Um levantamento realizado pela Zero Hora sobre os feminicídios registrados no Rio Grande do Sul desde 2022 mostra características recorrentes entre os homens responsáveis pelos assassinatos de mulheres. A análise aponta que, em muitos casos, a violência que termina em morte é precedida por um histórico de agressões, ameaças e comportamentos de controle.
Segundo o levantamento, a maior parte dos autores são homens adultos, companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Muitos também possuem antecedentes policiais e, em grande parte dos casos analisados, o crime ocorreu dentro da própria residência.
Um dos dados que chama atenção é que, em média, oito a cada dez autores de feminicídio possuíam algum tipo de antecedente criminal. Entre esses registros, aproximadamente metade estava relacionada à violência doméstica.
Para especialistas e autoridades ouvidos pela reportagem, o feminicídio representa frequentemente o ápice de um ciclo de violência que já vinha acontecendo antes do assassinato. Mesmo quando não existe registro formal de ocorrência, podem existir agressões psicológicas, ameaças, ciúmes excessivos, controle e violência física dentro da relação.

Autores nem sempre se reconhecem como criminosos
Pesquisas realizadas no sistema prisional gaúcho também apontam um aspecto considerado preocupante: alguns autores de violência contra mulheres não se reconhecem como criminosos.
Segundo pesquisadores da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), homens presos por violência doméstica e feminicídio podem interpretar seus próprios atos como uma forma de exercer autoridade ou controle dentro da relação.
A pesquisadora Joice Nielsson afirma que muitos continuam se enxergando como “bons cidadãos”, principalmente quando se consideram trabalhadores, provedores da família e pais. Nesse entendimento, a violência cometida no ambiente privado não seria suficiente para alterar a imagem positiva que possuem de si mesmos.
A delegada Waleska Alvarenga, da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam), aponta que essa percepção está relacionada à ideia de posse e controle sobre a mulher.
Antecedentes e prevenção
Dados analisados pela reportagem mostram ainda uma mudança no percentual de autores com antecedentes específicos de violência doméstica. Em 2022, 67% dos autores já tinham algum registro desse tipo, enquanto o índice caiu para 15% em 2025.
Para o delegado Juliano Ferreira, diretor do Departamento Estadual de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV), a redução pode estar relacionada ao fortalecimento das medidas de proteção e responsabilização dos agressores.
Desde 2025, por exemplo, o Estado passou a contar com a possibilidade de utilização de tornozeleira eletrônica para agressores, mediante determinação judicial.
O levantamento reforça que identificar e interromper situações de violência antes que elas evoluam para episódios mais graves é uma das principais estratégias para prevenir novos feminicídios no Rio Grande do Sul.
Fonte: GZH/Zero Hora.











