As apreensões de canetas emagrecedoras importadas ilegalmente dispararam no Rio Grande do Sul em 2026. Dados da Receita Federal mostram que 3.306 unidades foram apreendidas entre janeiro e setembro deste ano, contra 124 durante todo o ano de 2025. O aumento chega a 2.566% e evidencia a expansão do comércio irregular de medicamentos associados ao tratamento da obesidade e do diabetes.
O valor estimado dos produtos apreendidos no Estado neste ano é de R$ 1,27 milhão. Os números foram divulgados em reportagem publicada pelo portal GZH nesta quarta-feira (21), com base em informações da Receita Federal.
O crescimento das apreensões acompanha a maior procura por medicamentos para emagrecimento, impulsionada pela popularização desses tratamentos e pela divulgação nas redes sociais. Segundo a Receita Federal, o aumento não está relacionado a uma única operação policial, mas ao maior volume desses produtos em circulação.
O cenário acende um alerta para as autoridades sanitárias, porque medicamentos adquiridos fora dos canais autorizados podem apresentar problemas de procedência, composição, armazenamento e conservação.
Apreensões no Brasil também aumentaram
O avanço do comércio irregular não se limita ao território gaúcho. Em âmbito nacional, as apreensões de canetas emagrecedoras passaram de aproximadamente 33,3 mil unidades em todo o ano de 2025 para quase 350 mil entre janeiro e setembro de 2026.
O valor estimado das mercadorias apreendidas no país chegou a R$ 117,1 milhões no período.
Os números demonstram a dimensão econômica do mercado clandestino e a dificuldade de fiscalização diante da variedade de rotas utilizadas para introduzir medicamentos irregularmente no Brasil.
No Rio Grande do Sul, a Receita Federal identificou diferentes formas de transporte e distribuição, incluindo encomendas postais, cargas comerciais, automóveis e ônibus.

Como as canetas emagrecedoras entram ilegalmente no RS?
Segundo Eduardo Rossi Mielke, auditor-fiscal e chefe da Divisão de Repressão ao Contrabando e Descaminho da Receita Federal no Rio Grande do Sul, os produtos chegam ao Estado por diferentes caminhos.
A fronteira com o Paraguai é considerada uma das principais portas de entrada desse tipo de mercadoria no Brasil. Parte das cargas segue para grandes centros de distribuição, como São Paulo, enquanto outras remessas são destinadas a diferentes regiões.
No território gaúcho, os produtos podem ser encontrados escondidos em veículos, misturados a cargas regulares ou enviados por transportadoras e pelos Correios.
A fiscalização identificou situações em que medicamentos que deveriam permanecer refrigerados eram transportados em compartimentos de motores de carros e ônibus, além de outros esconderijos inadequados.
Esse tipo de transporte representa um risco adicional, porque determinados medicamentos precisam permanecer dentro de faixas específicas de temperatura para conservar suas características e eficácia.
A ausência de controle adequado durante o transporte impede garantir que o produto permaneceu em condições apropriadas até chegar ao consumidor.
Fiscalização utiliza inteligência para identificar cargas suspeitas
A Receita Federal vem ampliando o uso de ferramentas de inteligência para combater a entrada irregular de mercadorias no país.
Em vez de depender exclusivamente de abordagens em rodovias, os agentes utilizam cruzamento de dados e análise de informações relacionadas às cargas e às encomendas.
Descrições genéricas, divergências entre o conteúdo declarado e as características da mercadoria, peso, dimensões, origem e percurso podem ajudar a identificar remessas suspeitas.
A estratégia permite direcionar as fiscalizações para situações com maior probabilidade de irregularidade, considerando a diversidade de rotas utilizadas pelos responsáveis pelo comércio clandestino.
O trabalho também busca identificar os caminhos de distribuição dos produtos e reduzir a circulação de mercadorias que não atendem às exigências sanitárias e aduaneiras.

