Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisou ocorrências em cinco capitais, incluindo Porto Alegre, e identificou aumento de ameaças e lesões corporais durante dias de partidas
Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) identificou aumento nos registros de violência contra mulheres em dias de jogos de futebol. A pesquisa, divulgada nesta terça-feira (11), analisou ocorrências registradas em cinco capitais brasileiras — entre elas Porto Alegre — e comparou os dados de violência com o calendário das principais competições nacionais e internacionais entre 2023 e 2025.
O estudo aponta que, nos dias em que um time da própria cidade disputou uma partida, houve aumento de 27,4% nos registros de ameaça e de 28,8% nas ocorrências de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica.
Foram considerados jogos do Campeonato Brasileiro, da Copa Sul-Americana e da Copa Libertadores, envolvendo equipes das cidades analisadas.
O levantamento foi patrocinado pelo Magazine Luiza e representa a segunda edição da pesquisa sobre a relação entre futebol e violência contra a mulher.
Futebol não é apontado como causa da violência
Os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o futebol, isoladamente, não é apontado como causador da violência.
A pesquisa trabalha com a ideia de que os dias de jogos podem funcionar como um catalisador de comportamentos e dinâmicas de violência que já existem dentro das relações familiares.
A alteração da rotina doméstica, o consumo de bebidas alcoólicas, as apostas esportivas e determinados padrões associados à masculinidade e à cultura de torcidas são apontados como elementos que podem contribuir para o aumento dos episódios.
Segundo o estudo, a combinação desses fatores pode elevar o risco de agressões principalmente dentro de residências.
O resultado, portanto, não significa que torcedores sejam necessariamente mais violentos ou que uma partida provoque automaticamente uma agressão. A relação identificada é estatística e está associada a um contexto mais amplo de violência doméstica.
Porto Alegre está entre as capitais analisadas
Porto Alegre foi uma das cinco capitais utilizadas na pesquisa.
Além da capital gaúcha, o levantamento analisou dados de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte.
A escolha das cidades permitiu comparar os registros de violência em períodos com e sem partidas de equipes locais e verificar se havia alteração significativa nos indicadores.
O recorte é particularmente relevante para Porto Alegre devido à presença de dois grandes clubes de futebol e à forte mobilização provocada pelos jogos.
A pesquisa, entretanto, não atribui a violência a um clube específico. O objetivo é avaliar a relação entre dias de partidas e registros de violência contra mulheres, independentemente da equipe envolvida.
Ameaças aumentaram 27,4%
Um dos indicadores avaliados foi o crime de ameaça relacionado à violência doméstica.
Nos dias em que havia jogo de um time da cidade, os registros aumentaram 27,4% em comparação com os dias sem partidas.
A ameaça pode representar uma etapa anterior à agressão física e está entre os mecanismos utilizados para intimidar ou controlar vítimas dentro de relações familiares.
O dado é relevante porque demonstra que o impacto identificado pela pesquisa não aparece apenas em episódios de agressão física consumada.
A elevação também ocorre em registros relacionados a ameaças, indicando que períodos de maior tensão podem estar associados a diferentes formas de violência.
Lesões corporais tiveram alta de 28,8%
O maior aumento identificado ocorreu nos registros de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica, com crescimento de 28,8% nos dias de jogos.
Nesse grupo estão ocorrências em que a vítima sofreu agressão física intencional.
O estudo destaca que uma parcela significativa desses episódios acontece dentro da própria residência.
Entre os registros analisados, 62,8% das lesões corporais ocorreram em casa. No caso das ameaças, o percentual chegou a 47,3%.
Os números reforçam que o problema não está concentrado nos estádios ou no entorno das arenas esportivas.
Na realidade, a maior parte das ocorrências acontece em ambientes privados, onde a vítima pode estar convivendo diretamente com o agressor.
Álcool e apostas aparecem entre os fatores de atenção
O estudo também chama atenção para dois elementos que ganharam espaço no ambiente do futebol nos últimos anos: consumo de bebidas alcoólicas e apostas esportivas.
A pesquisa não trata o álcool como causa isolada da violência. O consumo, entretanto, pode funcionar como fator agravante em situações nas quais já existem conflitos, comportamentos agressivos ou relações marcadas por violência.
As apostas também são apontadas como elemento que merece atenção, especialmente porque podem aumentar a tensão emocional e financeira em determinadas famílias.
O estudo recomenda que ações de prevenção considerem esses fatores durante períodos de partidas.
Mulheres negras são maioria das vítimas
O levantamento também apresentou um recorte racial.
As mulheres negras representam a maior parcela das vítimas nos registros analisados. Entretanto, a diferença entre dias normais e dias de jogos foi proporcionalmente maior entre mulheres brancas.
Entre mulheres negras, os registros de lesão corporal aumentaram 23,2% nos dias de jogos, enquanto as ameaças cresceram 14,6%.
