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Biocombustível gaúcho avança

Tecnologia desenvolvida pela Be8, em Passo Fundo, pode ser utilizada em motores a diesel sem modificações e já começa a ser testada em diferentes operações.

O setor de transporte pesado está passando por uma transformação diante da necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem comprometer a eficiência das operações. No Rio Grande do Sul, uma tecnologia desenvolvida pela empresa gaúcha Be8 surge como uma das alternativas para reduzir a dependência do diesel fóssil.

O Be8 BeVant®, desenvolvido e patenteado pela companhia em Passo Fundo, é um biocombustível que pode ser utilizado em motores do ciclo diesel sem a necessidade de modificações na engenharia original dos veículos. Segundo informações divulgadas pela empresa, mais de 100 clientes já utilizam a solução de forma contínua.

A proposta é permitir que empresas que já possuem caminhões e equipamentos movidos a diesel possam iniciar um processo de redução das emissões sem precisar substituir imediatamente toda a frota ou realizar grandes investimentos em novas tecnologias.

Transporte pesado é um dos principais emissores

O transporte rodoviário possui participação significativa nas emissões de gases de efeito estufa. Dados do Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários apontam que o setor foi responsável por aproximadamente 270 milhões de toneladas de CO₂ em 2024.

Desse total, os caminhões responderam por cerca de 40%, o equivalente a aproximadamente 108 milhões de toneladas. A predominância do diesel na frota pesada faz com que alternativas renováveis tenham papel importante nas estratégias de transição energética.

Nesse cenário, os biocombustíveis aparecem como uma possibilidade de redução das emissões, utilizando parte significativa da infraestrutura e da frota já existentes.

Combustível aproveita resíduos para gerar energia

Um dos diferenciais apresentados pela Be8 é a utilização de matérias-primas como gordura animal e óleo de cozinha usado na produção do combustível.

Esses materiais, que poderiam ser descartados, passam a integrar novamente a cadeia produtiva e são transformados em matéria-prima para geração de energia renovável.

A tecnologia foi desenvolvida a partir da experiência da empresa no segmento de biodiesel, que já ultrapassa duas décadas.

O Be8 BeVant® foi lançado comercialmente em 2023 e passou a ser apresentado como uma solução de transição para empresas que ainda dependem de veículos movidos a diesel.

Porto Alegre terá teste do biocombustível em ônibus

A tecnologia também chegou ao transporte coletivo da Capital.

Durante a Expointer 2026, a Be8 formalizou a adesão ao Edital de Chamamento Público nº 001/2026, da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana de Porto Alegre. O objetivo é realizar uma demonstração operacional do combustível em ônibus do sistema municipal.

O projeto terá duração prevista de seis meses e envolverá as empresas operadoras do transporte coletivo, a SMMU e a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

A primeira linha escolhida para os testes é a 520.3 – Triângulo/24 de Outubro/Auxiliadora.

O itinerário foi selecionado por apresentar diferentes características de operação, incluindo trechos de maior extensão, circulação urbana, aclives e declives.

Durante o período de testes, serão avaliados aspectos como quilometragem, desempenho dos veículos, condições de tráfego, consumo, logística de abastecimento e redução das emissões.

A infraestrutura necessária para o abastecimento será fornecida pela própria Be8, permitindo que os veículos utilizem o combustível sem alterações de hardware.

Tecnologia também chega a operações privadas

Além do transporte coletivo, o combustível já está sendo utilizado em operações privadas.

A Be8 firmou parceria com a rede de Farmácias São João, com início em fevereiro de 2026. Depois dos primeiros resultados, a utilização avançou para o consumo regular do biocombustível em equipamentos de movimentação de cargas e caminhões da empresa.

A iniciativa demonstra uma das estratégias defendidas pela fabricante: utilizar a frota existente como parte do processo de transição energética, em vez de depender exclusivamente da substituição dos veículos por modelos elétricos ou movidos a outras tecnologias.

Testes também foram realizados na Alemanha

A tecnologia desenvolvida no Rio Grande do Sul ganhou projeção internacional durante a Hannover Messe, uma das principais feiras industriais do mundo, realizada na Alemanha.

Um caminhão Mercedes-Benz Actros foi abastecido com o biocombustível e passou por testes funcionais no campo de provas da Daimler Truck, em Wörth, na Alemanha.

Segundo o presidente da Be8, Erasmo Carlos Battistella, os testes indicaram manutenção da potência e do desempenho do veículo.

A empresa afirma ainda que o combustível apresentou redução de 99% nas emissões de gases de efeito estufa no ciclo tanque-roda, resultado divulgado pela própria companhia e que deve ser analisado dentro da metodologia utilizada para a medição.

Descarbonização exige mais de uma tecnologia

A discussão sobre o futuro do transporte pesado não envolve apenas um tipo de combustível.

Durante debates realizados na Expointer, representantes do setor apresentaram diferentes alternativas, entre elas biometano, eletrificação, hidrogênio, diesel verde/HVO e combustíveis sintéticos.

A Confederação Nacional do Transporte (CNT) também destaca desafios relacionados à idade da frota brasileira. Dados apresentados no debate apontam que 12% dos caminhões em circulação têm mais de 40 anos, enquanto 55% possuem pelo menos 15 anos de uso. Apenas 8% estão enquadrados na fase P8, equivalente ao padrão tecnológico Euro 6.

A renovação da frota, portanto, continua sendo um dos elementos importantes para reduzir as emissões. Ao mesmo tempo, combustíveis renováveis podem permitir uma transição gradual utilizando veículos que já estão nas estradas.

Caminho ainda depende de escala, testes e regulamentação

Apesar do avanço de novas alternativas, a substituição dos combustíveis fósseis no transporte pesado envolve questões técnicas e econômicas.

Infraestrutura de abastecimento, custo, disponibilidade de matéria-prima, regulamentação, certificação e desempenho dos veículos são fatores que precisam ser considerados antes de uma adoção em larga escala.

No caso dos biocombustíveis, os testes realizados em diferentes tipos de veículos e condições de operação servem justamente para ampliar a base de informações sobre segurança, eficiência e viabilidade econômica.

Para o Rio Grande do Sul, o desenvolvimento de uma tecnologia própria também coloca o Estado no centro das discussões sobre novas soluções para o transporte de cargas e para a redução das emissões.

A tendência é que diferentes tecnologias coexistam durante o processo de transição energética, com cada alternativa sendo utilizada de acordo com as características da operação, infraestrutura disponível e viabilidade econômica.

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