Home / Colunistas / Eliane Ribas Semeler / Ellis Estrategista / Morandi e o tumulto no comício de Lula: protesto ou provocação?

Morandi e o tumulto no comício de Lula: protesto ou provocação?

Vereador Morandi de Caxias do Sul e sua turma tentam tumultuar os bastidores do comício de Lula: protesto ou estratégia de provocação?

Coluna Ellis Estrategista Política

Por Eliane Ribas Semeler

Um ato político é, por definição, um espaço de manifestação. É ali que o eleitor mede o tamanho de uma candidatura, a energia de uma militância, a temperatura de uma disputa. Mas quando um grupo se desloca de uma cidade para participar do ato de um adversário e o episódio termina em tumulto, a pergunta deixa de ser sobre o comício — e passa a ser sobre estratégia.

Qual era, de fato, o objetivo daquele deslocamento?

É essa a discussão que o episódio envolvendo o candidato a deputado Morandi, de Caxias do Sul, coloca em pauta, após o comício do presidente Lula em Porto Alegre.

É importante começar pelo que ainda não está estabelecido: os relatos sobre a participação de Morandi e de apoiadores vindos de Caxias do Sul circulam nas redes sociais, mas não constituem, até o momento, apuração jornalística fechada nem versão oficial de qualquer das partes. É justamente por isso que esta coluna trata o episódio como matéria de análise estratégica — e não como fato consumado.

Porque existe uma diferença que a política não pode se dar ao luxo de esquecer: protestar é direito. Provocar, quando deliberado, é escolha — e escolhas se explicam.

Quando presença também é mensagem

Na política, comparecer nunca é um gesto neutro.

Uma mobilização pode ser espontânea — fruto de convicção e vontade de participar do debate público. Mas também pode ser desenhada para produzir um determinado tipo de imagem: gerar repercussão, alimentar redes, ocupar espaço na cobertura do dia seguinte.

Se este for o caso, a pergunta relevante deixa de ser “quem tinha razão no bate-boca”. Passa a ser:

Quem saiu politicamente fortalecido depois do episódio?

Porque em campanha, até um momento de confusão pode virar narrativa — para o lado que estava lá e para o lado que não estava.

E quem trabalha com comunicação política sabe que o fato é só a primeira metade da história. A segunda metade — quase sempre mais decisiva — é a disputa por quem vai definir o que aquele fato significou.

Porto Alegre não precisa de conflito importado

A política gaúcha já é intensa o suficiente para dispensar a importação de confrontos entre municípios.

É legítimo discordar do presidente Lula, de seu governo, de sua coligação. É legítimo comparecer a um ato para expressar essa discordância, com faixas, gritos de ordem e cartazes. Isso é democracia funcionando.

O que não deveria ser normalizado — nem pela direita, nem pela esquerda, nem por nenhum outro campo — é a transformação de divergência política em confronto físico ou intimidação.

Se essa linha foi ultrapassada em Porto Alegre, cabem perguntas objetivas, e elas devem ser feitas com a mesma frieza com que se analisa qualquer episódio de crise: quem organizou o deslocamento? Quem participou dele? Qual era o objetivo declarado da viagem? E, ao final, quem colheu vantagem política com a repercussão?

Perguntas assim não prescrevem resposta. Presumem apenas que a resposta é devida.

O fator do Vereador Morandi

A eventual participação de um candidato em um episódio dessa natureza gera, inevitavelmente, questionamento público. Não porque candidatos estejam impedidos de protestar — podem, e em muitos casos devem. Mas porque quem disputa uma eleição também está, permanentemente, disputando percepção.

Cada gesto registrado em vídeo carrega consequência. Cada cena vira corte, cada corte vira comentário, cada comentário alimenta a conversa que decide, meses depois, em quem o eleitor confia.

É por isso que a comunicação de campanha não termina quando o microfone é desligado. Ela continua no grupo de WhatsApp, no story compartilhado, no comentário que aparece três dias depois com uma legenda diferente da que o vídeo originalmente carregava.

Protestar não é o mesmo que tumultuar

A democracia não existe apenas quando quem fala é do nosso lado.

Ela existe — e só é, de fato, democracia — quando funciona também para o adversário: o direito de discordar, de vaiar, de se manifestar contra, de sustentar posição oposta com veemência.

Mas há uma linha que separa a divergência legítima do confronto: a passagem da palavra para o corpo, da crítica para a intimidação. Se essa linha foi cruzada, os responsáveis — de qualquer lado — devem prestar contas. Se não foi, cabe à imprensa e à análise política corrigir qualquer narrativa que tenha antecipado conclusão que os fatos ainda não sustentam.

O direito de resposta de Morandi

Este espaço permanece aberto à manifestação do candidato Morandi.

Ele pode apresentar sua versão dos fatos, esclarecer os motivos de sua presença no comício, explicar o deslocamento de apoiadores de Caxias do Sul e responder, com a profundidade que considerar necessária, às questões levantadas nesta análise.

Caso encaminhe manifestação, será publicada na íntegra, respeitados os critérios editoriais e os limites legais aplicáveis.

Porque inteligência política também é saber ouvir o lado que ainda não falou.

A pergunta que interessa à estratégia

Mais relevante do que apurar quem gritou mais alto é entender o que aconteceu depois que os microfones foram desligados.

Quem venceu a disputa pela narrativa?

Porque a política contemporânea não se resume ao que aconteceu num palco ou numa esquina. Resume-se, sobretudo, a quem consegue transformar o que aconteceu em percepção duradoura.

Para qualquer candidato — de Caxias do Sul ou de qualquer canto do país —, fica a lição que toda assessoria séria deveria repetir antes de cada evento público:

viralizar não é vencer.

Um vídeo pode alcançar milhões de visualizações e, ainda assim, corroer posicionamento. Pode gerar engajamento e, ao mesmo tempo, afastar exatamente o eleitor que a campanha precisava conquistar.

Por isso, a pergunta que qualquer estrategista deveria fazer antes de qualquer mobilização não é “isso vai repercutir?”.

É: “isso aproxima ou afasta o eleitor que eu preciso conquistar?”

Marcado:

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *