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El Niño pode aumentar apagões no Brasil

Abradee alerta para impacto de chuvas, enchentes, ventos e queimadas sobre a rede elétrica; efeitos do fenômeno devem ganhar força a partir de outubro.

O El Niño pode provocar interrupções mais prolongadas no fornecimento de energia elétrica no Brasil, principalmente em regiões atingidas por eventos climáticos extremos. O alerta foi feito pela Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica (Abradee), que avalia que os efeitos do fenômeno devem começar a ser sentidos com maior intensidade a partir de outubro.

A preocupação envolve tanto as redes elétricas aéreas quanto estruturas subterrâneas. Segundo Ricardo Brandão, diretor de Regulação da Abradee, mais de 99% da rede elétrica brasileira é aérea, o que deixa grande parte da infraestrutura exposta a ventos fortes, queda de árvores, enchentes e outros eventos provocados pelo clima.

A avaliação ocorre justamente em um momento de atenção para o comportamento do El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

Sul e Sudeste devem concentrar os maiores impactos

De acordo com a Abradee, os efeitos do fenômeno devem ser sentidos de maneira diferente conforme a região do país.

No Sul e no Sudeste, a principal preocupação está relacionada à ocorrência de chuvas intensas, enchentes e ventos fortes.

Esses eventos podem provocar quedas de árvores sobre a rede elétrica, danos a postes, rompimento de cabos e alagamentos de estruturas de distribuição.

Quando diversos pontos da rede são atingidos simultaneamente, o trabalho das equipes de manutenção se torna mais complexo e o restabelecimento da energia pode levar mais tempo.

O cenário é especialmente relevante para o Rio Grande do Sul, que enfrentou grandes eventos climáticos nos últimos anos.

O diretor da Abradee citou justamente o Estado como exemplo dos impactos provocados por eventos extremos. Segundo ele, os episódios registrados em 2023 e, principalmente, em 2024 demonstraram a dimensão que os fenômenos climáticos podem alcançar.

Rio Grande do Sul já enfrentou impactos severos

A situação vivida pelo Rio Grande do Sul em 2024 é apontada como um dos principais exemplos da vulnerabilidade da infraestrutura diante de eventos climáticos extremos.

Durante as enchentes daquele ano, diversas regiões permaneceram alagadas por semanas. Segundo a Abradee, houve localidades que ficaram até 31 dias debaixo d’água.

Em Porto Alegre, inclusive, a existência de uma rede elétrica subterrânea em parte da cidade não impediu que os alagamentos provocassem impactos.

A água atingiu estruturas e equipamentos, mostrando que a modernização da rede, embora reduza determinados riscos, não elimina os efeitos de eventos climáticos de grande intensidade.

Queda de árvores é um dos principais problemas

Um dos pontos destacados pela Abradee é a relação entre a arborização urbana e a rede elétrica.

Árvores de grande porte podem atingir cabos, postes e equipamentos quando caem durante tempestades ou ventos fortes.

O problema se torna ainda maior quando centenas de árvores caem simultaneamente em uma mesma região.

Nessas situações, as distribuidoras precisam localizar os pontos de interrupção, retirar obstáculos, reparar equipamentos e reconstruir trechos da rede antes de restabelecer completamente o fornecimento.

A Abradee afirma que existem tecnologias capazes de ajudar na identificação e recuperação das falhas, mas elas não impedem danos provocados por árvores de grande porte.

Segundo Brandão, uma árvore de aproximadamente 30 metros de altura pode causar danos que nenhuma tecnologia de monitoramento consegue evitar completamente.

Abradee defende revisão da arborização

A entidade também defende uma discussão sobre o planejamento da arborização das cidades.

Segundo o diretor, árvores muito grandes representam um risco maior para a infraestrutura quando atingidas por eventos climáticos extremos.

A Abradee cita como referência experiências observadas no Japão e nos Estados Unidos, onde, segundo a entidade, é comum encontrar árvores urbanas com aproximadamente três a cinco metros de altura.

No Brasil, por outro lado, existem cidades onde árvores chegam a 25 ou 30 metros.

A proposta apresentada pela entidade é que árvores muito grandes sejam substituídas gradualmente por espécies menores e adequadas ao ambiente urbano.

A discussão envolve não apenas a segurança do fornecimento de energia, mas também o planejamento urbano e a manutenção da vegetação.

Norte e Nordeste enfrentam outros riscos

Enquanto Sul e Sudeste devem enfrentar principalmente os impactos relacionados a chuvas e ventos, o cenário previsto para o Norte e o Nordeste é diferente.

Nessas regiões, a preocupação está concentrada em seca, estiagem e queimadas.

A redução dos níveis dos rios pode prejudicar o transporte por hidrovias e dificultar a chegada de combustíveis utilizados em sistemas de geração de energia.

As queimadas também podem provocar desligamentos quando a fumaça interfere na rede elétrica ou quando o fogo atinge estruturas próximas às linhas de transmissão e distribuição.

Dessa forma, o El Niño apresenta riscos distintos para o sistema elétrico brasileiro, dependendo das condições climáticas de cada região.

Distribuidoras preveem R$ 260 bilhões em investimentos

Para aumentar a capacidade de resposta diante dos eventos climáticos, as distribuidoras brasileiras projetam R$ 260 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030.

Segundo a Abradee, aproximadamente 40% desse valor será destinado à modernização das redes elétricas.

Os recursos deverão ser utilizados em tecnologias, equipamentos e melhorias de infraestrutura destinadas a aumentar a capacidade de resistência e recuperação do sistema.

A chamada resiliência da rede passou a ser uma preocupação cada vez maior diante do aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos.

Segundo a associação, o número de desastres climáticos registrados no Brasil mais que dobrou nos últimos dez anos.

Impacto pode atingir a economia

Os problemas provocados por interrupções prolongadas no fornecimento de energia não ficam restritos às residências.

Comércios, indústrias, serviços públicos, sistemas de abastecimento de água, hospitais e empresas também podem sofrer consequências.

A interrupção da energia pode provocar perdas de alimentos, paralisação de máquinas, problemas de comunicação e interrupção de serviços essenciais.

A Abradee estima ainda que os efeitos do El Niño podem representar um impacto negativo equivalente a 12% do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul até 2050, considerando os efeitos econômicos associados ao fenômeno climático.

A estimativa reforça a preocupação com a necessidade de adaptação das cidades e da infraestrutura aos eventos extremos.

Porto Alegre exige atenção especial

Para Porto Alegre e Região Metropolitana, o alerta ganha importância diante do histórico recente de enchentes, temporais, ventos fortes e quedas de árvores.

A Capital já enfrentou interrupções no fornecimento de energia durante eventos climáticos extremos, inclusive durante a grande enchente de 2024.

A possibilidade de novos episódios de chuva intensa e ventos fortes exige atenção não apenas das concessionárias, mas também de órgãos públicos e da população.

Em caso de queda de árvores ou rompimento de cabos, a recomendação é não se aproximar da estrutura e não tocar em fios, mesmo quando aparentemente não houver energia.

A orientação é comunicar imediatamente a distribuidora responsável e, em situações de risco, acionar os serviços de emergência.

O cenário previsto para os próximos meses reforça a necessidade de preparação da infraestrutura elétrica brasileira para um período de maior instabilidade climática.

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