Alice Nitz, de 14 anos, costumava visitar o ex-padrasto em Encantado; homem confessou o assassinato e é investigado por feminicídio.
A investigação sobre a morte de Alice Nitz, de 14 anos, em Encantado, no Vale do Taquari, ganhou novos elementos nesta quinta-feira (20). A Polícia Civil informou que a adolescente mantinha contato frequente com o ex-padrasto, Wagno Arezi Henika, mesmo depois que ele e a mãe dela encerraram um relacionamento de 13 anos.
Alice foi morta a facadas na segunda-feira (17), na residência onde o homem morava. Wagno foi preso preventivamente na noite seguinte, no mesmo imóvel onde ocorreu o crime, e posteriormente confessou o assassinato durante depoimento à Polícia Civil. O caso é investigado como feminicídio.
A informação sobre os encontros frequentes ajuda a explicar por que Alice estava na residência do suspeito no momento do crime. Segundo a delegada Dieli Caumo, responsável pela investigação, os dois moravam próximos, separados por aproximadamente três quadras, e não era incomum que a adolescente fosse até a casa do ex-padrasto mesmo após a separação dele com a mãe dela.
O dado é relevante porque, inicialmente, a investigação também considerava a possibilidade de vicaricídio, hipótese relacionada à morte de uma pessoa próxima a uma mulher com a intenção de provocar sofrimento, punição ou controle sobre ela.
Polícia descarta hipótese de vicaricídio
Com o avanço dos depoimentos, a Polícia Civil passou a descartar essa linha de investigação.
Segundo a delegada, os depoimentos da mãe de Alice, das irmãs e do próprio investigado não apontaram a existência de um conflito entre Wagno e a ex-companheira.
Também não havia, conforme a investigação divulgada até o momento, medida protetiva, registro de ameaça ou ocorrência anterior de violência envolvendo o homem e a mãe da adolescente.
A polícia afirma ainda que o relacionamento entre os dois permanecia em termos considerados amigáveis, apesar da separação ocorrida aproximadamente um mês antes do assassinato.
Essa conclusão é importante para a classificação jurídica do caso. A investigação passou a concentrar-se no vínculo entre Alice e o ex-padrasto e nas circunstâncias que levaram à morte da adolescente.
A motivação apontada pelo próprio investigado, porém, ainda precisa ser esclarecida. Segundo a polícia, Wagno teria relatado um conflito entre ele e Alice. A natureza e as circunstâncias desse conflito ainda fazem parte da apuração.
Crime aconteceu dentro da casa do suspeito
Alice foi encontrada morta dentro da residência onde Wagno morava com o irmão, no bairro Jardim do Trabalhador, em Encantado.
O corpo da adolescente foi localizado pelo próprio irmão do suspeito. Após o crime, Wagno deixou o local e chegou a ser procurado pelas forças de segurança.
No dia seguinte, policiais localizaram o homem na mesma residência. Ele tentou fugir quando percebeu a aproximação da Brigada Militar, mas acabou detido. A prisão preventiva foi cumprida na noite de terça-feira (18).
A localização do suspeito no próprio endereço onde o crime aconteceu foi um dos elementos que marcaram as primeiras horas da investigação.
Posteriormente, durante o depoimento, Wagno confessou a autoria do assassinato, segundo a Polícia Civil.
Relação familiar durou mais de uma década
O vínculo entre o suspeito e a família de Alice era antigo.
Wagno manteve relacionamento com a mãe da adolescente durante 13 anos, período em que conviveu com Alice desde que ela ainda era criança. A separação do casal havia ocorrido aproximadamente um mês antes do assassinato.
Mesmo com o fim do relacionamento entre os adultos, a relação entre Alice e o ex-padrasto teria continuado próxima.
Esse aspecto passou a ser considerado pela investigação porque demonstra que a presença da adolescente na casa do homem não era, segundo a polícia, uma situação excepcional ou inesperada.
Alice continuava mantendo contato com ele e eventualmente visitava o imóvel.
Isso também ajuda a compreender por que o crime ocorreu em um ambiente no qual a vítima já tinha familiaridade.
Alice era conhecida pela ligação com a cultura gaúcha
A investigação criminal também é acompanhada pela comunidade onde Alice vivia.
A adolescente era estudante da Escola Estadual de Ensino Fundamental Jardim do Trabalhador desde a educação infantil. Segundo integrantes da escola, ela era conhecida pela participação em atividades culturais e esportivas.
Alice declamava poesias e fazia parte do grupo de dança tradicionalista Oigalê.
A ligação com a cultura gaúcha também era compartilhada pelos irmãos da adolescente, que passaram pelo mesmo projeto.
Além da dança, Alice praticava futsal e integrava o Fênix FC Futsal Feminino, clube que publicou uma manifestação de pesar após a morte da jovem.
A comunidade escolar descreveu Alice como uma adolescente participativa, ligada às atividades culturais e esportivas e com forte presença no ambiente escolar.
Caso é tratado como feminicídio
A Polícia Civil mantém o caso como feminicídio, considerando o vínculo familiar existente entre Alice e o suspeito.
A legislação brasileira estabelece circunstâncias específicas para caracterização do feminicídio, e a classificação feita durante a investigação ainda será submetida à análise do Ministério Público e da Justiça.
A hipótese de vicaricídio foi considerada no início da apuração justamente porque Alice era filha da ex-companheira do suspeito. Entretanto, a investigação concluiu, até o momento, que não existem elementos indicando que a adolescente tenha sido morta com o objetivo de atingir ou punir a mãe.
O esclarecimento é importante porque evita atribuir uma motivação que, segundo os investigadores, não encontra sustentação nos depoimentos reunidos.
O que ainda precisa ser esclarecido
A confissão do suspeito representa um avanço na investigação sobre a autoria, mas não encerra o caso.
A Polícia Civil ainda precisa esclarecer qual foi o conflito entre Alice e Wagno, o que aconteceu dentro da residência antes do assassinato e qual foi a sequência exata dos acontecimentos.
Também serão considerados os elementos periciais e os demais depoimentos reunidos no inquérito.
A motivação é um dos principais pontos que permanecem em aberto.
A existência de uma relação próxima entre vítima e investigado antes do crime também deverá ser analisada pelos investigadores para compreender se havia algum comportamento ou situação que pudesse indicar risco e que não tivesse sido percebido anteriormente.
Uma relação de confiança que terminou em violência
O caso de Alice chama atenção justamente pela ausência, segundo a investigação divulgada até agora, de um histórico conhecido de ameaças ou medidas protetivas entre o suspeito e a mãe da adolescente.
A proximidade entre Alice e o ex-padrasto também fazia com que os encontros entre os dois fossem considerados habituais pela família.
Isso significa que o crime não ocorreu, segundo os elementos divulgados pela polícia, em um cenário previamente identificado como de ameaça contra a adolescente.
É justamente essa dinâmica que a investigação precisa reconstruir.
A Polícia Civil agora trabalha para compreender como uma relação familiar mantida durante anos terminou com a morte de uma adolescente de 14 anos dentro da residência do homem que havia convivido com sua família por mais de uma década.
Enquanto o inquérito avança, Wagno permanece preso preventivamente e à disposição da Justiça. A responsabilidade criminal definitiva ainda dependerá das próximas etapas do processo judicial.










