Home / Últimas Notícias / Porto Alegre e regiao / Quando alimentar quem tem fome vira motivo de conflito

Quando alimentar quem tem fome vira motivo de conflito

Por Eliane Ribas Semeler | Colunista do Jornal MPV

Há cenas que dizem muito sobre o país em que vivemos. E algumas delas nos obrigam a parar, pensar e perguntar: em que momento ajudar quem tem fome passou a ser tratado como um problema?

O ativista Júlio Ritta, fundador do projeto Cozinheiros do Bem, há mais de uma década dedica parte de sua vida a uma missão que deveria ser reconhecida por todos: levar comida a pessoas em situação de rua e vulnerabilidade.

O projeto nasceu da solidariedade e cresceu com o trabalho de voluntários, parceiros e pessoas que acreditam que ninguém deveria dormir com fome. Hoje, a iniciativa alcança diferentes pontos de Porto Alegre e também cidades do interior do Rio Grande do Sul.

Mas uma cena recente provocou indignação.

Na noite de quinta-feira, 23 de julho, o ativista Júlio Ritta, fundador do projeto Cozinheiros do Bem, foi abordado por agentes da Guarda Civil Municipal (GCM) enquanto distribuía marmitas para pessoas em situação de rua embaixo do Viaduto da Conceição, em Porto Alegre.

Durante uma ação de distribuição de marmitas, Júlio Ritta e voluntários teriam sido abordados por agentes da Guarda Civil Municipal (GCM). O episódio terminou em uma discussão registrada em vídeo e compartilhada nas redes sociais.

A situação rapidamente ganhou repercussão.

O episódio rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e provocou indignação entre voluntários e apoiadores do projeto.

Há quase 11 anos, o Cozinheiros do Bem atua no combate à fome e na assistência à população em situação de vulnerabilidade. Ao longo dessa trajetória, o projeto já distribuiu milhões de refeições e se tornou uma das iniciativas sociais conhecidas pela atuação direta nas ruas de Porto Alegre.

Segundo relatos divulgados pelos integrantes do projeto, a abordagem dos agentes teria ocorrido durante a distribuição das marmitas e sido marcada por um clima de tensão. Júlio Ritta questionou a intervenção e buscou apoio de autoridades para tentar garantir a continuidade da ação.

O ativista chegou a acionar autoridades, incluindo o prefeito de Porto Alegre, diante da situação.

A repercussão do episódio e a mobilização dos voluntários fizeram com que a distribuição das refeições continuasse. As marmitas foram entregues às pessoas que aguardavam pela ação social, como ocorre regularmente há anos.

Por que uma iniciativa que leva comida a quem tem fome precisa enfrentar obstáculos para realizar seu trabalho?

É claro que o poder público tem o dever de organizar os espaços da cidade, garantir a segurança e fazer cumprir as regras. Mas qualquer intervenção precisa ser acompanhada de diálogo, transparência e respeito.

Quando falamos de pessoas em situação de rua, estamos falando de uma população que enfrenta fome, frio, abandono, dependência química, problemas de saúde e ausência de vínculos familiares. É uma realidade complexa que exige políticas públicas permanentes e ações coordenadas.

Projetos sociais, por sua vez, não substituem o Estado. Mas podem ser importantes aliados no atendimento imediato de quem precisa.

O trabalho realizado pelo Cozinheiros do Bem representa justamente essa rede de solidariedade que se constrói quando cidadãos decidem agir diante de uma realidade que não pode esperar.

O episódio do Via

O caso levanta uma questão que não pode ser ignorada.

E aqui não se trata apenas de uma discussão entre um ativista e agentes públicos. O que está em debate é algo muito maior: qual deve ser o papel do poder público diante de quem passa fome?

É evidente que a cidade precisa de regras. O espaço público precisa ser organizado. A segurança precisa ser preservada. Mas também é preciso perguntar se a resposta para a vulnerabilidade social pode ser simplesmente impedir ou dificultar que alguém entregue comida a quem não tem o que comer.

Não podemos normalizar a fome.

Não podemos aceitar que pessoas em situação de rua sejam invisíveis durante o dia e lembradas apenas quando se tornam um problema para a cidade.

Também não podemos esquecer que, por trás de cada marmita entregue, existe uma pessoa. Existe uma história. Existe alguém que, muitas vezes, perdeu tudo e ainda tenta sobreviver.

Júlio Ritta escolheu estar nas ruas. Escolheu enfrentar o frio, o cansaço, as dificuldades financeiras e os desafios de manter uma iniciativa social por mais de dez anos.

É possível discordar de métodos. É possível discutir regras. É possível buscar soluções diferentes.

