Climatologista do Cemaden afirma que o Rio Grande do Sul deve sentir os efeitos mais fortes do fenômeno antes de outras regiões; pico do El Niño é esperado entre dezembro e janeiro de 2027.
O Rio Grande do Sul deve enfrentar o período de maior impacto das chuvas associadas ao El Niño durante a primavera, segundo avaliação do climatologista José Marengo, coordenador de Pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
A projeção foi apresentada pelo especialista em entrevista à Rádio Gaúcha nesta terça-feira (18). Segundo Marengo, embora o pico do fenômeno seja esperado durante o verão, entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027, a Região Sul tende a sentir seus efeitos mais fortes sobre as chuvas já durante a primavera.
O cenário chama atenção porque o Rio Grande do Sul está entre as áreas do Brasil mais sensíveis às mudanças provocadas pelo El Niño. O fenômeno altera a circulação atmosférica e, historicamente, está associado a maior frequência de chuvas intensas, alagamentos e cheias de rios no Sul do país.
Primavera pode ser o período mais crítico para o RS
A avaliação de Marengo é que o Sul do Brasil costuma experimentar os primeiros reflexos mais significativos do El Niño antes de outras regiões.
Isso significa que, mesmo com o pico do fenômeno previsto apenas para o verão, a primavera pode concentrar episódios de chuva mais intensa e maior instabilidade meteorológica no Rio Grande do Sul.
A previsão não significa que haverá chuva intensa todos os dias ou que todos os eventos extremos registrados no Estado serão provocados pelo El Niño.
O próprio especialista faz uma ressalva importante: chuvas intensas, tornados e outros fenômenos meteorológicos podem ocorrer independentemente do El Niño.
Essa distinção é fundamental para evitar atribuir automaticamente qualquer temporal ao fenômeno climático.
El Niño já está estabelecido
O El Niño não é apenas uma possibilidade futura.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) informou em junho que as condições características do fenômeno já estavam presentes no Oceano Pacífico Equatorial e que havia expectativa de fortalecimento nos meses seguintes.
Na primeira semana de junho, o índice Niño 3.4 havia alcançado +0,7°C, valor compatível com o estabelecimento das condições de El Niño.
Os demais índices do Pacífico também apresentavam anomalias positivas, indicando aquecimento das águas superficiais do oceano.
O INMET apontava, naquele momento, possibilidade de o fenômeno alcançar intensidade forte durante a primavera de 2026.
Cenário pode se prolongar até 2027
As projeções indicam que o fenômeno não deve desaparecer rapidamente.
Segundo informações divulgadas pelo INMET, os modelos apontam probabilidade superior a 90% de permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027, com alta probabilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão.
Na avaliação apresentada por Marengo, o aquecimento do Pacífico tropical já começou e pode permanecer influenciando o sistema climático até maio de 2027.
Isso significa que o comportamento climático observado no segundo semestre de 2026 pode não ser um episódio isolado.
O fenômeno poderá continuar interferindo nos padrões de temperatura e precipitação durante os primeiros meses de 2027.
Por que o El Niño aumenta a preocupação no RS?
O Rio Grande do Sul possui características climáticas que fazem com que alterações na circulação atmosférica tenham impacto significativo sobre o Estado.
Durante episódios de El Niño, há tendência de aumento da disponibilidade de umidade e de condições atmosféricas favoráveis à ocorrência de precipitações mais volumosas na Região Sul.
O INMET destaca que, historicamente, o fenômeno está associado a chuvas acima da média, eventos de chuva intensa, alagamentos e cheias de rios no Sul do Brasil.
Isso não significa que todos os municípios terão exatamente o mesmo comportamento.
A distribuição das chuvas depende também de outros fatores atmosféricos e oceânicos, além da atuação de frentes frias, áreas de baixa pressão, ciclones e sistemas convectivos.
RS já teve sinais de influência do fenômeno
Segundo Marengo, alguns episódios de chuva registrados no Rio Grande do Sul ao longo deste ano já apresentam características compatíveis com a transição para o novo padrão climático.
O especialista, entretanto, reforça que não é possível atribuir automaticamente cada evento extremo ao El Niño.
Essa observação é particularmente importante no Estado, que registrou diferentes episódios de tempestades, chuvas intensas e tornados em 2026.
Fenômenos meteorológicos de curta duração possuem dinâmica própria e podem acontecer mesmo sem a atuação do El Niño.
O que o fenômeno faz é alterar probabilidades e padrões climáticos de grande escala.
Verão pode trazer calor mais intenso
A influência do El Niño não está restrita às chuvas.
Marengo também avalia que o Rio Grande do Sul e outras regiões podem enfrentar um verão mais quente no próximo ano.
O INMET também aponta tendência de temperaturas acima da média no segundo semestre de 2026, cenário que pode favorecer ondas de calor e aumentar o risco de incêndios florestais em diferentes áreas do país.
Portanto, o Estado pode enfrentar uma combinação de condições meteorológicas diferentes ao longo dos próximos meses: períodos de chuva intensa alternados com temperaturas elevadas.
Chuvas não devem ser interpretadas como previsão de enchente
Existe uma diferença entre previsão climática e previsão meteorológica de curto prazo.
A projeção de que a primavera terá maior influência do El Niño não significa que seja possível determinar agora quais cidades serão atingidas, em quais dias ocorrerão temporais ou quais rios poderão sair do leito.
Essas informações dependem de previsões atualizadas, que precisam ser acompanhadas conforme os sistemas meteorológicos se aproximam.
O papel da previsão climática é indicar uma tendência de comportamento para períodos mais longos.
Já os alertas de tempestade, chuva intensa, granizo, vento e risco de inundação são produzidos conforme as condições atmosféricas de cada evento.
Risco de cheias exige atenção
O cenário preocupa principalmente porque o excesso de chuva pode provocar impactos em rios, áreas urbanas, encostas e sistemas de drenagem.
O boletim conjunto produzido por INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil destaca a necessidade de acompanhar os níveis de rios e reservatórios e os riscos de inundações e deslizamentos durante a evolução do El Niño.
A orientação dos órgãos é manter o monitoramento contínuo e adotar medidas preventivas antes da ocorrência de eventos extremos.
O que pode acontecer na primavera?
O cenário projetado para o Rio Grande do Sul não é de uma sequência permanente de temporais.
O que aumenta é a probabilidade de episódios de chuva mais intensa em razão do padrão climático associado ao El Niño.
A intensidade real de cada evento dependerá de fatores que precisam ser analisados mais perto da ocorrência.
Por isso, previsões climáticas não substituem os alertas meteorológicos.
A recomendação para a população é acompanhar atualizações dos órgãos oficiais, principalmente em períodos de instabilidade.










