O Rio Grande do Sul deve enfrentar uma primavera com volumes de chuva acima da média histórica, segundo o mais recente Boletim de Consenso Climático elaborado por pesquisadores e instituições de meteorologia. A previsão abrange os meses de outubro, novembro e dezembro de 2026 e está relacionada ao avanço do fenômeno El Niño, atualmente estabelecido no Oceano Pacífico Equatorial.
O cenário exige atenção principalmente porque o Estado ainda possui áreas com o solo bastante úmido após os volumes elevados de precipitação registrados durante o inverno. Com mais chuva ao longo da primavera, aumenta a possibilidade de episódios de alagamentos, inundações, temporais e outros eventos de tempo severo.
De acordo com o boletim, a influência do El Niño sobre a circulação atmosférica no Rio Grande do Sul deve ocorrer de forma gradual ao longo da estação.
Chuva acima da média em todo o Estado
A projeção indica precipitação acima da média histórica em todo o Rio Grande do Sul durante o trimestre de outubro a dezembro.
O meteorologista Ricardo Gotuzzo, do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), explicou que o cenário climático aumenta a possibilidade de períodos de instabilidade e episódios de chuva volumosa.
A previsão, porém, não permite determinar neste momento exatamente quanto irá chover em cada município. Os prognósticos sazonais indicam tendências para períodos de três meses e não substituem as previsões meteorológicas de curto prazo.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também aponta para um cenário de precipitações acima da média na Região Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul. Segundo o órgão, o El Niño tende a aumentar a frequência e o volume das chuvas na região.

Risco de alagamentos e inundações
Entre as áreas que exigem maior atenção está a região da bacia do Rio Uruguai e o sistema formado pelas lagoas Mirim e dos Patos, na Zona Sul do Estado.
Segundo o boletim, essas áreas apresentam condições que podem favorecer a ocorrência de alagamentos e inundações durante episódios de chuva intensa.
No caso da Lagoa dos Patos, o comportamento do nível da água depende de diferentes fatores, como o local onde ocorre a precipitação, o volume acumulado nas bacias que contribuem para o sistema e as condições hidrodinâmicas, incluindo a atuação dos ventos.
A situação merece acompanhamento porque o solo permanece úmido após as chuvas registradas nos meses de julho e agosto. Com o terreno já saturado em algumas regiões, novos volumes elevados de precipitação podem aumentar a possibilidade de alagamentos.
El Niño deve ganhar força
As projeções climáticas indicam que o El Niño poderá se intensificar nos próximos meses.
O boletim do Inmet divulgado em setembro aponta mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro, segundo as previsões mais recentes do CPC/NOAA.
O boletim de consenso climático citado pela GZH aponta, por sua vez, 77% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte e 23% de chegar à categoria forte.
Um El Niño é considerado forte quando a anomalia da temperatura da superfície do mar na região conhecida como Niño 3.4 fica entre 1,5°C e 2°C. Acima de 2°C, o evento é classificado como muito forte.

O que é o El Niño
O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Esse aquecimento modifica padrões da circulação atmosférica e pode alterar a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, um dos efeitos mais conhecidos durante episódios de El Niño é o aumento da frequência e dos volumes de chuva na Região Sul. O Inmet explica que o fenômeno pode fortalecer correntes de baixos níveis que transportam umidade em direção ao Sul do Brasil.
Para 2026, documentos técnicos produzidos por órgãos como INPE, INMET, CEMADEN, ANA e CENSIPAM já indicavam a possibilidade de impactos associados ao El Niño, incluindo volumes de chuva acima da média na Região Sul.
Temperaturas também devem ficar acima da média
A previsão não aponta apenas para mudanças no regime de chuvas.
As temperaturas também devem permanecer pouco acima da média climatológica no Rio Grande do Sul durante o trimestre de outubro a dezembro.
Mesmo assim, os meteorologistas ressaltam que a previsão sazonal não elimina a possibilidade de períodos de frio. Entradas de massas de ar frio ainda podem provocar quedas bruscas de temperatura ao longo da primavera.

Primavera exige atenção da população
A primavera começa oficialmente no dia 22 de setembro e será acompanhada de perto pelos órgãos de meteorologia e Defesa Civil devido ao cenário climático previsto.
A tendência de chuva acima da média não significa que haverá chuva intensa todos os dias ou que necessariamente ocorrerão grandes enchentes. O comportamento da atmosfera varia conforme os sistemas meteorológicos que atuam em cada período.
Por isso, previsões de curto prazo continuam sendo fundamentais para determinar quando e onde poderão ocorrer temporais, chuva intensa, granizo, ventos fortes e elevação dos níveis dos rios.
O prognóstico sazonal funciona como uma indicação de tendência para os próximos meses, enquanto os alertas e previsões de curto prazo são utilizados para orientar a população diante de eventos específicos.
Atenção para a Zona Sul
Na Zona Sul do Estado, o sistema Mirim-Patos aparece entre as áreas que merecem atenção no cenário previsto para a primavera.
A região poderá receber volumes elevados de chuva durante determinados episódios, mas ainda não é possível estabelecer antecipadamente quais municípios serão mais afetados ou quais serão os volumes acumulados.
A recomendação é acompanhar as atualizações dos órgãos oficiais de meteorologia e da Defesa Civil, principalmente durante períodos de instabilidade.

Cenário não representa previsão de desastre
Apesar da previsão de chuva acima da média, especialistas destacam que o prognóstico não significa uma previsão automática de enchentes ou desastres.
O risco de inundação depende da combinação de vários fatores, incluindo intensidade e duração da chuva, condições dos rios, umidade do solo, relevo, drenagem e comportamento dos ventos.
Por isso, a situação deverá ser acompanhada ao longo da primavera, com atualizações das previsões conforme os eventos meteorológicos se aproximarem.
O cenário atual, entretanto, indica que o Rio Grande do Sul deverá ter uma primavera mais chuvosa do que o padrão histórico, em um período marcado pela influência crescente do El Niño.










