB)
Votaram a favor da proposta:
- Ramiro Rosário (Novo)
- Alexandre Bublitz (PT)
- Roberto Robaina (PSOL)
- Giovani Culau (PCdoB)
- Karen Santos (PSOL)
- Jonas Reis (PT)
- Pedro Ruas (PSOL)
- Idenir Cecchim (MDB), após retificar o voto inicial
- Grazi Oliveira (PSOL)
- Juliana de Souza (PT)
- Natasha Ferreira (PT)
- Erick Dênil (PCdoB)
- Aldacir Oliboni (PT)
- Atena Roveda (PSOL)
- Professor Tovi (Republicanos)
As vereadoras Comandante Nádia (PL) e Mariana Lescano (PP) estavam ausentes.
Importante: os votos listados correspondem à deliberação nas comissões relatada pela imprensa, e não a uma votação final do projeto em plenário.










