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DNA Eleitoral: o que as sabatinas de Lula e Flávio Bolsonaro revelam sobre a disputa pelo eleitor brasileiro

Por Eliane Ribas Semeler | Estrategista Política

Atual presidente e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu números superiores ao filho de Jair Bolsonaro na entrevista.

A política brasileira, as eleições de 2026 e a disputa pela preferência do eleitor exigem análises que vão além das pesquisas de intenção de voto. Para compreender como uma candidatura constrói sua imagem pública, é necessário observar a identidade política, a comunicação, a reputação e os vínculos que estabelece com a população.

É nesse contexto que se insere o conceito de DNA Eleitoral, uma abordagem de estratégia política que busca compreender como a trajetória de um candidato, suas narrativas, seus valores e a percepção pública se relacionam com o comportamento do eleitor.

As sabatinas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizadas pela TV Globo em outubro de 2026, oferecem elementos para analisar a comunicação política, o posicionamento dos candidatos e a disputa pela atenção do eleitorado brasileiro.

Segundo dados de audiência atribuídos à Folha de S.Paulo, Lula registrou 25 pontos na Grande São Paulo, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 21 pontos. A diferença corresponde a aproximadamente 16% em relação ao índice registrado por Lula.

Outro dado divulgado pelo Terra acrescenta uma dimensão à análise: Flávio Bolsonaro mencionou Lula 28 vezes durante 40 minutos de sabatina, segundo levantamento baseado na transcrição integral da entrevista e limitado às respostas do senador.

Esses números permitem levantar questões sobre audiência televisiva, discurso político e posicionamento eleitoral. Entretanto, é fundamental distinguir os indicadores: audiência mede exposição, enquanto a frequência de menções revela um aspecto do discurso. Nenhum desses dados, isoladamente, determina a intenção de voto.

O que é DNA Eleitoral e como ele ajuda a compreender o comportamento do eleitor?

O DNA Eleitoral pode ser compreendido como o conjunto de elementos que contribuem para a construção da identidade política de um candidato e para a maneira como essa identidade é percebida pelos eleitores.

Entre esses elementos estão a trajetória política, a reputação, a credibilidade, a memória coletiva, a capacidade de comunicação, as propostas de governo e a conexão com as preocupações da população.

No caso de Lula, sua trajetória está historicamente associada ao movimento sindical, à defesa dos trabalhadores, às políticas sociais e à experiência na Presidência da República. Esse histórico constitui uma referência política reconhecível, mas também está sujeito a críticas, cobranças e avaliações divergentes.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, construiu sua projeção nacional em um ambiente político associado ao legado de Jair Bolsonaro e à identidade conservadora de parte do eleitorado brasileiro. Essa relação oferece reconhecimento entre setores que compartilham dessa identidade política, mas também coloca questões sobre a construção de uma liderança própria e a apresentação de propostas para o país.

Essas trajetórias representam experiências e referências distintas. A análise do DNA Eleitoral de Lula e Flávio Bolsonaro não consiste em declarar um vencedor, mas em investigar como cada candidato constrói sua narrativa, quais atributos procura comunicar e como diferentes públicos recebem suas mensagens.

Flávio Bolsonaro citou Lula 28 vezes: o que isso revela sobre a comunicação política?

Segundo levantamento publicado pelo Terra, Flávio Bolsonaro citou Lula 28 vezes durante a sabatina de 40 minutos, realizada em 16 de outubro de 2026.

As referências ao presidente apareceram em temas como economia, segurança pública, funcionalismo, empresas estatais e propostas para um eventual governo.

Durante a entrevista, Flávio criticou a gestão petista, atribuiu ao governo Lula problemas nas contas públicas e defendeu medidas como cortes de despesas e a redução de pelo menos dez ministérios. Também afirmou que retirar Lula do poder seria “o maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer”.

A frequência das menções constitui um dado relevante para a análise do discurso político, mas precisa ser interpretada dentro de seu contexto.

Em uma entrevista eleitoral, citar um adversário pode servir para criticar decisões de governo, estabelecer comparações entre projetos, mobilizar apoiadores ou apresentar propostas alternativas. Para identificar qual função predominou na sabatina, é necessário examinar o conteúdo e o contexto de cada referência.

A pergunta estratégica não é apenas quantas vezes um candidato mencionou seu adversário, mas quanto espaço o adversário ocupa em sua narrativa política e como esse espaço se relaciona com a apresentação de suas próprias propostas.

