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Emergências chegam a 250% de ocupação

Hospitais do SUS chegam a registrar mais que o dobro de pacientes em relação ao número de leitos disponíveis. Envelhecimento da população, doenças crônicas, procura de moradores da Região Metropolitana e demora por internações estão entre os principais fatores da crise.

A superlotação das emergências hospitalares de Porto Alegre deixou de ser um problema restrito aos períodos de inverno e passou a fazer parte da rotina dos principais hospitais públicos da Capital. Unidades de alta complexidade enfrentam uma demanda superior à capacidade instalada, com pacientes aguardando internação em corredores, cadeiras e espaços improvisados.

Um levantamento divulgado nesta sexta-feira (30) pela GZH mostra a dimensão do problema. Em situações registradas durante uma visita realizada em 2 de outubro, hospitais de referência do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentavam ocupações muito acima do número de leitos disponíveis.

No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, por exemplo, havia 132 pacientes para uma estrutura de 56 leitos. Isso representa uma ocupação de aproximadamente 235% da capacidade instalada.

No Hospital Nossa Senhora da Conceição, a situação também era preocupante: mais de 90 pessoas eram atendidas em uma emergência com 51 leitos, equivalente a aproximadamente 176% da capacidade.

Já a Santa Casa de Misericórdia informou que sua emergência, com 28 leitos, frequentemente opera com ocupação entre 200% e 250%.

O cenário evidencia uma pressão crescente sobre a rede pública de saúde e levanta questionamentos sobre a capacidade de atendimento, a disponibilidade de leitos e a integração entre os municípios gaúchos. GZH+1

Por que os hospitais estão sempre lotados?

A superlotação não está relacionada a um único fator. Segundo profissionais de saúde e gestores ouvidos na reportagem, diferentes problemas estruturais contribuem para o aumento da procura e dificultam a liberação de vagas.

Entre os principais motivos estão o envelhecimento da população, o crescimento dos atendimentos de pacientes com doenças crônicas, o aumento dos casos oncológicos e a procura por hospitais de referência por moradores de outras cidades.

O envelhecimento populacional tem impacto direto na demanda hospitalar. Com o aumento da expectativa de vida, cresce também o número de pessoas que precisam de acompanhamento contínuo, internações e procedimentos de maior complexidade.

Pacientes com problemas cardíacos, doenças pulmonares, diabetes, câncer e outras condições crônicas podem apresentar agravamentos que exigem atendimento hospitalar imediato.

Segundo o monitoramento da Secretaria Municipal de Saúde, pacientes oncológicos e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos que mais demandam atendimento nas emergências da capital.

Esse cenário faz com que hospitais especializados recebam um fluxo constante de pacientes, inclusive de outras regiões do Estado.

Moradores da Região Metropolitana representam mais da metade das internações

Outro fator importante é a procura de moradores de municípios da Região Metropolitana pelos hospitais de Porto Alegre.

Conforme levantamento da Secretaria Municipal de Saúde, pacientes provenientes de outras cidades representam entre 51% e 59% das internações originadas pelas emergências nas instituições de alta complexidade da Capital.

Isso significa que mais da metade das internações consideradas nesse levantamento envolve pessoas que não residem em Porto Alegre.

Moradores de municípios como Viamão e outras cidades da Região Metropolitana acabam procurando atendimento na Capital quando encontram dificuldades para conseguir assistência especializada em seus locais de origem.

A concentração de serviços de alta complexidade em Porto Alegre transforma a cidade em referência regional, mas também aumenta a pressão sobre hospitais que precisam atender simultaneamente a população local e pacientes encaminhados de diferentes municípios.

O problema evidencia a necessidade de fortalecer a estrutura hospitalar e os serviços de saúde nas cidades da Região Metropolitana.

Pacientes permanecem dias aguardando internação

Um dos principais problemas enfrentados pelas emergências é a dificuldade de transferir pacientes para leitos de internação.

A função de uma emergência hospitalar é receber pessoas em situações graves, realizar os procedimentos necessários, estabilizar o quadro clínico e encaminhar o paciente para uma unidade adequada quando existe necessidade de permanência hospitalar.

