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Porto Alegre prende 145 por furto de fios

Polícia Civil apreendeu 12.041 quilos de cabos de cobre e alumínio em 12 meses; Capital registrou mais de 1,4 mil ocorrências somente no primeiro semestre de 2026.

O combate ao furto e à receptação de fios e cabos ganhou novas dimensões em Porto Alegre diante do avanço desse tipo de crime e dos impactos provocados sobre serviços essenciais. Nos últimos 12 meses, a Polícia Civil prendeu 145 pessoas e apreendeu mais de 12 toneladas de fios e cabos de cobre e alumínio em ações realizadas na Capital.

Ao todo, foram apreendidos 12.041,127 quilos de materiais. O volume representa, em média, mais de uma tonelada de fios retirados de circulação a cada mês.

No mesmo período, a média foi de aproximadamente uma prisão a cada dois dias e meio, segundo os dados apresentados pela Polícia Civil.

A operação mais recente ocorreu na manhã de quinta-feira (3), no bairro Passo das Pedras, na Zona Norte de Porto Alegre.

Operação apreendeu 64 quilos de cabos

A ação começou por volta das 6h, quando agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais (DRCP) cumpriram um mandado de busca e apreensão em uma residência.

No imóvel, foram encontrados 64 quilos de cabos de alumínio revestidos.

Representantes da CEEE Equatorial identificaram o material como pertencente à distribuidora de energia.

O morador do imóvel era investigado há mais de um ano e já havia sido preso por crime semelhante em 2024.

Segundo a investigação, os materiais eram anunciados em plataformas digitais, dentro de um esquema de comercialização irregular de produtos furtados.

O suspeito foi preso em flagrante por receptação qualificada de fios e cabos pertencentes a concessionária de serviço público, no contexto de atividade comercial clandestina.

Capital teve 1.412 furtos no primeiro semestre

Os números das prisões e apreensões ocorrem em um cenário de forte crescimento dos registros de furtos de fios e cabos em Porto Alegre.

Somente entre janeiro e junho de 2026, foram registrados 1.412 casos na Capital.

O número já supera todo o ano de 2024, quando foram contabilizados 1.369 registros.

Na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, o crescimento chegou a aproximadamente 110%: foram 673 ocorrências no primeiro semestre de 2025 contra 1.412 neste ano.

A dimensão do problema transformou o furto de cabos em uma questão que vai além da segurança pública, atingindo diretamente a infraestrutura urbana e o funcionamento de serviços essenciais.

Quase 23 mil clientes ficaram sem energia

Os impactos chegam diretamente à população.

Dados divulgados pela CEEE Equatorial apontam que os furtos de cabos interromperam o fornecimento de energia para aproximadamente 22,9 mil clientes em Porto Alegre somente nos quatro primeiros meses de 2026.

A distribuidora estima que a Capital registra atualmente quase três ocorrências por dia.

Quando os criminosos retiram cabos da rede elétrica, os efeitos podem atingir residências, empresas, estabelecimentos comerciais e equipamentos públicos.

Além da falta de energia, o furto também pode comprometer iluminação pública, semáforos e outros serviços urbanos.

Regiões mais afetadas

Os dados da CEEE Equatorial apontam concentração de ocorrências principalmente em determinadas regiões da Capital.

Na Zona Norte, os bairros São Geraldo, São João, Floresta e Higienópolis estão entre os locais com maior incidência.

Na região central, aparecem Moinhos de Vento, Auxiliadora, Montserrat, Bom Fim e Cidade Baixa.

Também há registros frequentes na Zona Leste, especialmente no Jardim Botânico e Partenon, e na Zona Sul, em bairros como Glória, Santa Tereza e Cristal.

Furtos também atingem iluminação pública

O problema não se limita aos cabos utilizados pela rede de distribuição de energia.

A iluminação pública também é alvo frequente dos criminosos.

Levantamento da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, com dados da concessionária IPSul, contabilizou 5.332 metros de fios furtados em Porto Alegre em 2026, gerando prejuízo estimado superior a R$ 30 mil.

O número já ultrapassou o total registrado durante todo o ano de 2025, quando foram furtados 4.223 metros.

Desde 2021, mais de 32 mil metros de cabos da iluminação pública foram alvo desse tipo de crime na Capital.

Um exemplo recente ocorreu no Parque Moinhos de Vento, o Parcão.

Após novos furtos, 12 postes ficaram apagados no parque. Somente neste ano, foram contabilizadas 63 ocorrências de furto de fios no local.

Crime organizado e cadeia de receptação

As investigações policiais apontam que o furto de fios não envolve apenas a pessoa que retira o material da rede.

Existe uma cadeia que pode envolver furto, transporte, armazenamento, comercialização e receptação.

Em julho, uma investigação da Polícia Civil revelou um esquema em que criminosos teriam utilizado um caminhão de uma empresa terceirizada para retirar aproximadamente 2,35 toneladas de cabos e bobinas de cobre de um depósito na Zona Norte.

O material teria sido transportado até São Leopoldo, onde foi descarregado em um estabelecimento de venda de sucata.

