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Golpe do falso advogado dispara 192%

Polícia Civil registrou 152 ocorrências em Rio Grande entre janeiro e setembro de 2026, contra 52 no mesmo período do ano passado. Criminosos utilizam dados reais de processos judiciais para convencer vítimas a transferir dinheiro via Pix.

O número de casos relacionados ao golpe do falso advogado aumentou 192,3% em Rio Grande, no Sul do Rio Grande do Sul. Dados da Polícia Civil apontam que foram registradas 152 ocorrências de estelionato ou fraude relacionadas à prática entre janeiro e setembro de 2026. No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizados 52 casos.

O crescimento acende um alerta para pessoas que possuem ações judiciais em andamento e aguardam o recebimento de indenizações, benefícios ou outros valores. Nesse tipo de fraude, criminosos se passam por advogados, funcionários de escritórios de advocacia ou representantes de instituições ligadas à Justiça para convencer as vítimas a realizar pagamentos antecipados.

A abordagem costuma ocorrer por WhatsApp, ligações telefônicas e chamadas de vídeo. Os golpistas utilizam nomes verdadeiros, fotografias de profissionais e informações sobre processos judiciais para dar credibilidade à história apresentada.

A estratégia é explorar a confiança que o cliente deposita no advogado e a expectativa de receber um dinheiro que, em muitos casos, realmente está relacionado a uma ação judicial.

Como funciona o golpe do falso advogado

A fraude geralmente começa quando a vítima recebe uma mensagem informando que ganhou um processo ou que existe um valor disponível para saque. O contato pode mencionar números de processos, nomes de advogados e detalhes da ação, criando a impressão de que a comunicação é legítima.

Depois de anunciar a suposta liberação do dinheiro, o criminoso afirma que é necessário pagar uma taxa, um imposto ou uma despesa processual para concluir a operação.

O pagamento costuma ser solicitado por Pix, muitas vezes com a justificativa de que a transferência precisa ser realizada imediatamente para que o valor judicial seja liberado.

Em algumas situações, os criminosos enviam documentos falsificados, utilizam logotipos de instituições e se apresentam como servidores públicos ou representantes de tribunais. Também podem utilizar a fotografia e os dados profissionais de advogados que realmente existem.

O principal sinal de alerta é a exigência de um pagamento inesperado para liberar um valor judicial. Antes de transferir qualquer quantia, o cidadão deve confirmar a solicitação diretamente com o advogado responsável pelo processo, utilizando um telefone ou canal de contato que já conheça.

Vítima perdeu quase R$ 7 mil após contato pelo WhatsApp

Um dos casos registrados em Rio Grande demonstra como os criminosos conseguem convencer as vítimas. Em junho de 2026, uma mulher que preferiu não se identificar perdeu R$ 6.998 após receber uma ligação pelo WhatsApp de uma pessoa que se passou por uma profissional relacionada a um dos processos judiciais em que ela estava envolvida.

Durante o contato, realizado em 30 de junho, a vítima foi informada de que teria direito a uma indenização de quase R$ 300 mil. Para receber o suposto valor, deveria fazer duas transferências via Pix, cada uma de R$ 3.499.

A mulher acreditou na abordagem porque a pessoa utilizava informações relacionadas ao processo judicial. Depois de realizar os pagamentos, sofreu o prejuízo financeiro.

O caso evidencia um dos principais mecanismos da fraude: a utilização de informações verdadeiras para sustentar uma história falsa. O fato de o criminoso conhecer detalhes de uma ação judicial não significa que ele tenha qualquer vínculo legítimo com o processo.

Por que o número de golpes está aumentando?

A delegada regional da Polícia Civil, Lígia Furlanetto, aponta que a possibilidade de obter ganhos rápidos e abordar diversas pessoas em pouco tempo contribui para a expansão dessa modalidade criminosa.

Os meios digitais permitem que os golpistas entrem em contato com várias vítimas sem precisar se apresentar pessoalmente. Com informações sobre processos e profissionais da advocacia, eles conseguem construir abordagens personalizadas, aumentando as chances de convencer quem está aguardando uma decisão judicial.

O advogado criminalista Jander Dantas Alves também relata casos em que criminosos se passaram por ele ou utilizaram nomes de instituições judiciais para dar aparência de legitimidade às cobranças.

Segundo os relatos reunidos na reportagem original, há situações em que os fraudadores afirmam representar tribunais superiores, mesmo quando o processo da vítima não tem relação com essas instituições.