Entre mulheres brancas, o aumento chegou a 36,2% nas lesões corporais e 30,9% nas ameaças.
O estudo apresenta hipóteses para explicar essa diferença.
Entre elas está a possibilidade de mulheres negras estarem mais frequentemente trabalhando nos horários das partidas, além da possibilidade de episódios de violência serem menos registrados em determinados contextos sociais devido à normalização de situações violentas.
Os pesquisadores destacam, porém, que os dados precisam ser interpretados considerando as diferentes condições sociais e econômicas das mulheres.
Segunda edição mostra agravamento do cenário
A pesquisa divulgada em 2026 é uma atualização de um estudo anterior sobre a relação entre futebol e violência contra a mulher.
A primeira edição analisou dados de 2015 a 2018.
Naquele período, os pesquisadores haviam identificado aumento de 23,7% nos registros de ameaça e de 20,8% nos casos de lesão corporal em dias de jogos.
Na nova análise, realizada com dados de 2023 a 2025, os percentuais subiram para 27,4% e 28,8%, respectivamente.
A comparação indica que a associação entre dias de jogos e aumento dos registros permanece presente e aparece de forma mais intensa no período mais recente analisado.
Violência doméstica ocorre principalmente dentro de casa
Um dos pontos centrais da pesquisa é desmontar a ideia de que o problema estaria concentrado em torcidas, estádios ou conflitos entre torcedores.
Os dados mostram que 47,3% das ameaças e 62,8% das lesões corporais acontecem dentro das residências.
Isso desloca o foco da segurança esportiva tradicional para a proteção das mulheres no ambiente doméstico.
Em dias de partidas, enquanto parte da estrutura pública se concentra na segurança dos estádios, do trânsito e das áreas de circulação de torcedores, uma parcela das vítimas permanece dentro de casa, muitas vezes convivendo com o próprio agressor.
Para os pesquisadores, essa característica precisa ser considerada na elaboração de políticas de prevenção.
Pesquisa recomenda novas medidas de prevenção
O estudo apresenta uma série de recomendações para enfrentar a violência contra mulheres relacionada ao contexto esportivo.
Entre as propostas estão a criação de postos de acolhimento e registro de violência dentro dos estádios, campanhas preventivas relacionadas ao consumo de álcool e às apostas esportivas, protocolos internos nos clubes e ações voltadas à construção de uma cultura de torcidas mais inclusiva.
Também são recomendadas iniciativas de educação relacionadas às masculinidades e ao enfrentamento da violência de gênero.
A lógica é antecipar o problema em vez de atuar apenas depois que a agressão acontece.
Calendário esportivo pode ajudar no planejamento da segurança
Uma das conclusões práticas do estudo é que o calendário esportivo pode ser utilizado como uma variável para o planejamento de políticas públicas.
Se os registros de violência aumentam de forma estatisticamente significativa em dias de partidas, órgãos responsáveis pela proteção das mulheres podem reforçar ações justamente nesses períodos.
Isso pode envolver maior divulgação dos canais de denúncia, reforço de equipes especializadas e integração entre serviços de segurança, saúde e assistência social.
No caso de cidades como Porto Alegre, onde partidas de grandes clubes mobilizam milhares de pessoas e alteram a rotina urbana, o planejamento pode considerar também os horários dos jogos e o deslocamento dos torcedores.
Violência contra a mulher já apresenta cenário preocupante no país
O levantamento sobre futebol está inserido em um cenário mais amplo de violência contra mulheres no Brasil.
Dados citados pelo estudo mostram que 37,5% das mulheres brasileiras relataram ter vivenciado alguma situação de violência em 2024, segundo levantamento publicado em 2025.
O país também registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, segundo os dados apresentados na pesquisa.
No mesmo período, foram registrados aproximadamente 280 mil boletins de ocorrência de lesão corporal dolosa relacionada à violência doméstica e 790 mil casos de ameaça.
A relação identificada entre jogos e violência, portanto, aparece dentro de um problema estrutural que ultrapassa o ambiente esportivo.
O que os dados significam para Porto Alegre
O fato de Porto Alegre integrar a pesquisa coloca a capital gaúcha dentro de um conjunto de cidades em que o comportamento dos registros foi analisado diretamente.
Os resultados não permitem afirmar que uma determinada partida ou torcida tenha causado uma ocorrência específica.
O que o estudo demonstra é uma elevação estatística dos registros de violência contra mulheres nos dias em que equipes locais disputam partidas.
Essa diferença pode ser utilizada como indicador para políticas de prevenção, especialmente em uma cidade com calendário esportivo intenso.
A conclusão central é que a segurança durante os jogos não deve ser pensada apenas para quem está no estádio ou nas ruas.
Também é necessário considerar o que pode acontecer dentro das residências durante esses períodos.
A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública reforça, assim, a necessidade de tratar a violência contra a mulher como uma questão de segurança pública que também atravessa o futebol, o calendário esportivo e as relações familiares.








