O Rio Grande do Sul já contabiliza 59 feminicídios em 2026, segundo dados da Polícia Civil, após uma sequência de crimes registrados nos últimos dias. Dois casos ocorridos no domingo (4), em Alegrete e Barra do Guarita, fizeram o Estado chegar a 58 mortes pela modalidade. Já nesta segunda-feira (5), um novo feminicídio registrado na Restinga, em Porto Alegre, elevou o número para 59.
Os casos mais recentes reforçam a preocupação das autoridades com a violência contra as mulheres no Estado. As ocorrências apresentam diferentes circunstâncias, mas têm em comum a suspeita ou confirmação de que as vítimas foram mortas em contextos relacionados à violência de gênero.
Mulher é morta a tiros em Alegrete
Um dos feminicídios registrados no domingo ocorreu em Alegrete, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul.
A vítima, Ana Cristina Pinheiro Milano do Canto, de 20 anos, foi morta a tiros durante a manhã, no bairro Assunção.
A Brigada Militar foi acionada por volta das 6h, após relatos de disparos de arma de fogo na Rua Ciro de Andrade. Quando os policiais chegaram ao local, encontraram a jovem já sem vida.
Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, o principal suspeito é um homem de 23 anos, identificado como Ellinton Moura Silva, que seria ex-companheiro da vítima e soldado do 6º Regimento de Cavalaria Blindado (6º RCB), unidade do Exército localizada em Alegrete.
A irmã da vítima, de 29 anos, também foi atingida pelos disparos. Ela recebeu atendimento médico e, conforme as informações iniciais, estava fora de risco.
Após o ataque, o suspeito fugiu do local.
A Brigada Militar iniciou buscas e conseguiu localizá-lo aproximadamente quatro horas depois, por volta das 10h. Ele estava escondido no terreno de uma residência abandonada, na Rua Martin Luther King, no bairro Praça da Lagoa.
O homem foi preso e, segundo a Brigada Militar, estava com a arma que teria sido utilizada no crime.
As circunstâncias envolvendo a origem da arma também passaram a ser investigadas. Informações preliminares indicam que o armamento teria sido furtado pelo suspeito dentro do próprio 6º RCB.
A Polícia Civil conduz a investigação para esclarecer a dinâmica do crime e as circunstâncias que levaram ao assassinato.

Venezuelana é morta a golpes de canivete em Barra do Guarita
O segundo feminicídio contabilizado no fim de semana ocorreu em Barra do Guarita, no Noroeste do Estado.
A vítima foi identificada como Noraysis El Carmen Blanche, de 36 anos, de nacionalidade venezuelana.
Segundo a Polícia Civil, ela foi morta a golpes de canivete na manhã de domingo, em uma ocorrência envolvendo o companheiro, também venezuelano.
O crime ocorreu na região central do município, na Rua Pelotas.
Conforme o relato apresentado pelo delegado Roberto Fagundes Audino, o casal teria iniciado uma discussão dentro da residência onde morava.
Durante o desentendimento, a mulher deixou o imóvel e correu em direção à rua, aparentemente tentando buscar ajuda.
O companheiro teria seguido a vítima e a alcançado poucos metros depois. Segundo a investigação, o homem derrubou a mulher e desferiu diversos golpes de canivete.
Noraysis morreu no local.
Após o ataque, o suspeito também passou a se ferir com a arma. A Brigada Militar foi chamada e conseguiu imobilizá-lo.
Ele foi socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado ao Hospital Santo Antônio, em Tenente Portela.
O homem permanece sob custódia enquanto o caso é investigado.
A motivação da discussão ainda não havia sido esclarecida pelas autoridades.
Restinga registra novo feminicídio nesta segunda-feira
O número de feminicídios no Rio Grande do Sul subiu novamente nesta segunda-feira (5).
Uma mulher de 24 anos, identificada como Thamires Araújo, foi morta a facadas pelo companheiro no bairro Restinga, no extremo Sul de Porto Alegre.
O crime aconteceu durante a madrugada, em uma residência localizada na Rua Coronel Dastro Dutra.
A Brigada Militar foi acionada e encontrou a vítima com diversos ferimentos. Ela já estava sem vida quando os policiais chegaram.
Segundo informações preliminares, vizinhos ouviram uma discussão entre o casal por volta das 2h. Uma testemunha relatou ter ouvido os dois discutindo e chegou a pedir que o homem parasse.
Depois dos gritos e da discussão, os barulhos cessaram.
O suspeito, de 29 anos, foi preso em flagrante no próprio local.
De acordo com as informações divulgadas até o momento, o casal não possuía antecedentes policiais.
A Polícia Civil passou a investigar a dinâmica do assassinato e a motivação do crime.
Thamires deixou dois filhos pequenos, que não estavam na residência no momento do assassinato.
A vítima trabalhava como empreendedora, atuando como designer de sobrancelhas e extensionista de cílios. Recentemente, havia realizado o projeto de abrir o próprio estúdio.
Com o caso da Restinga, o Estado chegou a 59 feminicídios em 2026.