Médicos alertam para riscos dos medicamentos clandestinos
A circulação de canetas emagrecedoras de origem desconhecida preocupa profissionais da saúde. Além da possibilidade de conservação inadequada, existe o risco de o consumidor receber um produto diferente daquele informado na embalagem.
A endocrinologista Letícia Schwerz Weinert, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Rio Grande do Sul (SBEM-RS), alerta que não há garantia de que produtos clandestinos contenham efetivamente os princípios ativos anunciados, como semaglutida ou tirzepatida.
Essas substâncias são utilizadas em medicamentos destinados ao tratamento de condições como obesidade e diabetes, conforme as indicações aprovadas para cada produto.
Quando a origem não é confiável, o consumidor pode ficar exposto a substâncias desconhecidas, concentração diferente da declarada ou problemas relacionados à fabricação e à conservação.
Entre os riscos estão reações adversas, contaminação, infecções e comprometimento da eficácia do tratamento.
A utilização sem avaliação e acompanhamento médico também pode aumentar a probabilidade de complicações, especialmente em pessoas com outras doenças ou que fazem uso de medicamentos concomitantes.
Anvisa recomenda compra em estabelecimentos regularizados
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) orienta que medicamentos sejam adquiridos em farmácias e drogarias regularizadas, com procedência verificável e documentação adequada.
Produtos oferecidos por vendedores informais, redes sociais ou aplicativos de mensagens podem não atender às exigências brasileiras para importação, distribuição e comercialização.
É importante destacar que a origem estrangeira, por si só, não significa necessariamente que um medicamento seja ilegal. Existem situações excepcionais de importação para uso pessoal, sujeitas a requisitos específicos. O problema está na entrada ou comercialização em desacordo com as regras sanitárias e aduaneiras.
Antes de utilizar uma caneta emagrecedora, o paciente deve verificar se o medicamento possui autorização aplicável no Brasil, se a embalagem e a procedência são confiáveis e se o tratamento foi indicado por um profissional habilitado.
Medicamentos que exigem refrigeração também precisam ser mantidos nas condições estabelecidas pelo fabricante. Não é possível presumir que um produto permaneceu adequado apenas porque sua embalagem parece intacta.

Anabolizantes, hormônios e suplementos também registram alta
O aumento das apreensões não está restrito às canetas emagrecedoras. Outras categorias relacionadas à estética, à saúde e ao desempenho físico também apresentaram crescimento expressivo no Rio Grande do Sul.
Na comparação entre todo o ano de 2025 e o período de janeiro a setembro de 2026, os números divulgados pela Receita Federal foram:
- Anabolizantes e hormônios: de 532 unidades em 2025 para aproximadamente 13,4 mil em 2026.
- Vitaminas e suplementos alimentares: de cerca de 1,6 mil pacotes para 7,2 mil.
- Perfumes: de aproximadamente 37,9 mil unidades para 261,1 mil.
As apreensões de componentes e peças de informática também cresceram de forma significativa, chegando a 289.969 unidades no período analisado, alta de 1.539,3% em relação ao total de 2025.
Os números refletem diferentes mercados de mercadorias importadas irregularmente e não significam que todos os produtos dessas categorias sejam falsificados ou ofereçam necessariamente riscos à saúde. A situação depende da procedência, da regularidade da importação e das características de cada item.
Cigarros lideram o valor das apreensões no Estado
Apesar da forte alta percentual das canetas emagrecedoras, os cigarros tradicionais continuam representando a maior parcela do valor das mercadorias apreendidas pela Receita Federal no Rio Grande do Sul.
Entre janeiro e setembro de 2026, foram apreendidos 3.983.520 maços de cigarros, volume 52,9% superior ao total registrado durante todo o ano de 2025.
O valor estimado dessas apreensões chegou a R$ 26,5 milhões.
Segundo a Receita Federal, também houve mudanças nas formas de abastecimento do mercado clandestino de cigarros. A produção ilegal instalada no próprio Estado passou a ter maior participação, em comparação com grandes cargas provenientes do Paraguai.
Um dos casos que marcou a fiscalização gaúcha ocorreu em 2021, durante a Operação Tavares, quando foi descoberta uma fábrica clandestina instalada em um bunker subterrâneo no município de Triunfo. Na ocasião, foram apreendidos cerca de 10 milhões de maços.

