Fenômeno está ativo desde julho, já altera o padrão atmosférico no Cone Sul e pode atingir intensidade histórica em novembro; Rio Grande do Sul deve ter chuva acima da média durante a primavera.
O El Niño já está produzindo efeitos sobre o padrão atmosférico da América do Sul e aparece entre os fatores que ajudam a explicar a sequência de eventos meteorológicos registrados no Sul do Rio Grande do Sul nas últimas semanas.
Entre os episódios associados ao novo padrão estão o tornado registrado no interior de Pedro Osório, entre os dias 6 e 7 de agosto, e os períodos de chuva persistente que atingiram a região ao longo do mês de agosto.
A avaliação é do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Segundo o meteorologista Ricardo Gotuzzo, o El Niño está ativo desde 11 de julho e vem se intensificando.
No início de setembro, o fenômeno já é classificado como “muito forte”, e as projeções indicam que o pico de intensidade deve ocorrer em novembro.
Fenômeno pode atingir intensidade histórica
O El Niño ocorre quando as temperaturas das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial permanecem acima da média histórica por um período prolongado.
Para que o fenômeno seja caracterizado, é necessário que a temperatura da superfície do oceano fique pelo menos 0,5°C acima da média na região monitorada, acompanhada das alterações atmosféricas características.
Existem quatro classificações utilizadas pelos meteorologistas: fraco, moderado, forte e muito forte.
Para atingir a categoria considerada muito forte, as anomalias de temperatura precisam alcançar pelo menos 2°C acima da média.
No episódio atual, entretanto, as projeções são ainda mais expressivas.
Segundo Ricardo Gotuzzo, a expectativa é de que o fenômeno alcance seu pico em novembro, podendo chegar a aproximadamente 3°C de anomalia de temperatura nas águas superficiais do Pacífico Equatorial.
Caso essa projeção se confirme, será um dos eventos mais intensos já observados desde o início dos registros utilizados para comparação.

Tornado em Pedro Osório está entre os eventos relacionados
A mudança no comportamento da atmosfera já pode ser percebida nos eventos registrados durante agosto.
Um dos principais exemplos ocorreu entre 6 e 7 de agosto, quando um tornado atingiu a zona rural de Pedro Osório, na Zona Sul do Estado.
O fenômeno atingiu propriedades rurais e provocou danos em casas, galpões, postes e áreas de vegetação.
O tornado se desenvolveu a partir de uma tempestade severa, em um cenário que reunia diferentes ingredientes atmosféricos.
Antes da passagem da frente fria, havia uma massa de ar quente e úmida sobre a região. Ao mesmo tempo, a atmosfera apresentava instabilidade e elevado cisalhamento do vento, que corresponde à variação da velocidade e da direção dos ventos conforme a altitude.
Essa combinação favoreceu o desenvolvimento de uma tempestade do tipo supercélula, estrutura que pode apresentar rotação intensa e, em determinadas condições, produzir tornados.
O ciclone-bomba que atuava sobre o oceano também teve influência na configuração atmosférica daquele episódio, embora não seja correto afirmar que ele tenha produzido diretamente o tornado.
A rápida movimentação da frente fria associada ao sistema pode ter contribuído para a organização da linha de instabilidade que atravessou a região.
Chuva persistente também chama atenção
Outro período citado pelos especialistas começou a partir de 16 de agosto, quando a região passou a registrar chuva persistente.
Para o meteorologista Ricardo Gotuzzo, esses episódios fazem parte de uma mudança que já vinha sendo observada no padrão de precipitação sobre o Cone Sul.
Segundo a avaliação do Ciex, a atmosfera passou a responder de maneira mais evidente à presença do El Niño a partir de meados de julho.
Isso significa que o fenômeno passou a funcionar como um importante elemento de fundo para a configuração atmosférica regional.
O El Niño, entretanto, não provoca sozinho cada temporal ou episódio de chuva.
A ocorrência de chuva intensa depende da interação entre o fenômeno climático e sistemas meteorológicos de menor escala e duração, como frentes frias, áreas de baixa pressão, linhas de instabilidade e bloqueios atmosféricos.

Como o El Niño favorece mais chuva no RS
O principal efeito do El Niño sobre o Sul do Brasil está relacionado à alteração da circulação atmosférica.
O aquecimento anormal do Pacífico modifica os padrões de vento em grande escala e pode favorecer o transporte de maior quantidade de calor e umidade em direção ao Sul do continente.
Um dos mecanismos importantes nesse processo é o fortalecimento do chamado Jato de Baixos Níveis, corredor de ventos responsável pelo transporte de umidade da região tropical e amazônica em direção ao Sul do Brasil.
Quando essa umidade encontra uma frente fria, uma área de baixa pressão ou ar mais frio em níveis superiores da atmosfera, aumenta a possibilidade de formação de nuvens carregadas, temporais e chuva volumosa.
Além disso, determinadas configurações atmosféricas podem dificultar o deslocamento dos sistemas meteorológicos.
Quando uma frente fria fica praticamente estacionada ou se desloca lentamente, a mesma região pode permanecer sob influência da instabilidade durante várias horas ou até dias.
Isso aumenta os acumulados de chuva e pode elevar os riscos de alagamentos, enxurradas e elevação dos níveis dos rios.
El Niño não significa enchente automática
Apesar da tendência de chuva acima da média no Sul, especialistas reforçam que a presença de um El Niño forte não significa que uma enchente de grandes proporções irá necessariamente acontecer.
O fenômeno aumenta determinadas probabilidades climáticas, mas não determina sozinho a ocorrência de um desastre.
Para avaliar o risco de uma enchente é necessário observar uma série de fatores, como:
- volume total de chuva;
- duração da precipitação;
- distribuição da chuva sobre uma bacia hidrográfica;
- nível dos rios;
- quantidade de chuva acumulada anteriormente;
- umidade do solo;
- capacidade de absorção do terreno;
- velocidade com que a água chega aos cursos d’água;
- comportamento das chuvas nas cabeceiras dos rios.
Uma chuva extremamente intensa em poucas horas, por exemplo, pode provocar alagamentos e enxurradas sem necessariamente causar uma grande enchente de rio.
Já vários dias consecutivos de chuva nas áreas de cabeceira podem provocar uma elevação gradual dos níveis dos rios e aumentar o risco de inundação.
Por isso, o El Niño deve ser encarado como um fator de aumento de risco, e não como uma previsão isolada de desastre.

Primavera deve ter chuva acima da média
Os dados mais recentes dos órgãos oficiais reforçam o cenário de atenção para o Rio Grande do Sul.
Em boletim divulgado em 1º de setembro, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) informou que existe probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante o trimestre setembro, outubro e novembro de 2026.
A previsão climática indica chuvas acima da média histórica na Região Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul.
O cenário é diferente em outras regiões brasileiras. Norte e Nordeste, por exemplo, apresentam tendência de chuva abaixo da média durante o mesmo trimestre.
As temperaturas também devem permanecer acima da média em grande parte do território nacional, embora a entrada de massas de ar frio possa provocar quedas bruscas de temperatura durante setembro.
Fenômeno deve continuar até 2027
O terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado conjuntamente por órgãos como INMET, INPE, ANA, CEMADEN, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, aponta que as condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026.
Os modelos climáticos indicam que o fenômeno pode permanecer ativo pelo menos até o início de 2027.
O CEMADEN também destaca a possibilidade de o evento atingir intensidade muito forte durante a primavera e o verão.
Outro dado apresentado pelo órgão é a estimativa da agência meteorológica norte-americana NOAA, que aponta 69% de probabilidade de o El Niño de 2026/2027 ser o mais forte registrado desde 1950.

Quatro episódios já podem ser relacionados ao fenômeno
De acordo com o Ciex, pelo menos quatro episódios meteorológicos registrados recentemente podem ser relacionados ao novo padrão associado ao El Niño.
Entre eles está o período de 6 e 7 de agosto, marcado pelo tornado em Pedro Osório e por temporais que provocaram estragos em diferentes municípios.
Também está entre os episódios o período iniciado em 16 de agosto, caracterizado pela persistência das chuvas na região.
A avaliação dos especialistas é que esses acontecimentos não devem ser analisados de maneira isolada. O fenômeno climático cria condições de fundo que podem favorecer determinados padrões, enquanto os sistemas meteorológicos de curto prazo determinam quando, onde e com que intensidade os eventos acontecem.
Zona Sul também tem histórico de tornados
O tornado de Pedro Osório não foi um caso isolado na história recente da região.
Levantamentos citados por pesquisadores apontam pelo menos quatro episódios documentados na Zona Sul desde 2014.
Em 2014, houve registro de tornado entre Pedro Osório e Capão do Leão.
Em 2026, outros episódios foram confirmados em Pelotas, no bairro Fragata, em 12 de fevereiro, e na zona rural de Encruzilhada do Sul, próximo à divisa com Canguçu, em 15 de fevereiro.
O tornado de Pedro Osório completa essa sequência de registros.
Os pesquisadores, entretanto, alertam que o número real pode ser maior. Tornados são fenômenos de curta duração e podem ocorrer em áreas rurais ou pouco habitadas, onde não existem equipamentos ou testemunhas suficientes para documentar o evento.
Além disso, ocorrências antigas podem ter sido classificadas apenas como vendavais.

Tornado, vendaval e microexplosão não são a mesma coisa
Apesar de poderem produzir danos semelhantes, como destelhamentos, queda de árvores e postes, tornado, vendaval e microexplosão são fenômenos diferentes.
O tornado consiste em uma coluna de ar em intensa rotação que se estende de uma tempestade até a superfície.
Os danos provocados por um tornado geralmente apresentam características diferentes daqueles produzidos por ventos lineares.
Em um vendaval ou em uma microexplosão, os danos tendem a seguir uma orientação mais linear, acompanhando a direção predominante do vento.
A microexplosão, por sua vez, ocorre quando uma corrente de ar desce rapidamente de uma nuvem de tempestade e, ao atingir o solo, se espalha horizontalmente.
Já os tornados podem apresentar ventos extremamente fortes, com potencial para ultrapassar 300 km/h em casos mais intensos.
A intensidade de um tornado pode ser estimada posteriormente por meio da análise dos danos provocados em construções, árvores, postes e outras estruturas.
Os especialistas utilizam a Escala Fujita para classificar a intensidade com base nas evidências encontradas ao longo da trajetória do fenômeno.
O que muda para o Rio Grande do Sul nos próximos meses
O cenário projetado pelos órgãos meteorológicos exige atenção, principalmente porque o Estado entra agora na primavera sob influência de um El Niño muito forte.
A previsão de chuva acima da média não significa que o Rio Grande do Sul terá chuva intensa todos os dias.
O que aumenta é a possibilidade de ocorrência de períodos de precipitação mais frequentes, acumulados elevados e episódios de tempo severo, dependendo da configuração atmosférica de cada momento.
Também pode haver períodos de tempo seco e temperaturas elevadas entre os episódios de instabilidade.
Por isso, a previsão sazonal não substitui os alertas meteorológicos de curto prazo.
Para a população, o acompanhamento deve considerar especialmente os avisos da Defesa Civil, do INMET e demais órgãos oficiais, além da evolução dos níveis dos rios e das condições das bacias hidrográficas.

Monitoramento será fundamental
O atual cenário climático coloca o Rio Grande do Sul novamente em uma condição que exige monitoramento constante.
O próprio INMET destaca que eventos de El Niño mais intensos não significam automaticamente impactos mais severos, mas podem aumentar a probabilidade de determinados efeitos.
No caso do Sul do Brasil, entre os principais pontos de atenção estão os episódios de chuva intensa, inundações, enxurradas e elevação dos níveis dos rios.
A combinação entre umidade elevada, sistemas de baixa pressão, frentes frias e outras condições atmosféricas pode produzir episódios de chuva muito intensa em períodos relativamente curtos.
Diante disso, a principal recomendação é acompanhar as atualizações meteorológicas e hidrológicas, especialmente quando houver previsão de chuva volumosa.
O El Niño fornece o cenário climático de fundo. São as condições atmosféricas de cada episódio que determinarão onde a chuva irá ocorrer, quanto irá chover e quais regiões poderão enfrentar os maiores impactos.