Estado já tinha registrado 54 casos até agosto
Os dados oficiais mostram que a violência contra a mulher continua sendo um problema grave no Rio Grande do Sul.
Segundo indicadores divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS), até agosto haviam sido contabilizados 54 feminicídios consumados, além de 159 tentativas de feminicídio.
No mesmo período, foram registrados 20.282 casos de ameaça, 1.311 estupros e 10.932 ocorrências de lesão corporal relacionadas à violência contra a mulher.
Somente em agosto foram registrados nove feminicídios no Estado.
Naquele momento, o número representava uma leve redução em relação ao mesmo período de 2025, quando haviam sido registrados 56 feminicídios até agosto.
Apesar da redução acumulada, agosto foi considerado um mês de forte violência contra as mulheres, já que os nove casos registrados naquele mês igualaram a soma das ocorrências de junho e julho.
2025 terminou com 80 feminicídios
O cenário de 2026 também precisa ser observado em comparação com o ano anterior.
Em 2025, o Rio Grande do Sul terminou o ano com 80 feminicídios consumados e 263 tentativas.
Os dados mostram que a violência letal contra mulheres permanece em patamar elevado no Estado.
Além das vítimas diretamente assassinadas, os feminicídios provocam consequências sobre familiares, principalmente filhos das mulheres mortas.
Um levantamento do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) já havia apontado, ainda no primeiro trimestre de 2026, que os feminicídios registrados naquele período haviam deixado pelo menos 47 órfãos. O número demonstra que cada assassinato produz impactos que ultrapassam a vítima direta.

Polícia reforça ações de prevenção
O enfrentamento aos feminicídios envolve não apenas a investigação dos assassinatos, mas também ações destinadas a identificar situações de violência antes que elas evoluam para crimes mais graves.
Em junho, a Polícia Civil e a Brigada Militar ampliaram as ações por meio da Operação Mulher Segura, voltada ao combate à violência doméstica e à prevenção de feminicídios.
Durante o primeiro mês da operação, foram realizados milhares de atendimentos e diligências, além de prisões em flagrante e cumprimento de mandados de prisão.
As autoridades também fiscalizaram Medidas Protetivas de Urgência, consideradas uma das principais ferramentas disponíveis para proteger mulheres ameaçadas por companheiros ou ex-companheiros.
A Polícia Civil chama atenção para um problema recorrente: muitas mulheres assassinadas em casos de feminicídio não haviam procurado anteriormente a rede de proteção ou registrado ocorrência.
Por isso, as forças de segurança defendem que a identificação antecipada dos casos de violência doméstica é fundamental para impedir que ameaças, agressões e perseguições evoluam para crimes contra a vida.
Casos recentes aumentam alerta no Estado
Os crimes registrados em Alegrete, Barra do Guarita e Porto Alegre ocorreram em contextos diferentes e ainda dependem da conclusão das respectivas investigações.
Em Alegrete, a suspeita envolve uma ex-companheira e houve utilização de arma de fogo.
Em Barra do Guarita, a vítima teria sido perseguida pelo companheiro depois de sair da residência durante uma discussão.
Na Restinga, em Porto Alegre, a vítima foi morta a facadas dentro de casa e o companheiro acabou preso em flagrante.
A diversidade das circunstâncias demonstra a complexidade do enfrentamento à violência contra a mulher e a necessidade de atuação conjunta entre polícia, Justiça e rede de proteção.
O número de 59 feminicídios em 2026 ainda pode sofrer alterações à medida que novas ocorrências sejam registradas e que investigações concluam pela tipificação definitiva de determinados casos.

O que é feminicídio?
O feminicídio é o assassinato de uma mulher motivado por razões relacionadas à condição do sexo feminino, especialmente quando envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher.
A identificação da motivação é realizada durante a investigação policial e pode ser analisada posteriormente pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário.
Por isso, alguns casos inicialmente tratados como homicídios podem ter a classificação alterada ao longo da investigação, dependendo das evidências reunidas.
Cenário no Rio Grande do Sul
59 feminicídios registrados em 2026 até esta segunda-feira (5);
159 tentativas de feminicídio registradas até agosto;
54 feminicídios consumados contabilizados até agosto pelos indicadores da SSP-RS;
80 feminicídios registrados durante todo o ano de 2025;
263 tentativas de feminicídio registradas em 2025.
Os números reforçam a dimensão do problema da violência contra a mulher no Rio Grande do Sul e colocam a prevenção como uma das principais estratégias para reduzir novas mortes.










