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Duas lotações deixam de operar em Porto Alegre

Menino Deus e Jardim Vila Nova encerraram a operação nesta sexta-feira; sistema perdeu cerca de 80% dos passageiros em pouco mais de uma década

Porto Alegre perdeu, nesta sexta-feira (14), duas linhas de lotação que faziam parte da rotina de milhares de passageiros: Menino Deus e Jardim Vila Nova. A partir deste sábado (15), os itinerários deixam oficialmente de operar na Capital.

A decisão dos permissionários foi comunicada à Prefeitura e atribuída à queda no número de passageiros e à inviabilidade financeira das operações. Diferentemente dos ônibus urbanos, o sistema de lotação depende essencialmente da receita obtida com as tarifas pagas pelos usuários.

O encerramento das duas linhas não representa apenas uma alteração de itinerário. Ele expõe uma transformação mais ampla no transporte coletivo de Porto Alegre: o sistema de lotações vem perdendo passageiros há anos, enquanto os custos de operação continuam pressionando os permissionários.

Último dia teve clima de despedida

Na sexta-feira, usuários, trabalhadores e profissionais ligados às duas linhas acompanharam os últimos momentos de circulação.

No terminal da Avenida Senador Salgado Filho, no Centro Histórico, o fiscal Eugênio da Silva Feijó, de 60 anos, viveu uma despedida particularmente simbólica. Ele trabalhou durante 40 anos no local e relatou que criou vínculos com passageiros ao longo das décadas.

Para quem dependia das lotações, a questão não é apenas a existência de outra linha de ônibus no mesmo trajeto.

Usuários destacaram diferenças de conforto, lotação e rotina de deslocamento. Uma passageira entrevistada pela GZH relatou que utilizava a lotação justamente para evitar os ônibus cheios durante seus deslocamentos entre casa e trabalho.

Esse é um dos pontos que aparecem pouco nos números oficiais: uma linha pode transportar menos passageiros do que um corredor de ônibus, mas ainda assim cumprir uma função específica para quem depende dela.

Duas linhas transportavam cerca de 1,1 mil passageiros por dia

Segundo dados da Prefeitura, a linha Menino Deus transportava em média 500 passageiros por dia útil, enquanto a Jardim Vila Nova registrava aproximadamente 600.

Juntas, portanto, movimentavam cerca de 1,1 mil passageiros em dias úteis.

Para o município, essa demanda pode ser absorvida pelas linhas de ônibus existentes.

A avaliação da EPTC e da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana é de que os passageiros possuem alternativas de transporte coletivo nos mesmos corredores e que algumas delas utilizam faixas ou corredores exclusivos, podendo apresentar tempo de deslocamento competitivo.

A questão, porém, é se essa substituição será equivalente para todos os usuários.

Prefeitura não pode obrigar permissionário a continuar

A Prefeitura informou que recebeu formalmente a decisão dos permissionários e lamentou o encerramento das operações.

O município também esclareceu que a legislação vigente não dá ao Poder Público prerrogativa para obrigar os permissionários a permanecerem operando.

Na prática, isso cria uma situação complexa: a Prefeitura precisa garantir o atendimento à população, mas não pode simplesmente determinar que uma empresa ou permissionário continue prestando um serviço que considera economicamente inviável.

Para enfrentar o impacto, a EPTC anunciou um estudo técnico sobre a demanda que será transferida para os ônibus.

A análise deverá avaliar o número de passageiros afetados, a capacidade das linhas existentes e a necessidade de eventuais ajustes de horários ou oferta de veículos. A conclusão estava prevista para a semana seguinte ao encerramento das operações.

A crise das lotações é anterior às duas linhas

O fim das linhas Menino Deus e Jardim Vila Nova não começou em agosto de 2026.

Os números apresentados pela Prefeitura mostram uma queda prolongada na utilização do sistema de lotações.

Em 2014, as lotações transportaram aproximadamente 20,4 milhões de passageiros. Cinco anos depois, em 2019, o volume havia caído para 10,8 milhões.

Em 2023, foram cerca de 5 milhões de passageiros.

No ano passado, o sistema chegou a aproximadamente 4 milhões de usuários.

Em onze anos, a queda foi próxima de 80%.

Esse número ajuda a explicar por que a discussão deixou de ser exclusivamente sobre duas linhas específicas. O problema é estrutural.

Aplicativos de transporte, mudanças nos hábitos de deslocamento, expansão do trabalho remoto e os efeitos deixados pela pandemia alteraram a maneira como parte da população se movimenta pela cidade.

Ao mesmo tempo, custos como combustível, manutenção, salários e demais despesas operacionais continuam existindo independentemente do número de passageiros.

Tarifa maior não resolveu o problema

A tarifa da lotação em Porto Alegre passou de R$ 8 para R$ 9 em abril, após reajuste de 12,5%.

O aumento foi solicitado pela Associação dos Transportadores de Passageiros por Lotação de Porto Alegre (ATL-POA), mas não resolveu a dificuldade econômica enfrentada pelas linhas.

A entidade argumenta que a elevação serviu apenas para reduzir parte do impacto provocado pelo aumento dos custos, especialmente do combustível.

Esse é um dos problemas centrais do modelo.

Se a tarifa aumenta, o serviço fica mais caro para o passageiro e pode perder ainda mais demanda. Se a tarifa não acompanha os custos, a operação fica economicamente pressionada.

Sem subsídio público ou uma reformulação do modelo, a conta tende a continuar apertada.

Porto Alegre ficará com 15 linhas de lotação

Com o encerramento das duas operações, Porto Alegre passa a contar com 15 linhas de lotação ativas.

Entre elas estão linhas que atendem regiões como Cristal, Ipanema, Guarujá, Restinga, Belém Novo, Teresópolis, Partenon, Petrópolis, Auxiliadora, IAPI e Jardim Dona Leopoldina.

A redução da rede significa que o usuário não perde apenas dois números de linha.

Perde também opções de deslocamento que, em determinados bairros, funcionavam como alternativa intermediária entre o ônibus convencional e o transporte individual.

Quais ônibus podem substituir as linhas

Para os passageiros que utilizavam as duas linhas encerradas, a Prefeitura indica algumas alternativas.

No caso do Menino Deus, são indicadas as linhas:

  • 149.3 — Icaraí/Menino Deus
  • 195 — TV

Para o Jardim Vila Nova, as alternativas apontadas são:

  • 262 — Jardim Vila Nova
  • R1 — Rápida Jardim Vila Nova

A Prefeitura afirma que essas linhas possuem condições de absorver a demanda das lotações desativadas.

O teste real, entretanto, começa agora: é durante os próximos dias que será possível verificar se a oferta existente suporta a migração dos passageiros sem aumento de lotação, espera ou tempo de viagem.

O que está em jogo para a mobilidade de Porto Alegre

O encerramento das duas linhas coloca uma questão maior para a política de mobilidade da Capital.

A cidade precisa decidir se pretende apenas substituir linhas deficitárias por ônibus ou se precisa discutir novamente qual será o papel das lotações dentro do sistema de transporte coletivo.

O modelo já perdeu uma parcela expressiva de seus usuários. Manter linhas com baixa demanda pode ser economicamente inviável. Mas simplesmente eliminar operações também pode reduzir alternativas de transporte para determinados bairros.

O desafio está justamente nesse equilíbrio.

Para o usuário, o problema é objetivo: se a nova alternativa for mais lotada, mais demorada ou menos confortável, a substituição existe formalmente, mas pode representar uma piora na experiência de deslocamento.

Para o poder público, o desafio será medir isso com dados, e não apenas com a quantidade de passageiros transportados.

O fim das linhas Menino Deus e Jardim Vila Nova é, portanto, mais do que uma mudança na tabela de transporte. É mais um sinal de que o modelo tradicional de lotações de Porto Alegre está passando por uma transformação profunda.

E os números mostram que essa transformação ainda não terminou.

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