A restrição ao uso de celulares nas escolas brasileiras provocou mudanças que vão além da organização das salas de aula. Desde a entrada em vigor da legislação que limita a utilização desses dispositivos no ambiente escolar, instituições de ensino passaram a ampliar as discussões sobre saúde mental, uso consciente da tecnologia, inteligência artificial e participação das famílias na educação digital dos estudantes.
Os dados constam na pesquisa TIC Educação 2025, divulgada nesta semana pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). O levantamento mostra que o debate sobre o impacto das telas ganhou força nas escolas públicas e privadas de todo o país, refletindo uma preocupação crescente com os efeitos do uso excessivo de dispositivos eletrônicos entre crianças e adolescentes.
Regras para celulares lideram discussões com famílias
Segundo a pesquisa, as reuniões promovidas pelas escolas com pais, mães e responsáveis passaram a abordar com maior frequência temas relacionados ao ambiente digital.
Em 2025, 75% das instituições realizaram encontros para discutir o uso das tecnologias, percentual superior aos 60% registrados no ano anterior. Entre os assuntos mais debatidos, as regras para utilização de celulares aparecem na primeira colocação, presentes em 83% das escolas, contra 70% em 2024.
O crescimento demonstra que a proibição do uso dos aparelhos não encerrou o tema. Pelo contrário, impulsionou um diálogo mais amplo sobre os limites da tecnologia, a responsabilidade das famílias e a necessidade de construir hábitos digitais mais saudáveis entre os estudantes.
Saúde mental passa a ocupar espaço permanente nas escolas
Outro dado que chama atenção é o avanço das discussões sobre os impactos das tecnologias na saúde mental.
De acordo com a TIC Educação 2025, 80% das escolas brasileiras passaram a tratar o tema, índice que representa um crescimento de 18 pontos percentuais em relação ao ano anterior, quando o percentual era de 62%.
O aumento reflete uma preocupação crescente de educadores diante do tempo prolongado de exposição às telas, especialmente fora do ambiente escolar.
Especialistas apontam que o uso excessivo de celulares e redes sociais pode influenciar aspectos importantes do desenvolvimento infantil e adolescente, como concentração, qualidade do sono, rendimento escolar, relações sociais e equilíbrio emocional. Embora os efeitos variem conforme o perfil de cada estudante e a forma de utilização da tecnologia, o consenso entre educadores é que o tema precisa ser debatido de maneira permanente.
Inteligência artificial também entra na pauta
Além dos celulares, outro assunto que ganhou espaço nas escolas é a utilização da inteligência artificial.
Ferramentas baseadas em IA passaram a integrar tanto atividades pedagógicas quanto processos administrativos, exigindo novas orientações para professores, gestores e estudantes.
A pesquisa indica que a Região Sul apresenta um dos maiores índices de utilização dessas tecnologias em tarefas de gestão escolar, evidenciando que a transformação digital da educação não se limita ao uso de computadores em sala de aula, mas alcança diferentes áreas da administração educacional.
O avanço dessas ferramentas também traz novos desafios relacionados ao uso ético da tecnologia, à produção de trabalhos acadêmicos, à verificação de informações e ao desenvolvimento da aprendizagem sem dependência excessiva de sistemas automatizados.
Nova legislação ampliou o debate nacional
O fortalecimento das discussões ocorre após a implementação da legislação federal que restringiu o uso de celulares nas escolas brasileiras.
A norma estabelece limites para a utilização dos aparelhos durante as atividades escolares e foi acompanhada por outras iniciativas voltadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, como mecanismos de verificação de idade e ampliação das ferramentas de supervisão parental em plataformas digitais.
Embora tenha gerado debates entre estudantes, professores e famílias, a medida passou a ser vista por muitas instituições como uma oportunidade para repensar o papel das tecnologias no processo de aprendizagem.
Escolas buscam equilíbrio entre tecnologia e educação
Especialistas em educação ressaltam que a discussão não envolve a eliminação da tecnologia das escolas, mas o uso adequado das ferramentas digitais.
Computadores, tablets, plataformas educacionais e recursos de inteligência artificial continuam sendo considerados importantes instrumentos de apoio ao ensino quando utilizados de forma planejada e com objetivos pedagógicos claros.
O desafio das instituições é construir um ambiente em que a tecnologia contribua para o aprendizado sem substituir o desenvolvimento da concentração, da convivência presencial, da leitura, do pensamento crítico e das habilidades socioemocionais.
Nesse contexto, cresce a percepção de que a educação digital deve envolver não apenas alunos e professores, mas também as famílias, que desempenham papel fundamental na definição de hábitos relacionados ao uso de celulares, redes sociais e demais dispositivos eletrônicos.
Educação digital se consolida como novo desafio
Os resultados da TIC Educação 2025 indicam que o debate sobre celulares nas escolas deixou de ser apenas uma questão disciplinar e passou a integrar uma discussão mais ampla sobre saúde mental, cidadania digital e formação das novas gerações.
Com a presença cada vez maior das tecnologias na rotina de crianças e adolescentes, escolas brasileiras tendem a ampliar ações de orientação, conscientização e educação para o uso responsável dos recursos digitais.
O cenário aponta que, mais do que proibir ou permitir dispositivos eletrônicos, o principal desafio da educação será preparar estudantes para utilizar a tecnologia de forma crítica, equilibrada e segura, conciliando inovação, aprendizagem e bem-estar.








