Polícia Civil concluiu investigação sobre a VenezaUno; inquérito aponta 115 ocorrências e 46 condomínios lesados.
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul concluiu o inquérito que investiga uma suposta fraude envolvendo a Imobiliária VenezaUno, que encerrou as atividades no início de junho, sem aviso prévio, em Porto Alegre. Segundo a investigação, o prejuízo causado aos clientes chegou a R$ 3,2 milhões.
A empresa tinha sede no bairro Floresta e administrava aproximadamente 80 condomínios na Capital e no Interior. Após o fechamento, síndicos e representantes de condomínios começaram a registrar ocorrências relacionadas a atrasos no pagamento de fornecedores e à retenção de valores que deveriam ser utilizados para despesas condominiais.
O inquérito foi instaurado em 8 de junho de 2026 e acabou remetido à Justiça na última quinta-feira (3). A investigação ficou sob responsabilidade da 17ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, comandada pelo delegado Raul Vier.
Investigação reuniu 115 ocorrências
Ao longo da apuração, a Polícia Civil contabilizou 115 ocorrências envolvendo 46 condomínios, principalmente em Porto Alegre. Também houve registros relacionados ao caso em Taquari.
A investigação foi dividida em três etapas.
Na primeira fase, encerrada em 1º de julho, foram contabilizadas 70 ocorrências envolvendo 17 condomínios, com prejuízo estimado em aproximadamente R$ 700 mil.
A segunda fase, concluída no fim de julho, acrescentou 26 ocorrências envolvendo 13 condomínios, elevando o prejuízo identificado para cerca de R$ 1,2 milhão.
Já a terceira e última fase, encerrada em 3 de setembro, identificou mais nove ocorrências envolvendo 16 condomínios, com prejuízo estimado em R$ 1,3 milhão.
Somadas, as três etapas chegaram aos R$ 3,2 milhões em prejuízos apontados pela investigação.

Polícia aponta desvio de valores de condomínios
De acordo com os elementos reunidos pela Polícia Civil, valores que deveriam ser utilizados para o pagamento de despesas dos condomínios teriam sido desviados.
A investigação também identificou uma prática considerada especialmente grave: a apresentação de comprovantes bancários adulterados aos clientes.
Segundo a apuração policial, os documentos eram utilizados para simular que pagamentos a fornecedores e concessionárias haviam sido realizados, quando, conforme os investigadores, os valores não teriam sido efetivamente pagos.
A prática teria contribuído para que os problemas demorassem a ser percebidos por alguns dos condomínios administrados pela empresa.
Durante a investigação, foram colhidos depoimentos de síndicos e representantes dos condomínios, além da análise de documentos apresentados pelas vítimas.
Dois sócios foram indiciados
A investigação resultou no indiciamento dos dois sócios da empresa.
Em julho, um dos sócios foi indiciado pelos crimes de apropriação indébita e falsificação de documento particular.
A outra sócia foi indiciada por apropriação indébita.
Os nomes dos investigados não foram divulgados pelas autoridades. Até o momento, ninguém foi preso em decorrência do caso.
É importante destacar que indiciamento não significa condenação. Trata-se da conclusão da autoridade policial de que existem elementos que apontam para a possível prática de crimes e autoria, cabendo ao Ministério Público e posteriormente à Justiça avaliar a responsabilização dos envolvidos.

Empresa encerrou atividades sem aviso
O fechamento da VenezaUno ocorreu no começo de junho e surpreendeu clientes e representantes dos condomínios administrados pela empresa.
Segundo os relatos que deram origem às investigações, começaram a surgir problemas relacionados ao pagamento de fornecedores e prestadores de serviços, além de dificuldades para localizar recursos pertencentes aos condomínios.
A imobiliária administrava aproximadamente 80 edifícios, o que fez com que o caso atingisse um número expressivo de moradores, síndicos e empresas que prestavam serviços aos condomínios.
A partir das primeiras denúncias, a Polícia Civil passou a reunir os registros individualmente para dimensionar o tamanho do prejuízo.
Prejuízo aumentou durante a investigação
Um dos aspectos que chamaram atenção no caso foi o crescimento do valor estimado do prejuízo conforme novas vítimas procuraram a polícia.
Na primeira fase, eram aproximadamente R$ 700 mil.
Com a segunda etapa, o valor chegou a R$ 1,2 milhão.
Na conclusão da terceira fase, o prejuízo identificado alcançou R$ 3,2 milhões.
Isso ocorreu porque novas ocorrências foram registradas e outros condomínios passaram a integrar formalmente a investigação.
O número final de ocorrências chegou a 115.

Advogados dizem que manifestação será feita na Justiça
Procurados pela reportagem, os advogados que representam a VenezaUno informaram que irão se manifestar somente no âmbito judicial.
Até a publicação da reportagem de origem, portanto, não havia uma manifestação pública dos representantes da empresa contestando ou explicando os fatos apontados no inquérito. O espaço permanece aberto para manifestação da defesa.
O que acontece agora?
Com a conclusão do inquérito, o caso segue para a esfera judicial.
A investigação policial reúne os elementos obtidos durante a apuração, incluindo depoimentos, documentos e registros das ocorrências. A partir daí, o Ministério Público poderá analisar o material e decidir quais medidas serão adotadas.
Caso haja denúncia e ela seja recebida pela Justiça, os investigados poderão responder judicialmente pelos crimes apontados pela Polícia Civil.
O processo também poderá avançar na tentativa de identificar e quantificar eventuais valores que possam ser recuperados pelas vítimas.

Caso chama atenção de condomínios
O episódio também evidencia um problema que pode atingir condomínios que terceirizam a administração financeira: a necessidade de fiscalização constante das movimentações realizadas em nome do condomínio.
A existência de comprovantes não significa, por si só, que determinado pagamento tenha sido efetivamente concluído. A conferência de extratos bancários, notas fiscais, pagamentos e contratos pode ajudar a identificar inconsistências.
No caso investigado em Porto Alegre, a Polícia Civil afirma ter encontrado justamente documentos bancários adulterados utilizados para aparentar que determinadas despesas haviam sido pagas.
O caso agora passa para a próxima etapa do sistema de Justiça.