Outro fator de risco é a pressão psicológica. Ao prometer a liberação de uma quantia elevada, o criminoso cria a sensação de que a vítima está prestes a resolver um problema financeiro. A exigência de pagamento imediato reduz o tempo disponível para conferir as informações.

Como identificar sinais de fraude

Alguns comportamentos devem levantar suspeitas quando alguém entra em contato para falar sobre um processo judicial:

  • Cobrança inesperada via Pix: pedido de transferência para liberar uma indenização ou outro crédito judicial.
  • Pressão para pagar imediatamente: mensagens que estabelecem prazos curtos ou ameaçam impedir o recebimento do dinheiro.
  • Contato por número desconhecido: mesmo que o perfil utilize a fotografia e o nome do advogado verdadeiro.
  • Promessa de valores elevados: anúncio de indenizações ou pagamentos sem confirmação por um canal oficial.
  • Envio de documentos suspeitos: arquivos com aparência oficial que não foram confirmados pelo escritório responsável.
  • Pedido de dados bancários ou senhas: solicitação de informações que podem permitir novas fraudes ou acesso indevido a contas.

Nenhum desses sinais deve ser analisado isoladamente. A medida mais segura é interromper a negociação e verificar a solicitação diretamente com o profissional que acompanha o caso.

O que fazer antes de realizar qualquer pagamento

A orientação da Polícia Civil e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é procurar o advogado responsável pelo processo por um canal independente daquele utilizado na abordagem suspeita.

Se a mensagem chegou pelo WhatsApp, por exemplo, o cliente deve utilizar o número que já possuía antes do contato ou buscar atendimento presencial no escritório.

Também é possível consultar o Cadastro Nacional dos Advogados para verificar o registro profissional. Entretanto, essa consulta, sozinha, não garante que a pessoa que está enviando mensagens seja realmente o advogado identificado, pois os criminosos podem copiar dados e fotografias de profissionais legítimos.

A OAB Nacional também disponibiliza a ferramenta ConfirmADV, voltada à verificação da identidade de advogados. O recurso pode ajudar na checagem, mas não substitui a confirmação por um canal de contato previamente conhecido.

Outras medidas preventivas incluem:

  • Não realizar pagamentos para contas de terceiros sem confirmação.
  • Não clicar em links enviados por contatos suspeitos.
  • Não compartilhar senhas, códigos de autenticação ou informações bancárias.
  • Confirmar com o escritório qualquer cobrança relacionada ao processo.
  • Conversar com familiares ou pessoas de confiança antes de tomar uma decisão sob pressão.

Caiu no golpe? Saiba como agir

Quem já realizou uma transferência ou forneceu informações financeiras deve agir rapidamente para tentar reduzir os prejuízos.

1. Entre em contato com o banco. Informe imediatamente a fraude e solicite as providências cabíveis. Em pagamentos via Pix, peça a avaliação do Mecanismo Especial de Devolução (MED), quando aplicável. A recuperação do dinheiro não é garantida.

2. Registre um boletim de ocorrência. A comunicação à Polícia Civil permite formalizar o caso e fornecer informações para a investigação.

3. Preserve as provas. Guarde conversas, áudios, números de telefone, documentos enviados, comprovantes de Pix e dados das contas que receberam os valores.

4. Avise o advogado verdadeiro. O profissional poderá confirmar que o contato não partiu do escritório e orientar sobre os procedimentos relacionados ao processo judicial.

5. Proteja suas contas. Se houver compartilhamento de senhas ou códigos, altere as credenciais comprometidas e informe as instituições envolvidas.

A OAB do Rio Grande do Sul mantém orientações específicas para denúncias relacionadas ao golpe do falso advogado, incluindo procedimentos para encaminhar informações e documentos sobre os casos.

Polícia Civil reforça investigação de crimes cibernéticos

A Polícia Civil tem ampliado a especialização no combate a fraudes digitais. Conforme a reportagem original, a criação do Departamento Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos e do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos em Rio Grande, vinculado à Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), fortalece a estrutura destinada à investigação dessas práticas.

A participação das vítimas é importante para a apuração. O registro da ocorrência e a preservação de evidências podem auxiliar na identificação dos envolvidos e no rastreamento das operações financeiras.

O avanço dos golpes reforça a necessidade de atenção redobrada em qualquer comunicação sobre processos judiciais. Mesmo quando a mensagem apresenta informações verdadeiras, a identidade de quem faz o contato precisa ser confirmada antes de qualquer pagamento.

A regra principal é simples: nunca transfira dinheiro apenas porque alguém afirma que existe uma indenização para receber. Confirme a informação diretamente com seu advogado, por um canal confiável, antes de realizar qualquer operação.

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