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Homem morre após 18 dias à espera de transferência

Luciano Borges Costi, de 49 anos, morreu na manhã desta quarta-feira (12), em Capão da Canoa, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, após permanecer 18 dias internado aguardando transferência para um hospital de alta complexidade em Porto Alegre. O paciente enfrentava um quadro grave de infecção e apresentava obesidade mórbida, com necessidade de estrutura hospitalar específica para o atendimento.

Luciano estava internado desde 25 de julho no Hospital Santa Luzia, em Capão da Canoa. A transferência para uma unidade da capital vinha sendo buscada desde os primeiros dias de internação, mas o encaminhamento enfrentou dificuldades relacionadas à disponibilidade de leito e à estrutura necessária para receber o paciente.

O caso ganhou também uma dimensão judicial. Familiares e pessoas próximas recorreram à Justiça para tentar acelerar a transferência, enquanto o plano de saúde e hospitais envolvidos apresentaram diferentes justificativas sobre as dificuldades encontradas durante o processo.

Paciente aguardava uma estrutura adequada

Luciano apresentava um quadro clínico considerado complexo. Além da obesidade mórbida, ele enfrentava uma infecção grave no sangue, associada a lesões na pele e a um grande lipedema na região abaixo da cintura.

O peso elevado do paciente também exigia uma estrutura diferenciada para internação, mobilização e transporte.

A situação demonstra um problema que pode ser pouco perceptível quando se fala apenas em “vaga hospitalar”: para determinados pacientes, não basta existir um leito disponível. É necessário que a unidade tenha equipamentos, equipe, espaço físico e condições técnicas compatíveis com o atendimento.

Durante o período de internação, Luciano chegou a utilizar uma estrutura improvisada depois que a cama em que estava internado apresentou problemas.

Transferência para Porto Alegre foi buscada por diferentes caminhos

Hospitais da Capital foram procurados durante a tentativa de transferência.

Entre as instituições consultadas estavam a Santa Casa de Porto Alegre e o Hospital São Lucas da PUCRS. As tentativas encontraram limitações relacionadas à disponibilidade de leitos e às condições estruturais necessárias para receber o paciente.

A família também passou a buscar alternativas por meio do plano de saúde e da Justiça.

O amigo e advogado de Luciano, Márcio Tubino, entrou com uma ação contra o IPE Saúde, solicitando providências para garantir a transferência para uma unidade adequada.

A Justiça determinou que fosse providenciada uma vaga na rede credenciada ou custeado atendimento na rede privada, além das medidas necessárias para o transporte.

Mesmo após a decisão judicial, a transferência não ocorreu dentro do período inicialmente esperado.

Vaga no Hospital de Clínicas chegou a ser encontrada

Após dias de espera, uma vaga no Hospital de Clínicas de Porto Alegre foi finalmente viabilizada.

A possibilidade de transferência surgiu em 11 de agosto, quando também foram disponibilizadas duas ambulâncias com estrutura de UTI para realizar o transporte do paciente.

A transferência, porém, não chegou a acontecer.

No mesmo período, o quadro clínico de Luciano apresentou uma piora significativa. A infecção se agravou e ele precisou ser intubado.

A condição clínica passou a dificultar o transporte, que exige segurança tanto para o paciente quanto para as equipes envolvidas.

Na manhã seguinte, 12 de agosto, Luciano morreu no Hospital Santa Luzia, antes de ser levado para Porto Alegre.

IPE Saúde contesta responsabilidade pela demora

O IPE Saúde informou que lamenta a morte do segurado e contestou a existência de uma negativa de atendimento.

Segundo o instituto, Luciano já estava internado em um hospital credenciado e, após tomar conhecimento da necessidade de transferência, foram realizadas buscas por uma vaga compatível na rede.

O IPE afirma que diferentes hospitais foram consultados e que algumas instituições informaram não possuir capacidade técnica para receber um paciente com as características clínicas apresentadas.

O instituto também declarou que conseguiu viabilizar um leito no Hospital de Clínicas e, posteriormente, uma vaga de UTI.

De acordo com a versão apresentada pelo plano, o Hospital Santa Luzia considerou que o paciente já não apresentava condições clínicas para ser transportado.

