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RS se destaca em transplantes de órgãos

Estado realizou 1.171 transplantes no primeiro semestre de 2026 e recebeu cerca de 60 pacientes de outras regiões do Brasil no período; estrutura especializada e experiência de hospitais ajudam a explicar a procura.

O Rio Grande do Sul se consolidou como um dos principais polos de transplantes do Brasil, reunindo hospitais especializados, equipes com experiência em diferentes modalidades e uma estrutura estadual voltada à captação e distribuição de órgãos.

A capacidade instalada faz com que pacientes de outros estados atravessem o país em busca de tratamento no Rio Grande do Sul. Segundo dados da Central Estadual de Transplantes, aproximadamente 260 pessoas de outros estados vieram ao Rio Grande do Sul para realizar transplantes em 2025. No primeiro semestre de 2026, foram cerca de 60 pacientes de fora do estado.

A movimentação ocorre dentro do Sistema Nacional de Transplantes, que utiliza critérios técnicos para definir os receptores dos órgãos disponíveis. A existência de uma lista única informatizada permite que os órgãos sejam direcionados aos pacientes compatíveis conforme critérios como compatibilidade sanguínea, urgência, tempo de espera e características do receptor.

RS realizou mais de mil transplantes em seis meses

Entre janeiro e junho de 2026, o Rio Grande do Sul realizou 1.171 transplantes.

A estrutura estadual atende diferentes modalidades, incluindo transplantes de rim, fígado, coração, pulmão e córnea, além de procedimentos envolvendo outros tecidos.

O Estado também possui experiência em transplantes considerados de alta complexidade. De acordo com a reportagem da GZH, algumas das principais referências brasileiras na área atuam no Rio Grande do Sul, com destaque para instituições de Porto Alegre.

Entre os hospitais que se destacam estão a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital São Lucas da PUCRS.

A concentração de equipes especializadas e a experiência acumulada ao longo de décadas contribuem para que o Estado tenha capacidade de realizar diferentes tipos de transplante.

Santa Casa, Clínicas e São Lucas são referências

Porto Alegre concentra parte importante da estrutura de transplantes do Estado.

A Santa Casa de Porto Alegre possui equipes especializadas em diferentes modalidades e também participa diretamente do processo de captação de órgãos.

O Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital São Lucas da PUCRS também possuem programas de transplantes e recebem pacientes encaminhados de diferentes regiões.

Um dos marcos históricos do Estado está relacionado ao transplante pulmonar. O médico J.J. Camargo, que atua na Santa Casa, participou do primeiro transplante de pulmão realizado na América Latina, em 1989. Atualmente, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, o transplante pulmonar é realizado em apenas quatro Estados brasileiros: Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.

Essa concentração de conhecimento especializado ajuda a explicar por que pacientes de outras partes do país acabam sendo encaminhados para tratamento no Estado.

Estrutura de captação também é diferencial

A qualidade de um sistema de transplantes não depende apenas dos hospitais que realizam as cirurgias.

Antes que um órgão chegue ao paciente, existe uma cadeia que envolve identificação do potencial doador, confirmação da morte encefálica quando aplicável, autorização familiar, avaliação clínica, retirada dos órgãos, transporte, identificação dos receptores e realização do transplante.

No Rio Grande do Sul, a estrutura inclui a Central Estadual de Transplantes, Organizações de Procura de Órgãos (OPOs), comissões hospitalares e equipes transplantadoras.

Atualmente, o Estado possui seis OPOs clínicas e uma OPO cirúrgica, vinculadas à Secretaria Estadual da Saúde. Cada organização possui uma área de atuação e acompanha hospitais para identificar potenciais doadores e auxiliar as famílias durante o processo.

A OPO cirúrgica instalada na Santa Casa é apontada como uma estrutura diferenciada por realizar atividades de captação de órgãos abdominais e transporte de órgãos e tecidos.

Como funciona a doação de um órgão

O processo começa quando existe um potencial doador.

Em casos de morte encefálica, o diagnóstico precisa seguir um protocolo médico rigoroso. No Brasil, são realizadas avaliações clínicas por médicos diferentes e um exame complementar, conforme as regras estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina.

Depois da confirmação da morte encefálica, a família é consultada sobre a possibilidade de doação.

No Brasil, a autorização familiar é fundamental. Por isso, manifestar em vida o desejo de ser doador é importante, mas a família precisa conhecer essa vontade para que possa autorizar a doação no momento adequado.

Com a autorização, as informações médicas do doador são encaminhadas ao sistema responsável pela identificação dos potenciais receptores.

A partir daí, começa uma operação que envolve equipes médicas, Central Estadual de Transplantes, hospitais e transporte especializado.