A investigação apontou ainda suspeita de participação de funcionário da empresa, que teria facilitado o acesso ao depósito.

O caso demonstra como a atuação dos receptadores é considerada estratégica para a manutenção desse mercado ilegal.

Sem compradores dispostos a receber e revender o material, a cadeia criminosa perde parte da capacidade de transformar os fios furtados em dinheiro.

Prefeitura criou comitê de combate

Diante do avanço dos casos, a Prefeitura de Porto Alegre criou, em julho, o Comitê Intersetorial de Combate ao Furto de Fios e Cabos (Cicabos).

O grupo reúne órgãos municipais, forças de segurança, concessionárias de serviços públicos e entidades parceiras.

A proposta é integrar informações e ampliar ações de prevenção, fiscalização e repressão ao furto e à receptação.

O comitê também pretende acompanhar os impactos provocados pelos crimes sobre serviços essenciais e desenvolver estratégias conjuntas.

Entre as propostas discutidas estão a integração dos sistemas de informação, criação de mecanismos para controle da comercialização de fios e cabos e ampliação do uso de tecnologia para monitoramento das redes.

Operações também fiscalizam ferros-velhos

O combate à receptação envolve ainda estabelecimentos que comercializam sucata e metais.

Em uma operação integrada realizada em 1º de setembro, forças de segurança e órgãos municipais fiscalizaram cinco estabelecimentos na Avenida Voluntários da Pátria e no bairro Cruzeiro.

A ação resultou em três prisões e na apreensão de 33,7 quilos de cobre.

Também foram identificadas irregularidades administrativas, ambientais e relacionadas à segurança contra incêndio.

A fiscalização municipal realizou seis autuações, incluindo casos de falta de alvará para atividade de reciclagem ou ferro-velho, depósito irregular de lixo e ausência de licença ambiental.

Tecnologia para identificar material furtado

A CEEE Equatorial também passou a utilizar uma tecnologia para auxiliar na identificação de equipamentos furtados.

A distribuidora adotou uma nanotecnologia de rastreamento que utiliza um componente invisível aplicado ao material.

Quando submetido à iluminação por laser, o componente reage com uma coloração específica.

A tecnologia permite identificar o material mesmo depois que o fio é raspado ou derretido, dificultando a tentativa de eliminar sua origem.

A ferramenta vem sendo utilizada principalmente em subestações e locais considerados mais vulneráveis.

Penas ficaram mais duras

O combate ao furto de fios também ganhou reforço na legislação brasileira.

A legislação passou a estabelecer punições mais severas para crimes envolvendo cabos utilizados em serviços de energia elétrica, telefonia e transmissão de dados.

A Lei nº 15.397, de 2026, estabeleceu pena de dois a oito anos de reclusão e multa para furto de fios, cabos e equipamentos utilizados nesses serviços.

Nos casos de roubo que comprometam serviços essenciais, a pena pode variar de seis a 12 anos.

A receptação também passou a receber tratamento mais rigoroso.

A receptação qualificada pode resultar em pena de seis a 16 anos de prisão, conforme as circunstâncias previstas na legislação.

Risco vai além do prejuízo financeiro

O furto de fios representa também um risco à integridade física dos próprios criminosos e da população.

Cabos podem permanecer energizados, e o contato inadequado pode provocar choques elétricos graves ou fatais.

Além disso, a retirada de cabos pode deixar vias sem iluminação e provocar falhas em semáforos, aumentando o risco de acidentes.

A interrupção do fornecimento também pode atingir hospitais, unidades de saúde, sistemas de transporte, empresas e residências.

Por isso, autoridades tratam o crime como um problema que afeta diretamente a segurança, a infraestrutura e a prestação de serviços públicos.

População pode denunciar

As autoridades orientam que a população não tente abordar suspeitos ou recuperar materiais por conta própria.

Denúncias podem ser feitas de forma anônima.

Brigada Militar: 190
Polícia Civil: 197
Disque Denúncia: 181
Guarda Civil Municipal: 153
CEEE Equatorial: 0800 721 2333

A Prefeitura também disponibiliza o aplicativo 156+POA para registros e denúncias relacionadas aos serviços municipais.

Problema continua no radar das autoridades

Com 145 prisões e mais de 12 toneladas de fios e cabos apreendidas em apenas 12 meses, as forças de segurança ampliam o enfrentamento a um crime que deixou de ser apenas um problema pontual.

Os números mostram uma cadeia que envolve desde a retirada dos cabos até sua comercialização ilegal.

Ao mesmo tempo, o crescimento das ocorrências afeta diretamente moradores e empresas, que podem ficar sem energia, iluminação ou outros serviços essenciais.

A estratégia adotada em Porto Alegre passou a combinar investigação policial, fiscalização de estabelecimentos, integração entre órgãos públicos, novas tecnologias e aumento das penas.

O desafio agora é interromper não apenas o furto, mas principalmente o mercado que permite que o material roubado seja transformado em dinheiro.

Fonte: Jornal MPV, com informações da Polícia Civil, Prefeitura de Porto Alegre, CEEE Equatorial.

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