Um levantamento inédito aponta que 36 crianças e adolescentes estão em situação de rua em Porto Alegre, sendo que 13 têm entre zero e seis anos. Os dados foram obtidos a partir do Cadastro Único (CadÚnico) e analisados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG), em parceria com a Rede Nacional Criança Não é de Rua.
O número coloca a Capital como o município com maior concentração de crianças e adolescentes em situação de rua no Rio Grande do Sul. Dos 84 registros existentes no Estado, 36 estão em Porto Alegre, o equivalente a aproximadamente 43% do total. Entre os casos registrados na capital, 23 são de crianças e adolescentes entre sete e 17 anos.
Os dados são referentes a julho de 2026, quando o Rio Grande do Sul contabilizava 18.070 pessoas em situação de rua. O grupo de crianças e adolescentes representa uma parcela inferior a 1% desse total. No entanto, o levantamento chama atenção principalmente pela presença de crianças na primeira infância, período considerado fundamental para o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo.
Rio Grande do Sul lidera entre os Estados do Sul
O levantamento também mostra que o Rio Grande do Sul apresenta o maior número de crianças e adolescentes em situação de rua entre os Estados da Região Sul, com 84 registros.
Santa Catarina aparece com 19 casos, enquanto o Paraná soma 83 registros. Em Curitiba, porém, não havia registros do contingente no CadÚnico utilizado na pesquisa, o que levanta a possibilidade de subnotificação.
Considerando toda a Região Sul, são 260 crianças e adolescentes em situação de rua, sendo 127 na primeira infância, grupo que corresponde a cerca de 49% dos registros.
Em âmbito nacional, o CadÚnico registra 9.976 crianças e adolescentes em situação de rua, dentro de um universo de 394.863 pessoas nessa condição. Do total de crianças e adolescentes, 4.381 têm entre zero e seis anos, enquanto 5.595 possuem entre sete e 17 anos.

Crianças estão inseridas na realidade das famílias
O levantamento destaca que a situação de rua das crianças não pode ser analisada de maneira isolada. Segundo o Observatório, muitas delas acompanham famílias que enfrentam extrema pobreza, insegurança alimentar, desemprego, precariedade ou ausência de moradia, violência e dificuldades de acesso às políticas públicas.
A educadora popular e pesquisadora Paulina dos Santos Gonçalves também chama atenção para a dificuldade de identificar essas crianças. Segundo ela, famílias inteiras podem acabar vivendo nas ruas, fazendo com que bebês e crianças pequenas também estejam inseridos nesse contexto.
A pesquisadora Lilith Neiman, que estudou crianças e adolescentes em situação de rua, defende que a proteção deve envolver também os familiares. Para ela, medidas relacionadas à moradia, alimentação, trabalho, lazer e acesso a direitos sociais são fundamentais para enfrentar o problema.
Prefeitura ainda não respondeu sobre medidas
A Prefeitura de Porto Alegre foi questionada sobre a existência ou previsão de programas específicos para proteger crianças e adolescentes em situação de rua, mas não respondeu aos questionamentos apresentados pela reportagem.
O município já havia afirmado anteriormente que os números do CadÚnico não necessariamente representam o cenário observado diariamente nas ruas da Capital.
Porto Alegre também desenvolve, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um Censo da População em Situação de Rua. A divulgação dos dados preliminares estava prevista para julho, mas ainda não havia ocorrido até a publicação da reportagem.
O novo levantamento coloca em evidência um problema que envolve não apenas a assistência social, mas também moradia, educação, alimentação, saúde e proteção integral de crianças e adolescentes.
Fonte: Matinal e Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua/UFMG.