O IPE também sustenta que não possui ingerência sobre a gestão dos hospitais credenciados, a regulação interna de leitos ou as decisões médicas relacionadas ao transporte dos pacientes.

Hospitais apontam limitações de estrutura

A Santa Casa informou que avaliou as condições técnicas e assistenciais relacionadas ao caso antes de considerar o eventual recebimento do paciente.

Entre os fatores considerados estavam a segurança assistencial, disponibilidade de equipe e estrutura necessária para garantir o atendimento.

Já o Hospital São Lucas da PUCRS informou que não identificou contato formal do Hospital Santa Luzia diretamente com sua gestão de leitos.

A instituição identificou uma solicitação encaminhada pelo sistema de regulação em um momento em que a UTI estava com ocupação máxima e sem disponibilidade de vagas.

As manifestações mostram que a discussão envolve diferentes etapas do sistema de saúde: o hospital onde o paciente está internado, o plano de saúde, a regulação de leitos, o hospital de destino e a disponibilidade de transporte adequado.

Caso expõe dificuldade para pacientes com necessidades específicas

A morte de Luciano também chama atenção para uma questão estrutural do sistema de saúde: a existência de um leito não significa necessariamente que ele possa receber qualquer paciente.

Pessoas com obesidade grave podem necessitar de equipamentos específicos para transporte, camas reforçadas, macas especiais, elevadores, equipes treinadas e estrutura física compatível.

Quando essas condições não estão disponíveis, a transferência pode se tornar mais complexa.

No caso de Luciano, essa necessidade se somou a uma infecção grave e, posteriormente, à necessidade de cuidados intensivos.

O resultado foi uma espera prolongada justamente em um momento em que o quadro clínico exigia uma estrutura de maior complexidade.

Família ainda enfrentou dificuldades após a morte

As dificuldades não terminaram com o falecimento.

A família precisou buscar uma estrutura adequada para realizar o sepultamento. O corpo foi transportado até Porto Alegre e houve dificuldades para encontrar um serviço funerário com condições compatíveis com as dimensões físicas do paciente.

O desejo de Luciano era ser cremado, mas não havia, naquele momento, estrutura disponível em crematórios do Estado para realizar o procedimento.

Após uma mobilização entre familiares e amigos, foi arrecadado dinheiro para a produção de um caixão sob medida.

O sepultamento está previsto para esta sexta-feira (14), no Cemitério da Santa Casa, em Porto Alegre.

O debate vai além de uma vaga hospitalar

O caso coloca em discussão a capacidade do sistema de saúde de responder a pacientes que precisam de atendimento especializado e, ao mesmo tempo, apresentam condições que dificultam o transporte ou exigem equipamentos específicos.

Também levanta questionamentos sobre o tempo necessário para localizar uma unidade capaz de receber o paciente e sobre a articulação entre hospitais, plano de saúde, regulação e transporte.

Não cabe atribuir automaticamente a responsabilidade pela morte a uma única instituição. As diferentes partes envolvidas apresentam versões distintas sobre o processo de transferência, e a definição de eventual responsabilidade depende da análise dos registros médicos, documentos, decisões judiciais e demais elementos do caso.

O fato objetivo é que Luciano permaneceu 18 dias internado aguardando uma transferência que chegou a ser viabilizada, mas não ocorreu antes da piora definitiva de seu quadro clínico.

Transferência não aconteceu a tempo

Luciano Borges Costi morreu aos 49 anos depois de permanecer internado desde 25 de julho em Capão da Canoa.

Uma vaga no Hospital de Clínicas de Porto Alegre chegou a ser disponibilizada e havia estrutura de transporte preparada para realizar o deslocamento. Entretanto, a piora do quadro clínico e a necessidade de intubação impediram que a transferência fosse concretizada.

O caso expõe uma dificuldade que ultrapassa a simples falta de leitos: garantir atendimento de alta complexidade para pacientes que precisam de uma estrutura hospitalar específica e de transporte especializado.

Para a família, a espera terminou com a morte do paciente. Para o sistema de saúde, o episódio deixa questionamentos sobre regulação, estrutura, responsabilidade e capacidade de resposta diante de casos de alta complexidade.

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