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Sete PMs são indiciados em Pelotas

Sete policiais militares foram indiciados pela Polícia Civil pela morte do agricultor Marcos Nörnberg, de 48 anos, durante uma operação da Brigada Militar em Pelotas, na Zona Sul do Rio Grande do Sul. Laudos do Instituto-Geral de Perícias (IGP) apontaram que os policiais efetuaram 10 disparos de fuzil antes de qualquer reação da vítima.

A morte ocorreu na madrugada de 15 de janeiro de 2026, dentro da propriedade da família Nörnberg, na Estrada da Cascata, em Pelotas. Os policiais participavam de uma operação para localizar integrantes de uma quadrilha suspeita de roubos de veículos e chegaram ao local após receberem informações de suspeitos presos no Paraná.

A conclusão da investigação da Polícia Civil contraria a versão apresentada inicialmente pelos policiais envolvidos. Segundo os agentes, os disparos teriam ocorrido depois que o agricultor reagiu à entrada da equipe. A perícia, porém, estabeleceu uma sequência diferente para os tiros.

Perícia aponta dez disparos antes da reação

Segundo os laudos do IGP, o primeiro disparo dos policiais ocorreu às 3h04min35s.

Nos 28 segundos seguintes, outros nove disparos de fuzil foram realizados pelos agentes.

Somente às 3h05min03s, de acordo com a análise pericial, foi registrado um disparo da carabina que estava com Marcos Nörnberg.

Depois desse momento, houve uma nova sequência de tiros efetuados pelos policiais.

A reconstituição dos acontecimentos foi considerada fundamental pela Polícia Civil para afastar, na avaliação dos investigadores, a hipótese de legítima defesa.

A investigação concluiu que o agricultor reagiu somente depois dos primeiros disparos efetuados pelos policiais.

Quatro policiais foram apontados como autores dos disparos

Dos sete policiais indiciados, quatro foram apontados pela investigação como responsáveis diretamente pelos disparos contra o agricultor.

Segundo a Polícia Civil, os agentes são:

  • Eduardo Barboza Roll, que teria efetuado um disparo pela janela dos fundos;
  • Felipe Lempek, apontado como responsável por sete disparos pela porta de vidro;
  • Michel Macedo de Moraes, que teria efetuado cinco disparos, sendo dois pela janela enquanto a vítima estava protegida atrás de um roupeiro e outros três em direção ao sofá;
  • Marcelo Silva da Silva, apontado como responsável por sete disparos no interior da residência.

Os quatro foram indiciados por homicídio doloso, com dolo eventual, pela morte de Marcos Nörnberg, e também por tentativa de homicídio, igualmente com dolo eventual, contra Raquel Nörnberg, esposa da vítima, que estava no imóvel durante a ação.

O dolo eventual, no contexto apresentado pela investigação, significa que a autoridade policial entendeu que os agentes assumiram o risco de produzir o resultado morte.

Outros três PMs foram indiciados por participação

Além dos quatro policiais que efetuaram os disparos, outros três integrantes do setor de inteligência da Brigada Militar também foram indiciados.

De acordo com a Polícia Civil, esses agentes participaram do levantamento que levou os policiais até a propriedade da família Nörnberg.

A investigação apontou que houve erro na identificação do local.

Os policiais acreditavam que estavam chegando a uma propriedade utilizada como esconderijo por integrantes de uma quadrilha. A apuração, porém, concluiu que as informações utilizadas para localizar o imóvel não eram compatíveis com a propriedade onde a operação foi realizada.

Os três policiais da inteligência foram considerados, pela investigação, partícipes dos crimes apontados no inquérito.

Investigação analisou versões dos policiais e imagens

Ao longo da apuração, a Polícia Civil ouviu 12 policiais envolvidos na operação e também colheu o depoimento da viúva de Marcos.

As versões apresentadas foram confrontadas com outros elementos de prova.

A investigação analisou imagens de câmeras de videomonitoramento, exames balísticos e a reprodução simulada da ocorrência.

Ao todo, 25 policiais foram investigados no inquérito.

A reprodução simulada teve papel central na conclusão sobre a sequência dos disparos, pois permitiu aos peritos confrontar a dinâmica descrita pelos agentes com os vestígios encontrados no local.

Segundo a Polícia Civil, os resultados técnicos não confirmaram a versão de que o agricultor teria sido o primeiro a atirar.

Polícia Civil aponta erro na identificação da propriedade

A operação ocorreu depois que policiais receberam informações de suspeitos presos no Paraná sobre a localização de integrantes de uma quadrilha.

Essas informações levaram a equipe até a propriedade da família Nörnberg.

Durante a investigação, entretanto, a Polícia Civil identificou inconsistências entre os áudios e informações utilizados para orientar os policiais e o imóvel onde a operação acabou ocorrendo.

O delegado Gabriel Borges afirmou que os dados utilizados para indicar o local não apresentavam congruência com o sítio onde ocorreu a ação.

A investigação concluiu que os três policiais do setor de inteligência tiveram participação na definição equivocada da propriedade.

Oficiais não foram indiciados por homicídio

Apesar do indiciamento de sete policiais, os oficiais que estavam na estrutura de comando da operação não foram indiciados por homicídio pela Polícia Civil.

Segundo a investigação, eles não estavam dentro da propriedade no momento dos disparos.

A apuração também concluiu que os oficiais não teriam determinado que os policiais ingressassem no imóvel.

Um tenente-coronel teria determinado uma averiguação do local, mas não a entrada dos agentes na propriedade.

A investigação considerou que a decisão de efetuar os disparos partiu individualmente dos policiais que estavam no interior do imóvel.

Brigada Militar havia apresentado outra conclusão

A conclusão da Polícia Civil também diverge de uma avaliação feita anteriormente pela própria Brigada Militar.

Em abril, a corporação havia concluído que a atuação dos policiais envolvidos na operação não configurava crime.

Na ocasião, o então comandante-geral da Brigada Militar, Cláudio Feoli, reconheceu que houve um “grande equívoco” na operação.

A nova conclusão do inquérito da Polícia Civil aponta, entretanto, que houve elementos suficientes para responsabilizar criminalmente sete policiais pelo resultado da ação.

Viúva estava dentro da residência

Além da morte de Marcos Nörnberg, a investigação aponta que Raquel Nörnberg, esposa do agricultor, também foi colocada em risco durante a ação.

Por isso, os quatro policiais apontados como autores dos disparos contra Marcos também foram indiciados por tentativa de homicídio contra Raquel, com dolo eventual.

A viúva prestou depoimento durante a investigação e teve sua versão confrontada com os demais elementos técnicos reunidos pela Polícia Civil.

Após a divulgação da conclusão do inquérito, Raquel afirmou considerar o resultado da investigação justo e disse que esperava que a análise técnica dos fatos esclarecesse o que havia ocorrido naquela madrugada.

Defesa contesta procedimento

A defesa dos policiais afirmou que não foi intimada sobre o laudo da reprodução simulada nem sobre a conclusão que levou ao indiciamento.

Em manifestação divulgada à imprensa, o escritório responsável pela defesa informou que apresentará suas considerações no momento processual adequado.

Os advogados também destacaram que os acusados devem ter assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa.

Portanto, os indiciamentos representam a conclusão da investigação policial nesta etapa e não significam que os policiais tenham sido condenados.

Brigada Militar ainda não recebeu relatório final

A Brigada Militar informou que ainda não havia recebido formalmente o relatório final da investigação realizada pela Polícia Civil.

Por esse motivo, a corporação afirmou que ainda não possuía elementos suficientes para realizar uma análise individualizada sobre a situação dos policiais indiciados ou determinar eventuais medidas administrativas.

A BM informou que fará a avaliação do caso após ter acesso oficial aos documentos produzidos pela investigação.

Ministério Público decidirá próximos passos

Com a conclusão do inquérito policial, o caso segue para análise do Ministério Público.

Caberá ao órgão avaliar as provas reunidas e decidir se apresenta ou não denúncia contra os policiais pelos crimes apontados pela Polícia Civil.

Caso haja denúncia e ela seja recebida pela Justiça, o processo poderá avançar para as próximas etapas judiciais.

A possibilidade de julgamento pelo Tribunal do Júri dependerá das decisões tomadas posteriormente pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário.

Até que haja decisão judicial definitiva, os policiais permanecem protegidos pelo princípio da presunção de inocência.

O que a perícia mudou no caso

O principal ponto revelado pela nova etapa da investigação é a ordem cronológica dos disparos.

A versão apresentada pelos policiais indicava que eles teriam reagido depois de o agricultor disparar contra a equipe.

Os laudos do IGP, porém, apontaram uma sequência diferente: dez disparos de fuzil foram registrados antes do tiro atribuído à carabina de Marcos Nörnberg.

Essa diferença foi determinante para que a Polícia Civil afastasse, em sua conclusão, a hipótese de legítima defesa e apontasse a ocorrência de homicídio com dolo eventual.

O caso agora deixa a esfera exclusivamente investigativa e passa para a análise do Ministério Público e, posteriormente, do Judiciário.

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