Entretanto, quando não há vagas disponíveis nas enfermarias ou em outras unidades, os pacientes permanecem na própria emergência.

De acordo com a Prefeitura de Porto Alegre, o tempo médio de permanência nas emergências de maior porte varia entre dois e quatro dias. Em determinados casos, a espera pode chegar a 14 dias.

Essa permanência prolongada impede a liberação dos espaços para novos pacientes e contribui diretamente para o acúmulo de pessoas nas unidades.

O secretário municipal de Saúde, Fernando Ritter, reconheceu que o aumento do tempo de permanência compromete a rotatividade dos leitos e amplia a pressão sobre os serviços de emergência.

Restrição máxima limita a entrada de pacientes

Quando a estrutura hospitalar chega ao limite, algumas instituições adotam protocolos de restrição máxima.

Nessas situações, o recebimento de pacientes pode ficar limitado aos casos encaminhados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A medida busca preservar a capacidade de atendimento das equipes e garantir assistência aos pacientes que já estão dentro das unidades.

O Hospital de Clínicas tem enfrentado episódios recorrentes desse tipo de restrição. Em 23 de outubro, por exemplo, a emergência adulta registrava 161 pacientes para 56 leitos, aproximadamente 280% de ocupação, e passou a receber somente pacientes encaminhados pelo Samu durante o período determinado pelo hospital.

A restrição também é uma realidade em outras instituições de alta complexidade da Capital.

É importante destacar que a limitação não representa o fechamento completo do serviço de emergência, mas uma medida operacional diante da impossibilidade de absorver novos atendimentos com segurança.

Profissionais de saúde também sofrem com a superlotação

A crise não afeta somente os pacientes. Médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem também enfrentam condições de trabalho cada vez mais difíceis.

Com mais pessoas do que a estrutura comporta, as equipes precisam ampliar os esforços para manter os atendimentos, administrar medicamentos, acompanhar pacientes e realizar procedimentos em espaços limitados.

A sobrecarga pode provocar afastamentos por esgotamento profissional, dificuldades para completar escalas e necessidade de convocação de trabalhadores para horas extras.

No Hospital Conceição, profissionais relataram dificuldades até mesmo para realizar exames e administrar medicamentos em pacientes que precisam permanecer sentados nos corredores.

O problema cria um ciclo preocupante: quanto maior a lotação, maior a exigência sobre as equipes e mais difícil se torna manter a qualidade e a segurança da assistência.

Rio Grande do Sul perdeu leitos em algumas especialidades

Outro ponto que chama atenção é a evolução da disponibilidade de leitos hospitalares no Estado.

Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, comparados entre setembro de 2024 e setembro de 2026, apontam redução de leitos clínicos, cirúrgicos, pediátricos e obstétricos pelo SUS no Rio Grande do Sul.

Apesar disso, houve crescimento em outras categorias, como hospital-dia, outras especialidades e vagas complementares, incluindo unidades de terapia intensiva.

A Secretaria Estadual da Saúde afirmou que, entre 2022 e 2026, a oferta de leitos por mil habitantes permaneceu praticamente estável, com pequeno aumento no número absoluto.

A pasta também destacou que a quantidade de leitos, isoladamente, não determina a capacidade de atendimento. O tempo de permanência dos pacientes, a ocupação e a velocidade de liberação das vagas também influenciam diretamente o funcionamento dos hospitais.

Enchente de 2024 também deixou consequências na rede hospitalar

A situação da saúde na Região Metropolitana também foi afetada pelos impactos da enchente de 2024.

O secretário municipal de Saúde de Porto Alegre apontou o fechamento de instituições atingidas pela catástrofe, como o Hospital de Pronto Socorro de Canoas, entre os fatores que contribuíram para aumentar a procura por atendimento na Capital.

A dificuldade de atendimento em municípios vizinhos acaba direcionando parte dos pacientes para os hospitais de Porto Alegre, que já trabalham com elevada demanda.

Esse cenário demonstra como os problemas enfrentados por uma cidade podem afetar diretamente a estrutura de saúde de toda uma região.

Governo anuncia investimentos e ampliação de leitos

Mesmo diante das dificuldades, existem iniciativas para ampliar a capacidade de atendimento hospitalar.

Segundo informações do Ministério da Saúde divulgadas à reportagem, os repasses federais destinados aos serviços de média e alta complexidade no Rio Grande do Sul chegaram a R$ 1,37 bilhão em 2025, crescimento de 26% em relação a 2022.

O governo federal também informou ter destinado R$ 83,25 milhões para 13 estabelecimentos de saúde de Porto Alegre, Viamão e Gravataí.

Os recursos têm como objetivo ampliar leitos de enfermaria, unidades de terapia intensiva e serviços de urgência e emergência.

Outro dado apresentado pelo Ministério da Saúde é que Porto Alegre recebeu 322 novos leitos desde 2023.

Desse total:

  • Hospital Nossa Senhora da Conceição: 97 novos leitos.
  • Hospital de Clínicas: 71 novos leitos.
  • Santa Casa: 33 novos leitos.

A Prefeitura de Porto Alegre também cita a ampliação de 70 leitos no Hospital Porto Alegre, além de projetos de duplicação do Hospital de Pronto Socorro (HPS) e ampliação do Hospital Independência.

Entretanto, a construção e a ampliação de estruturas hospitalares exigem planejamento, recursos e tempo para que os novos espaços estejam efetivamente disponíveis à população.

Programa Melhor em Casa pode ajudar a liberar vagas

Uma das alternativas utilizadas para diminuir a pressão sobre os hospitais é o programa Melhor em Casa, iniciativa do SUS voltada ao atendimento domiciliar.

O serviço oferece acompanhamento multiprofissional na residência de pacientes que precisam de cuidados contínuos, mas que apresentam condições clínicas para concluir parte do tratamento fora do ambiente hospitalar.

Com isso, pacientes que não precisam permanecer internados podem continuar recebendo assistência em casa, liberando leitos para pessoas que necessitam de internação.

O programa está presente em 38 municípios gaúchos e conta com 71 equipes.

Em Porto Alegre, a administração municipal informou que acompanha aproximadamente 900 pacientes pelo serviço e anunciou a intenção de ampliar o atendimento com mais 350 vagas.

A iniciativa depende de equipes preparadas, acompanhamento adequado e integração entre os hospitais e os serviços de atenção domiciliar.

Atenção básica também precisa ser fortalecida

Além da ampliação de hospitais, especialistas apontam que o fortalecimento das unidades básicas de saúde é fundamental para reduzir a procura pelas emergências.

Quando pacientes com doenças crônicas conseguem acompanhamento regular, consultas, exames e acesso aos medicamentos, existe maior possibilidade de evitar o agravamento de determinadas condições.

Por outro lado, quando o atendimento básico não consegue absorver a demanda, muitos pacientes acabam procurando as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e, posteriormente, hospitais de maior complexidade.

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) aponta dificuldades relacionadas à estrutura e à rotatividade de profissionais em unidades de saúde.

A Prefeitura, por sua vez, afirma que houve redução na fila por consultas médicas em Porto Alegre, que passou de 168 mil pessoas em fevereiro de 2025 para aproximadamente 149 mil.

O município também destaca a ampliação de equipes multidisciplinares, com profissionais de diferentes áreas da saúde.

O que precisa mudar para reduzir a superlotação?

O cenário apresentado demonstra que a crise das emergências não será resolvida apenas com a abertura de novos leitos.

É necessário melhorar a integração entre hospitais, municípios, UPAs e unidades básicas de saúde, além de garantir condições para que pacientes possam continuar seus tratamentos próximos de onde residem.

A regionalização da saúde é apontada pela Secretaria Estadual da Saúde e pela gestão municipal como um dos caminhos para reduzir os deslocamentos desnecessários até Porto Alegre.

Isso exige planejamento conjunto, distribuição adequada de recursos, fortalecimento dos hospitais regionais e organização das transferências entre instituições.

Enquanto essas medidas não avançam de maneira suficiente, os hospitais de referência da Capital continuam enfrentando uma demanda que, em determinados momentos, ultrapassa amplamente sua capacidade física.

Para quem depende exclusivamente do SUS, a superlotação representa mais do que números: significa espera prolongada, dificuldades para conseguir internação e pressão sobre profissionais que trabalham diariamente para manter os serviços funcionando.

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