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Golpe usa nome da Defensoria no RS

Criminosos utilizam dados reais de processos, áudios gerados por inteligência artificial e falsas promessas de dinheiro para tentar acessar contas bancárias e aplicativos.

Um novo tipo de golpe está sendo investigado no Rio Grande do Sul e utiliza uma combinação perigosa de informações reais, engenharia social e inteligência artificial.

Criminosos estão se passando por representantes da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul (DPE-RS), utilizando detalhes de processos judiciais, dados pessoais das vítimas, mensagens com aparência oficial e até vozes clonadas de defensores públicos.

A Polícia Civil investiga pelo menos cinco casos no Estado. Segundo os investigadores, golpes semelhantes também já foram identificados em pelo menos outros quatro estados brasileiros.

O objetivo dos criminosos varia. Em alguns casos, eles prometem que a vítima tem direito a receber uma indenização ou valor judicial elevado. Em outros, tentam convencer a pessoa a clicar em links que permitem acesso ao celular, aplicativos e contas bancárias.

A estratégia é baseada em um princípio simples: quanto mais informações verdadeiras o criminoso apresenta, mais legítima a abordagem parece ser.

Como o golpe funciona

A fraude começa, normalmente, com um contato que aparenta ser oficial.

O criminoso pode utilizar o nome de um defensor público, fotografia, informações sobre o processo da vítima e até dados pessoais que deveriam ser conhecidos apenas por pessoas envolvidas no atendimento.

A partir dessas informações, o golpista constrói uma narrativa.

A vítima pode receber uma ligação, mensagem de WhatsApp ou áudio informando que existe uma decisão favorável em seu processo ou que determinado procedimento precisa ser concluído.

Em alguns casos, aparece a promessa de recebimento de valores elevados.

A partir daí surge a exigência: pagamento de uma suposta taxa, depósito, transferência ou acesso a determinado link.

O objetivo real é obter dinheiro ou assumir o controle do dispositivo da vítima.

Vítima perdeu R$ 899

Uma das vítimas entrevistadas pela reportagem procurou a Defensoria Pública para tentar conseguir uma vaga em creche para o filho de cinco anos.

Depois de conseguir a matrícula, ela recebeu uma ligação de um homem que se apresentou como defensor público.

O falso servidor afirmou que seria necessário concluir o processo e orientou a vítima a realizar um depósito e acessar um link enviado ao celular.

Ao seguir as instruções, ela acabou permitindo que os criminosos assumissem o controle do aparelho e tivessem acesso aos aplicativos bancários.

O prejuízo foi de R$ 899, valor que correspondia a aproximadamente um terço do salário da vítima e estava reservado para o pagamento da prestação da casa própria.

O episódio mostra uma característica importante desse tipo de fraude: o criminoso não precisa necessariamente convencer a vítima a entregar voluntariamente uma grande quantia.

Em determinados casos, o objetivo inicial é simplesmente obter acesso ao celular.

A partir desse acesso, outros golpes podem ser realizados.

Criminosos usam voz clonada de defensor

A fraude ganhou um componente ainda mais sofisticado com o uso de inteligência artificial para reproduzir vozes.

Em uma das gravações analisadas na reportagem, a vítima recebe a informação de que teria direito a uma indenização superior a R$ 124 mil após uma suposta decisão favorável da Justiça.

O áudio utiliza uma voz semelhante à do defensor público Felipe Kirchner, dirigente do Núcleo de Defesa do Consumidor e Tutelas Coletivas.

O próprio defensor reconheceu a semelhança.

Segundo ele, a voz apresenta características que podem denunciar a falsificação, mas a reprodução é suficientemente parecida para enganar uma pessoa que não tenha contato frequente com ele.

A tecnologia também amplia o alcance do golpe.

Segundo Kirchner, defensores públicos e advogados vêm sendo alvo de falsificações que incluem não apenas áudios, mas também vídeos e avatares utilizados em conversas online.

Isso representa uma mudança importante no padrão das fraudes digitais.

Antes, o criminoso precisava apenas copiar uma fotografia e um nome.

Agora, pode tentar reproduzir voz, imagem e comportamento de uma pessoa real.

Falsa audiência também é usada para dar credibilidade

Em outro áudio analisado na investigação, o criminoso convida a vítima para participar de uma suposta audiência virtual.

A estratégia tem uma função clara: aumentar a sensação de legitimidade.

Para a vítima, a existência de uma audiência, de um processo real e de uma pessoa falando com uma voz aparentemente conhecida pode criar a impressão de que todo o procedimento é verdadeiro.