Essa análise permite investigar o equilíbrio entre crítica, comparação e exposição de um projeto de governo. Contudo, a contagem das menções não comprova, por si só, que a estratégia tenha fortalecido ou prejudicado a candidatura.

Audiência televisiva e intenção de voto: por que não são a mesma coisa?

A audiência televisiva é um indicador de exposição. Já a intenção de voto é uma medida obtida por pesquisas eleitorais, realizadas com metodologia própria.

Os dados atribuídos à Folha de S.Paulo indicam uma diferença de audiência entre as duas entrevistas na Grande São Paulo. Isso não significa, automaticamente, que um candidato tenha mais eleitores, maior credibilidade ou maior apoio em âmbito nacional.

A audiência pode variar conforme o horário, a concorrência com outros programas, o interesse pela pauta, a divulgação prévia e os acontecimentos políticos do momento.

Também é necessário distinguir pontos de audiência, número estimado de espectadores e participação entre os televisores ligados. São métricas diferentes, que não devem ser utilizadas como se fossem equivalentes.

Para compreender o impacto das sabatinas sobre a opinião pública, seria necessário investigar:

  • O perfil das pessoas que acompanharam cada entrevista.
  • Os assuntos que geraram maior repercussão.
  • A circulação dos trechos nas redes sociais.
  • A percepção dos eleitores sobre as respostas dos candidatos.
  • Eventuais mudanças na intenção de voto, medidas por pesquisas comparáveis antes e depois das entrevistas.

O cruzamento desses indicadores oferece uma base mais consistente para a análise eleitoral. Sem essa investigação, os dados de audiência representam um ponto de partida, não uma conclusão sobre o comportamento do eleitor brasileiro.

Estratégia eleitoral: como os candidatos procuram ampliar o diálogo com o eleitor?

Uma das questões centrais da estratégia eleitoral é compreender como uma candidatura se comunica com públicos que possuem experiências, prioridades e convicções diferentes.

Mobilizar apoiadores é uma dimensão importante de uma campanha. Outra é entender as dúvidas dos eleitores indecisos, as preocupações de quem ainda avalia as alternativas e as razões pelas quais determinados segmentos demonstram resistência a uma candidatura.

Nesse processo, o posicionamento político precisa estar conectado a mensagens compreensíveis, propostas identificáveis e argumentos que possam ser avaliados pelo público.

A análise do DNA Eleitoral permite investigar a relação entre a história do candidato, a imagem pública que construiu, suas prioridades e as expectativas dos eleitores.

Isso não significa abandonar convicções para conquistar aprovação generalizada. Significa compreender como as mensagens são recebidas e verificar, com dados, se a comunicação corresponde aos objetivos estabelecidos.

Nenhuma técnica de comunicação, entretanto, garante a conversão de audiência em apoio eleitoral. O comportamento do eleitor depende de múltiplos fatores, entre eles experiências pessoais, condições econômicas, avaliação dos governos, identificação política e informações recebidas durante a campanha.

DNA Eleitoral e inteligência política: da visibilidade à confiança

As sabatinas de Lula e Flávio Bolsonaro demonstram a importância de analisar a comunicação política para além da exposição na televisão.

A diferença de audiência atribuída à Folha de S.Paulo oferece um indicador de exposição na Grande São Paulo. O levantamento do Terra, por sua vez, acrescenta um elemento para estudar a construção do discurso de Flávio Bolsonaro.

Esses dados precisam ser avaliados em conjunto com outras informações, sem confundir visibilidade, engajamento, credibilidade e intenção de voto.

O DNA Eleitoral não é estático. A percepção pública de uma liderança pode ser influenciada por acontecimentos políticos, decisões de governo, propostas, experiências pessoais e novas informações.

Compreender esse processo significa investigar não apenas quem apoia determinado candidato, mas também quais razões sustentam esse apoio, quais dúvidas permanecem e quais fatores influenciam a avaliação de sua candidatura.

Para a inteligência política, a questão central é distinguir aquilo que os dados demonstram daquilo que ainda precisa ser investigado.

Na análise eleitoral, não basta saber quem atraiu mais espectadores ou quantas vezes citou o adversário. É necessário compreender o que esses indicadores revelam — e o que não permitem concluir — sobre a relação entre candidatos e eleitores.

É nessa distinção entre visibilidade, reconhecimento, confiança e comportamento eleitoral que o conceito de DNA Eleitoral contribui para uma análise mais rigorosa da política brasileira.

Eliane Ribas Semeler é estrategista política, especialista em narrativas eleitorais e posicionamento político.


Categoria editorial: Política | Análise Estratégica

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