Órgão não é simplesmente destinado ao paciente mais antigo da fila

Existe uma percepção comum de que o órgão é entregue automaticamente à pessoa que está há mais tempo esperando.

Na prática, a distribuição segue critérios técnicos definidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.

Entre os fatores considerados estão compatibilidade sanguínea, características físicas, urgência clínica e tempo de espera. Para determinados tipos de transplante, também são considerados critérios genéticos.

Quando existe um órgão disponível, o sistema identifica os possíveis receptores.

As equipes médicas avaliam então as condições clínicas dos pacientes. Isso significa que um paciente pode ser chamado para um transplante e, mesmo estando entre os primeiros candidatos, o procedimento não ocorrer caso os exames apontem incompatibilidade ou algum impedimento médico.

Pacientes podem ser chamados várias vezes

A disponibilidade de um órgão não significa que o primeiro chamado necessariamente terminará em transplante.

O órgão pode não ser compatível com determinado receptor ou o paciente pode apresentar alguma condição clínica que impeça a cirurgia naquele momento.

Por isso, pacientes que aguardam transplante podem receber diferentes chamadas até que surja um órgão adequado.

Foi o que ocorreu com o paciente Antônio Silva, de 39 anos, que saiu do Amapá para realizar um transplante renal em Porto Alegre.

Antes de receber o rim, ele havia sido chamado em outras oportunidades que não resultaram na cirurgia. Na chamada que finalmente deu certo, havia oito possíveis receptores e ele terminou selecionado após as avaliações de compatibilidade e condições clínicas.

Sistema utiliza tecnologia para acelerar o processo

Desde 2024, o Rio Grande do Sul utiliza o GEDOTT RS — Sistema de Gerenciamento de Doações de Órgãos e Tecidos para Transplantes.

A plataforma é utilizada pela Central Estadual de Transplantes e busca automatizar e agilizar diferentes etapas do processo de doação.

Segundo a reportagem da GZH, também está sendo implementado um aplicativo de busca ativa integrado ao sistema, destinado a auxiliar as equipes hospitalares que fazem rondas em Unidades de Terapia Intensiva na identificação de possíveis pacientes com morte encefálica.

A tecnologia é utilizada como ferramenta de apoio à estrutura médica e logística, reduzindo o tempo necessário para comunicação e processamento das informações.

Negativa familiar ainda é um dos principais obstáculos

Apesar da estrutura considerada referência, o Rio Grande do Sul ainda enfrenta um problema significativo: famílias que não autorizam a doação de órgãos.

Dados da Secretaria Estadual da Saúde referentes ao primeiro semestre de 2026 mostram que 137 potenciais doações não foram efetivadas porque familiares não autorizaram o procedimento.

O número corresponde a 48,2% das 284 ocorrências em que uma doação poderia ter sido realizada no período.

A segunda principal causa de não efetivação foi a contraindicação médica, com 68 casos.

Também foram registrados 64 casos em que a morte encefálica não foi confirmada, quatro situações relacionadas a parada cardiorrespiratória e 11 ocorrências classificadas em outras causas.

Os números mostram que ampliar a quantidade de transplantes não depende apenas da existência de hospitais preparados. A disponibilidade de órgãos continua sendo uma etapa fundamental.

Conversar sobre doação pode fazer diferença

A Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul reforça que a maneira mais importante de manifestar o desejo de ser doador é conversar com a família.

Como a autorização familiar é necessária, deixar clara essa vontade pode facilitar a decisão dos parentes no momento em que a equipe médica apresentar a possibilidade de doação.

O próprio sistema estadual destaca que a família precisa saber previamente da intenção da pessoa.

O tema pode ser difícil de abordar porque normalmente envolve uma situação de morte, mas a conversa antecipada pode evitar dúvidas e incertezas quando a decisão precisar ser tomada.

Rim concentra a maior fila

Entre os órgãos sólidos, o rim é responsável pela maior fila de espera no Rio Grande do Sul.

No primeiro semestre de 2026, 1.493 pessoas aguardavam por um transplante renal, enquanto 291 transplantes de rim foram realizados no período.

A demanda também inclui pacientes pediátricos.

Um dos casos acompanhados pela reportagem é o de Anthony, de seis anos, que aguardava por um rim e veio do interior de Goiás com a mãe.

A criança tinha apenas um rim funcional desde o nascimento. Após permanecer durante anos na lista de espera por um órgão pediátrico, passou a ter a possibilidade de receber um rim adulto devido ao crescimento.

A mãe, Leni Silva Lemos, candidatou-se como doadora para o filho.