Mercadorias apreendidas somam R$ 114,87 milhões
O valor total das mercadorias apreendidas pela Receita Federal no Rio Grande do Sul atingiu R$ 114,87 milhões entre janeiro e setembro de 2026. Durante todo o ano de 2025, o montante havia sido de R$ 101,18 milhões.
Além dos cigarros e das canetas emagrecedoras, os registros incluem perfumes, cosméticos, componentes eletrônicos, celulares, bebidas e cigarros eletrônicos.
Entre janeiro e setembro deste ano, também foram apreendidos:
- 334.169 unidades de cosméticos;
- 261.150 frascos de perfumes;
- 25.028 celulares e smartphones;
- 24.989 cigarros eletrônicos e essências;
- 43.247 garrafas de vinho;
- 78.739 garrafas de bebidas alcoólicas.
Os dados mostram que as apreensões de celulares e smartphones já superaram em 50,3% o total de 2025. No caso dos cigarros eletrônicos e das essências, a alta foi de 73,8%.
A comparação deve considerar que os números de 2026 abrangem apenas nove meses, enquanto os de 2025 correspondem ao ano completo. Mesmo assim, em diversas categorias, o volume apreendido até setembro já ultrapassou o registrado durante todo o ano anterior.
Qual é a diferença entre contrabando e descaminho?
Os dados da Receita Federal abrangem diferentes tipos de irregularidades na entrada de mercadorias no país.
O contrabando está relacionado à importação ou exportação de mercadorias cuja entrada ou saída é proibida por lei.
Já o descaminho ocorre quando mercadorias permitidas entram ou saem do país sem o pagamento dos tributos devidos ou mediante fraude destinada a evitar a tributação.
No caso dos medicamentos, podem existir também infrações sanitárias específicas, dependendo da situação, como importação, fabricação, distribuição ou comercialização sem as autorizações exigidas.
A classificação jurídica depende das circunstâncias de cada caso. Nem toda apreensão representa automaticamente uma condenação criminal, e a responsabilização dos envolvidos depende da apuração pelas autoridades competentes.

O que acontece com os produtos apreendidos?
A destinação das mercadorias depende de sua natureza, da regularidade e da possibilidade de aproveitamento legal.
Produtos que atendem aos requisitos aplicáveis podem ser destinados a leilões, doações ou outras formas autorizadas de utilização pública e social.
Já medicamentos sem procedência comprovada, produtos falsificados e mercadorias que apresentem riscos sanitários podem precisar ser destruídos, conforme a avaliação das autoridades responsáveis.
Segundo os dados divulgados pela Receita Federal, houve mudança na proporção dos materiais apreendidos que recebem destinação útil. Anteriormente, aproximadamente 60% eram destruídos e 40% aproveitados. Atualmente, a proporção é inversa: cerca de 60% são destinados a formas de aproveitamento social ou público, enquanto 40% seguem para descarte ou destruição.
Essa divisão varia conforme as características das mercadorias e não significa que medicamentos clandestinos possam ser distribuídos para consumo. A destinação de produtos farmacêuticos precisa respeitar as exigências sanitárias.
Crescimento das apreensões acende alerta para a saúde pública
O aumento de 2.566% nas apreensões de canetas emagrecedoras no Rio Grande do Sul demonstra a dimensão que o comércio irregular desses produtos alcançou em 2026.
O cenário combina uma procura crescente por tratamentos para emagrecimento com redes de distribuição que utilizam diferentes rotas e métodos de ocultação para evitar a fiscalização.
Além do prejuízo relacionado à importação irregular e à evasão de tributos, o comércio clandestino de medicamentos apresenta riscos específicos à saúde pública. Sem garantia de procedência, composição e conservação, o consumidor não tem como assegurar que está utilizando o produto anunciado.
A orientação das autoridades sanitárias é evitar a compra de medicamentos de vendedores informais e procurar orientação médica antes de iniciar ou modificar qualquer tratamento.
A fiscalização da Receita Federal, a atuação da Anvisa e o trabalho dos órgãos de investigação são fundamentais para combater a circulação irregular. Ao mesmo tempo, a informação ao consumidor é uma ferramenta importante para reduzir a exposição a produtos de origem desconhecida.