É justamente nesse ponto que a engenharia social funciona.

O golpista não precisa falsificar todo o sistema judicial.

Ele precisa apenas reunir informações verdadeiras e misturá-las com uma informação falsa suficientemente convincente.

Inteligência artificial facilita a fraude

O analista de segurança da informação Cristiano Goulart Borges explicou que o avanço dessas ferramentas contribuiu para tornar a fraude mais acessível.

Segundo ele, não se trata necessariamente de tecnologias extremamente sofisticadas ou inacessíveis.

Ferramentas de inteligência artificial capazes de gerar ou manipular áudio, imagem e texto podem ser encontradas de forma relativamente barata.

Isso reduz a barreira de entrada para criminosos interessados em aplicar golpes personalizados.

O resultado é uma mudança no comportamento dos fraudadores.

Em vez de enviar uma mensagem genérica para milhares de pessoas, o criminoso pode montar uma abordagem personalizada para alguém que possui um processo judicial em andamento.

O golpe fica mais difícil de identificar porque parte da informação apresentada é verdadeira.

Pelo menos cinco casos são investigados no RS

A Polícia Civil investiga pelo menos cinco casos relacionados a esse tipo de fraude no Rio Grande do Sul.

Segundo os investigadores, ocorrências semelhantes já foram registradas em outros estados.

A abrangência indica que não se trata necessariamente de uma ação isolada contra uma única pessoa.

Os criminosos podem estar utilizando informações obtidas de diferentes fontes para localizar pessoas que possuem processos ou atendimentos relacionados à Defensoria Pública.

A origem dos dados utilizados nas abordagens também é um dos pontos que merece atenção das autoridades.

Defensoria afirma que não cobra pelos serviços

A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul reforça que seus serviços são gratuitos.

O assessor de segurança institucional da instituição, coronel Gilson Wagner, afirmou que a Defensoria não cobra honorários ou despesas pelo atendimento prestado à população.

Segundo ele, relatos de golpes desse tipo chegam à instituição aproximadamente uma ou duas vezes por semana.

Um dos modelos mais comuns envolve a falsa promessa de que a vítima possui valores a receber em um processo judicial e precisa pagar uma taxa para liberar o dinheiro.

A própria DPE-RS já havia publicado alertas sobre golpes semelhantes.

Em janeiro de 2026, a instituição informou que criminosos utilizavam nomes, fotografias e até números reais de registro profissional para transmitir credibilidade, além de criar ou clonar perfis no WhatsApp.

Em abril de 2025, a Defensoria também alertou que seus serviços são gratuitos e que a instituição não solicita transferências bancárias, Pix ou informações sensíveis por telefone ou aplicativos de mensagens.

Golpistas tentam acessar contas e aplicativos

O prejuízo financeiro é apenas uma das possibilidades.

Em determinados casos, o criminoso tenta conseguir acesso ao celular da vítima.

Isso pode permitir acesso a:

  • aplicativos bancários;
  • contas de pagamento;
  • e-mail;
  • WhatsApp;
  • redes sociais;
  • documentos armazenados no aparelho;
  • aplicativos de autenticação;
  • conta gov.br.

Uma aposentada de 79 anos, de São Sepé, quase caiu em uma fraude semelhante.

Ela recebeu mensagens que aparentavam ser da Defensoria Pública e os criminosos tentaram obter acesso à sua conta no aplicativo gov.br.

A vítima desconfiou da abordagem e não concluiu o procedimento.

O caso demonstra que o objetivo do criminoso pode ser muito maior do que conseguir uma transferência imediata.

Uma vez dentro do aparelho, o fraudador pode tentar explorar outras contas e serviços vinculados à vítima.

Como identificar o golpe

Existem alguns sinais que devem ser considerados como alerta.

1. Pedido de pagamento para liberar dinheiro

Se alguém disser que você possui uma indenização ou valor judicial para receber, mas precisa pagar uma taxa antecipadamente, interrompa o contato e confirme a informação por um canal oficial.

Esse é um dos padrões mais recorrentes apontados pela própria Defensoria.

2. Pedido para clicar em link

Links enviados por desconhecidos podem direcionar para páginas falsas ou permitir a instalação de mecanismos utilizados para obter informações.

Não clique antes de confirmar diretamente com a instituição ou profissional responsável pelo atendimento.

3. Pedido de senha ou código

Nenhuma justificativa relacionada a processo judicial deve ser usada para exigir senha bancária, código de autenticação ou outras credenciais pessoais.

Essas informações não devem ser fornecidas.

4. Pressão para agir imediatamente

O criminoso normalmente tenta impedir que a vítima pense.

Frases como “é preciso pagar agora”, “o prazo termina hoje” ou “se não fizer o procedimento perderá o dinheiro” têm justamente a função de provocar uma decisão impulsiva.

5. Voz conhecida não significa contato verdadeiro

A clonagem de voz muda uma regra importante da segurança digital.

Ouvir a voz de uma pessoa conhecida não é mais suficiente para comprovar sua identidade.

O áudio precisa ser confirmado por outro canal.

O que fazer se receber uma ligação suspeita

A orientação dos especialistas é simples: encerre o contato.

Não continue discutindo com o suposto funcionário.

Não clique em links.

Não faça Pix.

Não forneça senhas.

Não entregue códigos recebidos por SMS ou aplicativos.

Depois, procure diretamente a instituição ou o profissional responsável pelo processo utilizando um número obtido em fonte oficial.

A delegada Luciane Bertoletti orienta que quem cair nesse tipo de golpe procure imediatamente a polícia e registre a ocorrência.

O registro é importante mesmo quando o prejuízo financeiro não ocorreu.

As informações podem ajudar os investigadores a relacionar diferentes ocorrências e identificar padrões utilizados pelos criminosos.

Caiu no golpe? O que fazer imediatamente

Se a vítima forneceu dados, realizou uma transferência ou permitiu acesso ao celular, a prioridade é reduzir o dano.

Se houve acesso ao celular

  • desconecte o aparelho da internet quando possível;
  • procure utilizar outro dispositivo seguro;
  • altere senhas de e-mail e serviços importantes;
  • entre em contato com os bancos;
  • solicite bloqueios necessários;
  • verifique transações recentes;
  • registre ocorrência policial.

Se houve Pix ou transferência

Entre imediatamente em contato com o banco e informe a fraude.

Quanto mais rápido o banco for comunicado, maior a possibilidade de adoção de medidas de contenção, embora não exista garantia de recuperação do dinheiro.

Também é importante guardar comprovantes, números de telefone, mensagens, áudios, links e demais evidências.

Não apague a conversa antes de preservar os dados.

Como confirmar se o contato é realmente da Defensoria

A regra mais segura é não utilizar o mesmo contato fornecido pelo suposto funcionário para fazer a verificação.

Se o criminoso enviou um número de telefone ou link, procure a instituição por conta própria.

A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul informa que o cidadão pode utilizar seus canais oficiais para confirmar informações.

A instituição também disponibiliza o número 129 para ligações gratuitas.

A lógica é simples: se o contato original disser “ligue para este número para confirmar que sou realmente da Defensoria”, não faça isso.

O número pode pertencer ao próprio grupo criminoso.

Por que esse golpe é mais perigoso

O elemento mais preocupante desse tipo de fraude não é apenas a inteligência artificial.

É a combinação de dados reais + autoridade institucional + pressão psicológica + tecnologia.

Imagine uma pessoa que possui um processo judicial.

Ela recebe uma ligação de alguém que sabe:

  • seu nome;
  • o número ou assunto do processo;
  • o nome do defensor;
  • informações pessoais;
  • detalhes de uma demanda que realmente existe.

Depois recebe um áudio com uma voz semelhante à do defensor e uma promessa de receber R$ 124 mil.

A tendência de acreditar aumenta significativamente.

É exatamente essa combinação que torna o golpe mais sofisticado.

A vítima não está sendo enganada apenas por uma voz falsa. Ela está sendo enganada por uma história construída a partir de informações verdadeiras.

O alerta vale para todos os gaúchos

Embora os casos investigados envolvam pessoas atendidas pela Defensoria Pública, o mecanismo pode ser reproduzido em outros contextos.

Criminosos podem utilizar nomes de:

  • advogados;
  • bancos;
  • policiais;
  • médicos;
  • familiares;
  • funcionários públicos;
  • empresas;
  • órgãos judiciais.

A clonagem de voz permite criar uma camada adicional de credibilidade.

Por isso, a regra de segurança precisa mudar:

identidade deve ser confirmada por um segundo canal independente.

Não importa quão convincente seja a voz.

Não importa quantos dados o interlocutor saiba.

Não importa se ele possui sua fotografia ou conhece informações do seu processo.

Se houver pedido de dinheiro, senha, código ou acesso ao aparelho, pare e confirme diretamente com a instituição.

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