Pacientes precisam permanecer em Porto Alegre

Para quem vem de outros Estados ou de cidades distantes do interior gaúcho, existe outro desafio: permanecer próximo ao hospital enquanto aguarda um órgão.

Um transplante não pode ser agendado com antecedência como uma cirurgia convencional.

Quando aparece um órgão compatível, o paciente precisa estar disponível para ser chamado rapidamente. Dependendo da situação, o contato pode ocorrer durante a madrugada.

Essa necessidade fez surgir em Porto Alegre iniciativas de acolhimento para pacientes que chegam de outras regiões.

Pousada acolhe pacientes que aguardam transplante

A ViaVida, entidade que atua há 26 anos no apoio a pessoas que precisam de transplantes, mantém a Pousada Solidariedade, destinada a pacientes em situação de vulnerabilidade social que precisam permanecer em Porto Alegre.

Atualmente, a pousada opera em sua capacidade máxima, acolhendo 32 pessoas, todas encaminhadas por hospitais.

A estrutura é especialmente importante para quem mora longe da Capital.

Um paciente que reside no Interior ou em outro Estado pode não conseguir chegar rapidamente a Porto Alegre depois de receber uma ligação informando que existe um órgão compatível.

Por isso, permanecer próximo ao hospital durante a espera pode ser uma condição necessária para aumentar a possibilidade de realização do procedimento quando surgir uma oportunidade.

Miriam espera há seis anos por um rim

Enquanto alguns pacientes conseguem chegar ao transplante, outros permanecem anos aguardando.

É o caso de Miriam Antônia Savero, de 32 anos, que veio do interior de Rondônia e aguarda um transplante renal.

Ela realiza hemodiálise três vezes por semana há seis anos e vive em Porto Alegre com o companheiro enquanto espera por um órgão compatível.

A situação mostra o impacto que a espera pode provocar na rotina dos pacientes.

O transplante renal, quando indicado e realizado com sucesso, pode alterar significativamente a rotina de quem depende de sessões regulares de hemodiálise.

Um doador pode beneficiar várias pessoas

A doação de órgãos não está limitada a apenas um órgão.

Dependendo das condições clínicas e da autorização, um único doador pode beneficiar diferentes pacientes por meio da doação de órgãos e tecidos.

Entre os órgãos e tecidos que podem ser transplantados estão rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, intestino, córneas, pele, ossos, tendões e válvulas cardíacas, conforme as condições do doador e os critérios médicos.

A retirada é realizada em ambiente hospitalar e, após o procedimento, o corpo do doador é recomposto para permitir o velório normalmente.

Por que o RS se destaca?

A posição do Rio Grande do Sul como referência em transplantes não depende de um único fator.

O cenário reúne:

  • Hospitais especializados;
  • Equipes médicas com experiência acumulada;
  • Programas de transplantes de diferentes órgãos;
  • Estrutura estadual de captação;
  • Organizações de Procura de Órgãos;
  • Equipes especializadas em hospitais;
  • Logística para transporte de órgãos;
  • Sistema informatizado de gerenciamento;
  • Capacidade de receber órgãos de outras regiões;
  • Experiência histórica em procedimentos de alta complexidade.

A Central Estadual de Transplantes coordena essa estrutura em conjunto com as OPOs, hospitais notificantes e equipes transplantadoras.

Estrutura não elimina a necessidade de novos doadores

Mesmo com toda a estrutura disponível, a quantidade de transplantes continua limitada pela disponibilidade de órgãos.

Os dados de 2026 mostram que quase metade das potenciais doações que poderiam ter sido efetivadas no primeiro semestre acabou não ocorrendo por negativa familiar.

Isso significa que o avanço dos transplantes no Estado depende tanto da capacidade dos hospitais quanto da ampliação da cultura de doação.

A orientação das autoridades é direta: quem deseja ser doador deve conversar com a própria família e deixar essa vontade clara.

Rio Grande do Sul recebe pacientes de todo o Brasil

A combinação entre estrutura hospitalar, equipes especializadas, logística de captação e experiência faz com que o Rio Grande do Sul receba pacientes de diferentes partes do país.

Os aproximadamente 260 pacientes de outros Estados atendidos em 2025 e os cerca de 60 registrados no primeiro semestre de 2026 mostram que o Estado não atende apenas à demanda da população gaúcha.

Para quem está na fila, a estrutura representa a possibilidade de realizar um procedimento que pode mudar completamente a rotina ou representar uma oportunidade de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, para que mais pacientes tenham essa oportunidade, o sistema depende de uma etapa que começa muito antes da cirurgia: a decisão de uma família autorizar a doação dos órgãos de um ente querido.

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