Candidatos apresentam propostas diferentes para tentar prevenir mortes de mulheres; avaliação de risco, monitoramento de agressores e fortalecimento da rede de proteção estão entre as principais medidas.
O combate aos feminicídios passou a ocupar espaço relevante na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul em 2026. Com 50 casos registrados no Estado desde o início do ano até esta quarta-feira (19), os quatro principais candidatos analisados apresentam propostas para tentar antecipar situações de risco e reduzir a violência contra as mulheres.
O número de mortes expõe um problema que não pode ser enfrentado apenas depois que o crime acontece. A discussão colocada nos planos de governo passa pela capacidade do Estado de identificar mulheres ameaçadas, acompanhar agressores, fiscalizar medidas protetivas e fazer diferentes órgãos públicos trabalharem de forma coordenada.
As propostas de Gabriel Souza (MDB), Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL) e Marcelo Maranata (PSDB) apresentam estratégias diferentes, mas possuem um ponto em comum: a tentativa de transformar a prevenção em uma política permanente.
Gabriel Souza aposta na integração de informações
O plano de Gabriel Souza prevê ampliar as ações de prevenção e proteção já existentes no Estado. Entre as propostas estão programas de reeducação para autores de violência doméstica, ações educativas nas escolas e reforço dos mecanismos de monitoramento.
Uma das principais medidas é ampliar o modelo de avaliação de risco utilizado no RS Seguro, integrando informações das áreas de saúde, educação e assistência social. A intenção é permitir que diferentes serviços públicos consigam identificar sinais de violência e situações que possam evoluir para casos mais graves.
O candidato também propõe ampliar a rede de proteção e o atendimento especializado às mulheres em diferentes regiões do Estado.
Juliana Brizola propõe o RS Mulher Segura
A candidata Juliana Brizola apresenta uma proposta mais estruturada em torno da criação do RS Mulher Segura, concebido como uma política integrada de proteção às mulheres.
O projeto prevê protocolos comuns entre municípios e Estado e uma plataforma para gerenciamento dos casos, com classificação das vítimas conforme o nível de risco.
Outro eixo é a autonomia econômica. A proposta relaciona violência doméstica e dependência financeira e prevê ações envolvendo qualificação profissional, emprego, empreendedorismo, crédito e moradia.
Também estão entre as medidas o reforço da fiscalização das medidas protetivas, o monitoramento eletrônico de agressores considerados de alto risco, a ampliação da Patrulha Maria da Penha e o fortalecimento das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher.
Zucco defende resposta rápida
Luciano Zucco coloca a avaliação qualificada de risco como uma das bases de sua proposta.
O plano prevê protocolos capazes de determinar respostas de acordo com fatores como histórico de violência, gravidade da ocorrência, perfil do agressor e vulnerabilidade da vítima.
A proposta também busca conectar polícia, Patrulha Maria da Penha, monitoramento eletrônico, canais de emergência e rede de atendimento.
Outro ponto é a ampliação de delegacias, equipes e serviços especializados fora dos grandes centros. O candidato ainda prevê apoio aos municípios para criação e regionalização de casas-abrigo destinadas a mulheres ameaçadas.
A lógica é reduzir o tempo entre a identificação do risco e a intervenção do poder público.
Maranata quer feminicídio como prioridade da segurança
Marcelo Maranata propõe colocar o enfrentamento ao feminicídio no centro da política estadual de segurança pública.
A estratégia prevê avaliação de risco, resposta rápida quando medidas protetivas forem descumpridas e integração entre a Patrulha Maria da Penha, monitoramento de agressores, delegacias especializadas, saúde, assistência social, Ministério Público e Judiciário.
O candidato também defende ampliar a Rede Lilás e criar mais locais seguros para denúncias e acolhimento inicial.
Na prevenção, a proposta inclui ações nas escolas relacionadas a respeito, resolução não violenta de conflitos, proteção de crianças e enfrentamento dos ciclos familiares de violência.
O que diferencia as propostas
Embora todos os candidatos apresentem medidas de prevenção, as estratégias não são idênticas.
Gabriel Souza concentra parte da proposta na integração de dados e ampliação de programas já existentes.
Juliana Brizola apresenta uma estrutura mais ampla, combinando proteção, segurança e autonomia econômica das mulheres.
Luciano Zucco coloca a resposta rápida e a avaliação individualizada do risco no centro da estratégia.
Marcelo Maranata trata o feminicídio como prioridade da política de segurança e enfatiza a integração entre os órgãos responsáveis pela proteção.
Na prática, o desafio será transformar propostas em capacidade operacional. Identificar uma mulher em situação de risco não basta se a informação não gerar atendimento, fiscalização, proteção e resposta rápida.
O mesmo vale para as medidas protetivas. A existência de uma ordem judicial não elimina automaticamente o perigo. É necessário que o Estado tenha estrutura para fiscalizar o agressor e agir quando houver descumprimento.
Eleição coloca propostas à prova
Com a campanha eleitoral avançando, o debate sobre feminicídio tende a exigir mais do que promessas genéricas de aumento da segurança.
Os planos apresentados pelos candidatos indicam caminhos diferentes para enfrentar o problema, mas a efetividade de qualquer política dependerá de orçamento, equipes, integração entre órgãos e capacidade de execução nos municípios.
Para as mulheres que vivem situações de violência, a diferença entre uma política pública anunciada e uma política pública funcionando pode representar exatamente o intervalo entre uma denúncia e uma tragédia.
É esse ponto que deverá ser acompanhado durante a campanha: não apenas o que os candidatos prometem fazer, mas como pretendem financiar, executar e medir os resultados dessas medidas.










