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Sete PMs viram réus por morte de agricultor

Justiça recebe denúncia contra agentes acusados pela morte de Marcos Daniel Nörnberg e pela tentativa de homicídio da esposa dele. Investigação aponta erro na identificação do endereço da operação e disparos antes da reação da vítima.

Sete policiais militares passaram à condição de réus no processo que apura a morte do agricultor Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, e a tentativa de homicídio contra a esposa dele, Raquel Nörnberg, durante uma operação da Brigada Militar em Pelotas, na Região Sul do Rio Grande do Sul. O caso ocorreu na madrugada de 15 de janeiro de 2026, na propriedade rural da família, localizada na região da Cascata.

A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) em 23 de outubro, após a conclusão das investigações conduzidas pela Polícia Civil. A acusação atribui aos sete agentes participação no homicídio qualificado do agricultor e na tentativa de homicídio qualificada contra a esposa dele.

Segundo o Ministério Público, quatro policiais participaram diretamente da ação que terminou nos disparos, enquanto outros três, vinculados ao serviço de inteligência, teriam contribuído para a ocorrência ao identificar equivocadamente o endereço que deveria ser alvo da operação.

A denúncia também solicita que os acusados sejam submetidos a julgamento pelo Tribunal do Júri, além da perda dos cargos públicos e da fixação de indenização aos familiares da vítima. Esses pedidos ainda dependem de análise judicial e não representam, por si só, uma condenação criminal.

Investigação aponta erro na identificação do endereço

A operação tinha como objetivo localizar suspeitos de integrar um grupo investigado por roubos. Conforme a apuração, informações obtidas com pessoas presas no Paraná foram utilizadas para identificar o possível endereço dos investigados.

Entretanto, os policiais acabaram chegando à propriedade rural da família Nörnberg, na localidade da Cascata, em Pelotas. Segundo a investigação, o imóvel ficava a aproximadamente dois quilômetros do endereço que deveria ser alvo da diligência.

O erro na localização foi apontado como uma falha técnica grave. Na propriedade estavam Marcos e Raquel, que foram surpreendidos durante a madrugada, dentro da própria residência.

A investigação procurou esclarecer como o endereço foi definido, quais informações foram transmitidas às equipes e de que maneira ocorreu a entrada dos policiais no imóvel. A apuração também analisou a participação individual dos agentes para determinar quais condutas poderiam ter contribuído para o resultado.

Perícia aponta disparos antes da reação do agricultor

Um dos principais elementos da investigação foi a análise técnica da sequência dos disparos. Laudos do Instituto-Geral de Perícias (IGP), exames balísticos e uma reprodução simulada da ocorrência foram utilizados para reconstruir a dinâmica da ação policial.

Conforme os resultados divulgados pela Polícia Civil, os primeiros disparos identificados foram feitos pelos policiais militares. A perícia apontou que o agricultor só efetuou um disparo com a própria arma aproximadamente 28 segundos depois do primeiro tiro registrado.

A investigação identificou ainda que Marcos foi atingido por oito disparos de fuzil. Os elementos técnicos reunidos não sustentaram a versão apresentada pelos policiais de que teriam agido em legítima defesa após uma agressão armada da vítima.

A conclusão da Polícia Civil divergiu do entendimento anterior da Brigada Militar, cujo inquérito policial militar havia concluído pela inexistência de crimes militares. Após questionamentos do Ministério Público e a realização de novas diligências, a investigação civil avançou na reconstrução dos acontecimentos.

Sete policiais foram denunciados pelo Ministério Público

A denúncia apresentada pelo promotor de Justiça Frederico Carlos Lang divide a participação dos acusados em dois grupos, conforme a atuação atribuída a cada um.

Quatro policiais são apontados como participantes diretos da ação que resultou nos disparos. Outros três, ligados ao serviço de inteligência, são acusados de contribuir para o desfecho ao participar da identificação equivocada do endereço da operação.

O Ministério Público atribui aos agentes homicídio qualificado e tentativa de homicídio qualificada, incluindo a alegação de que as vítimas tiveram sua capacidade de defesa dificultada por terem sido surpreendidas durante a madrugada, dentro de casa.

A acusação também considera a utilização de arma de fogo de uso restrito, conforme os elementos apresentados na investigação. Caberá ao Judiciário analisar as imputações e decidir sobre os próximos passos do processo.

Esposa do agricultor sobreviveu à ocorrência

Raquel Nörnberg estava na residência no momento da ação policial e sobreviveu aos disparos. Ela é apontada pelo Ministério Público como vítima de tentativa de homicídio.

A investigação considera que a mulher também foi exposta à ação armada dentro do imóvel, sem condições adequadas de reação ou fuga. A denúncia sustenta que as circunstâncias da ocorrência justificam a acusação de tentativa de homicídio qualificada.

O caso teve repercussão no Rio Grande do Sul pela morte do agricultor dentro da própria casa e pelas divergências entre a versão inicialmente apresentada pelos policiais e os resultados dos exames periciais.

Ministério Público pede julgamento pelo Tribunal do Júri

Além da responsabilização criminal dos sete policiais, o MPRS solicitou que os acusados sejam julgados pelo Tribunal do Júri. O órgão também pediu a perda dos cargos públicos e o estabelecimento de indenização aos familiares de Marcos.

Os pedidos não significam que as medidas já tenham sido determinadas. A perda dos cargos e a eventual indenização dependem das decisões judiciais cabíveis, assim como a responsabilização criminal exige o regular andamento do processo.

A condição de réu também não equivale a uma condenação. Os acusados têm direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência durante o processo.

Caso expõe divergências sobre a atuação policial

A morte de Marcos Daniel Nörnberg colocou em evidência as diferenças entre a avaliação inicial da Brigada Militar e as conclusões posteriores da Polícia Civil.

Enquanto a investigação militar não identificou crime militar na atuação dos agentes, a apuração civil reuniu elementos que levaram ao indiciamento de sete policiais e, posteriormente, à denúncia do Ministério Público.

O trabalho investigativo incluiu exames técnicos, análise de registros de áudio e imagem, avaliações balísticas e reprodução simulada da ocorrência. Esses elementos foram utilizados para examinar a sequência dos disparos e a participação atribuída a cada agente.

O andamento do processo deverá esclarecer as responsabilidades individuais e verificar se as acusações apresentadas pelo Ministério Público serão comprovadas judicialmente.

O Jornal MPV acompanha o caso e atualizará esta reportagem conforme novas decisões judiciais e manifestações oficiais forem divulgadas.

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