Mas solidariedade não deveria ser tratada como ameaça.

O episódio envolvendo o Cozinheiros do Bem precisa servir para abrir um debate sério sobre a população em situação de rua em Porto Alegre. Um debate que não seja movido apenas por ideologia, indignação ou disputa política.

Precisamos falar de fome.

Precisamos falar de dignidade.

Precisamos falar de políticas públicas.

E precisamos falar sobre como sociedade e poder público podem trabalhar juntos para que iniciativas como essa não sejam enfraquecidas, mas fortalecidas.

Porque, no final, a pergunta que fica é simples:

Se alguém está disposto a alimentar quem tem fome, por que não estamos todos procurando maneiras de ajudar?

Talvez o verdadeiro desafio não seja impedir que uma marmita chegue às mãos de quem precisa. Talvez seja construir uma cidade onde ninguém mais precise esperar por ela.

Nota – Guarda Civil Metropolitana

A administração municipal destaca que não há impedimento legal para a entrega de alimentos em vias públicas. A atuação da GCM é orientada pela legislação vigente e pelos protocolos de segurança, preservando o direito das pessoas e a ordem pública.

A Prefeitura de Porto Alegre esclarece que a ocorrência registrada na noite desta quinta-feira, 23, no entorno do Viaduto da Conceição, resultou de um desentendimento pontual envolvendo a Guarda Civil Metropolitana (GCM). A corporação mantém no local um posto avançado de atendimento.

Fontes externas:

Fan Page – Facebook – Julio Ritta

Cozinheiros do Bem

Guarda Civil Metropolitana

Prefeitura de Porto Alegre

Coluna de Opinião – Colunistas Jornal MPV

Eliane Ribas Semeler – CEO Founder Ellis Brazil Digital

@ellisbrazildigital  Colocamos seu Negócio Local no mapa digital . Estratégias de presença e autoridade. Transforme seguidores em clientes reais  Agende uma Reunião Ellis Brazil Digital

@elianesemeler CEO da Ellis, Professora, Gestora, Estrategista & Lançadora de Marcas + de 500 negócios antendidos. Ativo o DNA de negócios Online.

@ellisestrategistapolítica  Professora e Estrategista em Marketing Política de Campanhas, Mandatos e Governos. + de 15 anos de experiência. Consultoria e Gestão de Campanhas.

Sala Secreta da Ellis: Revista de Geopolítica & Poder / Comunicação • Posicionamento •Narrativa Politica . SALA SECRETA da Ellis a única desde 2018

Marcado:

2 Comentários

  • Silvio Cristiano G Moreira
    Responder

    Precisa falar tambem o que esta por tras disso, como: Leis e regras tem que ser cumpridas, tudo que se faz dentro de qualquer municipio precisa de autorizaçao, essas ações não favorecem a vagabundagem? quam sustenta essa ONG? Agora minha opinião, essa genmte não tem fome, eles tem comida gratis e isso tem uma finalidade… temos que conhecer todos os lados.

    • Obrigado por contribuir com o debate. Sua colocação traz questionamentos que merecem ser discutidos.

      Ninguém está acima da lei. Se uma ação social ocorre em espaço público, ela deve respeitar a legislação, as normas municipais e, quando necessário, as autorizações dos órgãos competentes. Da mesma forma, toda ONG deve atuar com transparência sobre sua gestão, seus financiadores e sua prestação de contas.

      No entanto, como colunista, entendo que não podemos reduzir uma questão tão complexa a uma única interpretação. Há pessoas em situação de rua por diferentes motivos: desemprego, rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde mental, dependência química e extrema vulnerabilidade. Generalizar que “essa gente não tem fome” ou que toda ação solidária incentiva a permanência nas ruas é uma afirmação que merece cautela e precisa ser analisada à luz de dados, e não apenas de percepções.

      Meu artigo não teve a intenção de discutir a regularidade de uma entidade ou de defender qualquer organização específica. O objetivo foi refletir sobre um fato que chama atenção: quando um gesto de solidariedade passa a ser motivo de conflito, todos nós, como sociedade, devemos nos perguntar se estamos enfrentando as causas do problema ou apenas seus efeitos.

      Acredito que o caminho passa pelo equilíbrio: cumprir a lei, fiscalizar quando necessário, exigir transparência das instituições e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade humana. Solidariedade e responsabilidade não são valores opostos; podem e devem caminhar juntos.

      É justamente para isso que existe uma coluna de opinião: provocar reflexão e abrir espaço para um debate respeitoso, onde diferentes visões possam ser ouvidas.

      Eliane Ribas Semeler / Colunista MPV

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *