A eleição presidencial de 2026 entra em uma nova etapa após a definição do segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A disputa será decidida em 25 de outubro, e os candidatos que ficaram fora da segunda etapa começam a definir — ou a evitar definir — seus posicionamentos diante dos dois finalistas.
Entre os nomes que disputaram o primeiro turno, Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) tiveram papel importante na composição do eleitorado que agora poderá ser disputado por Lula e Flávio.
A diferença entre os dois finalistas no primeiro turno foi pequena. Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%. Com isso, os votos destinados aos demais candidatos passaram a ganhar importância estratégica para a segunda etapa.
Somados, Cury, Renan, Caiado e Zema chegaram a 7,58% dos votos válidos, percentual que, embora dividido entre diferentes candidaturas e perfis eleitorais, representa um contingente relevante para uma disputa presidencial decidida por margem estreita.
Augusto Cury decide não apoiar Lula nem Flávio
Terceiro colocado no primeiro turno, Augusto Cury recebeu 3,44 milhões de votos, correspondentes a 2,89% dos votos válidos.
O candidato do Avante já havia sinalizado antes da votação que não pretendia apoiar nenhum dos dois principais nomes caso chegasse ao segundo turno. Após o resultado, manteve a posição.
Cury anunciou que adotará uma espécie de silêncio político durante o segundo turno, deixando de declarar apoio a Lula ou Flávio. O candidato também afirmou que ninguém está autorizado a falar em nome dele ou da coordenação de sua campanha.
Além disso, Cury afirmou ter convicção de que pretende deixar a vida político-partidária para se dedicar a outros projetos.
Em uma carta aberta, o candidato agradeceu aos eleitores, cumprimentou Lula e Flávio pela chegada ao segundo turno e defendeu que o próximo presidente considere as propostas apresentadas durante a campanha.
A posição de Cury é particularmente relevante porque seu eleitorado não necessariamente possui uma orientação uniforme. Pesquisas realizadas antes do primeiro turno mostravam uma divisão significativa entre os eleitores do candidato do Avante.

Renan Santos rejeita os dois candidatos
O quarto colocado no primeiro turno, Renan Santos, do Missão, também decidiu não apoiar nenhum dos finalistas.
Renan recebeu aproximadamente 2,67 milhões de votos, equivalentes a 2,24% dos votos válidos.
Em transmissão após o resultado, o candidato afirmou que não apoiará nem Lula nem Flávio Bolsonaro. Também não orientou seus eleitores a votar em branco ou nulo, deixando a decisão individual para cada eleitor.
A postura de Renan chama atenção porque sua campanha apresentou forte discurso de oposição aos dois grupos políticos tradicionais que agora disputam a Presidência.
Mesmo sem declarar apoio a Flávio, Renan avaliou que o candidato do PL estaria em uma posição favorável para vencer o segundo turno.
Antes mesmo da votação, Renan já havia criticado Flávio e questionado o espaço concedido aos candidatos considerados de menor expressão nos debates eleitorais.
Ronaldo Caiado aguarda decisão do PSD
O governador de Goiás e candidato do PSD, Ronaldo Caiado, terminou o primeiro turno na quinta colocação.
Caiado recebeu cerca de 2,60 milhões de votos, correspondentes a 2,18% dos votos válidos.
Diferentemente de Cury e Renan, Caiado não anunciou imediatamente uma decisão pessoal sobre Lula ou Flávio.
O candidato afirmou que pretende conversar com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, antes de definir seu posicionamento.
A situação partidária também é importante. O PSD informou que seus diretórios estaduais, parlamentares e filiados terão liberdade para definir seus posicionamentos, tanto na eleição presidencial quanto nas disputas estaduais de segundo turno.
Na prática, o partido não determinou que seus integrantes deverão seguir uma única orientação nacional.
Caiado encerrou sua participação na disputa presidencial, destacando que considera ter mantido coerência durante a campanha. A posição do PSD, portanto, abre espaço para diferentes alianças regionais.

Zema reafirma apoio a Flávio Bolsonaro
A situação de Romeu Zema é diferente.
O ex-governador de Minas Gerais e candidato do Novo reafirmou sua oposição ao PT e declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Zema terminou o primeiro turno em sexto lugar e, durante a apuração, reforçou que seu partido permaneceria do lado contrário ao PT.
A posição do candidato do Novo já era esperada diante do histórico de críticas de Zema ao governo Lula e de sua aproximação com setores da direita durante a campanha.
Em manifestações anteriores, Zema também havia sinalizado que poderia apoiar Flávio caso os dois chegassem a uma disputa de segundo turno contra Lula.
Assim, entre os quatro principais candidatos derrotados, Zema é o que apresenta o posicionamento mais claro em relação aos dois finalistas: apoio a Flávio Bolsonaro e oposição ao PT.
Os quatro candidatos somaram 7,58%
Os números ajudam a dimensionar a importância desses eleitores.
Cury, Renan, Caiado e Zema receberam juntos 7,58% dos votos válidos no primeiro turno.
Individualmente, nenhum deles chegou a 3%, mas o conjunto representa uma parcela maior do que a diferença registrada entre Lula e Flávio.
Isso não significa, entretanto, que os 7,58% serão automaticamente transferidos para um dos candidatos.
O eleitor que votou em Cury não necessariamente seguirá a decisão de Cury. O mesmo vale para os eleitores de Renan, Caiado e Zema.
Esse é um dos principais desafios das campanhas de Lula e Flávio durante o segundo turno.

Pesquisa mostra vantagem de Flávio entre eleitores da terceira via
Um levantamento do Datafolha, realizado entre 8 e 17 de setembro, com 4.003 eleitores, mostrou que Flávio Bolsonaro tinha vantagem sobre Lula entre eleitores que declaravam preferência por candidatos alternativos no primeiro turno.
Nesse recorte, 43% indicavam intenção de votar em Flávio, enquanto 30% apontavam Lula.
A vantagem era mais consistente entre eleitores de Zema e Renan. Já entre os eleitores de Caiado e Cury, os resultados apresentavam maior proximidade e margem de erro elevada devido ao tamanho menor dessas amostras.
Outro levantamento do Datafolha realizado anteriormente também apontava que parte significativa dos eleitores de Zema, Caiado e Renan poderia migrar para Flávio no segundo turno.
Os dados, porém, não permitem afirmar que esses eleitores votarão automaticamente no candidato do PL.
Lula tenta atrair eleitores de Cury e Renan
A campanha de Lula também identificou a necessidade de disputar esse eleitorado.
Antes mesmo da confirmação do segundo turno, integrantes da campanha petista avaliavam a possibilidade de incorporar propostas apresentadas por Augusto Cury para tentar aproximar seu eleitorado.
O PT também demonstrou interesse em dialogar com setores ligados ao eleitorado de Renan Santos, especialmente entre os jovens.
A estratégia mostra que a campanha de Lula não considera os votos da chamada terceira via como automaticamente destinados a Flávio Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, interlocutores petistas avaliam que uma aproximação com Caiado e Zema tende a ser mais difícil devido ao posicionamento mais consolidado dos dois políticos contra o PT.

Segundo turno começa com disputa por votos e alianças
A eleição agora muda de característica.
No primeiro turno, os candidatos disputavam espaço dentro de um cenário com várias opções. No segundo, o eleitor terá apenas Lula ou Flávio Bolsonaro como alternativas para a Presidência, além das opções de voto em branco ou nulo.
Isso aumenta a importância dos eleitores que estavam fora dos dois principais campos políticos.
As campanhas deverão intensificar as negociações com lideranças, partidos, governadores, parlamentares e grupos que ficaram fora da disputa.
Também será necessário convencer o eleitorado de candidatos derrotados de que existe uma razão concreta para escolher um dos finalistas.
O que cada candidato decidiu
Até o momento, o cenário pode ser resumido da seguinte forma:
Romeu Zema (Novo): apoio a Flávio Bolsonaro e oposição ao PT.
Augusto Cury (Avante): não apoia Lula nem Flávio e pretende manter silêncio no segundo turno.
Renan Santos (Missão): não apoia nenhum dos dois e deixou a decisão para seus eleitores.
Ronaldo Caiado (PSD): não declarou apoio formal e aguarda articulações dentro do partido; o PSD liberou diretórios, parlamentares e filiados para definir seus posicionamentos.

Eleitor terá a palavra final
Apesar das articulações políticas, não existe transferência automática de votos.
Uma liderança pode declarar apoio a determinado candidato, mas cada eleitor continua livre para escolher seu voto.
Por isso, os 7,58% obtidos pelos quatro candidatos derrotados não podem ser tratados como um bloco eleitoral único.
A vantagem conquistada por Flávio no primeiro turno também não garante a vitória. Lula permanece competitivo e terá de ampliar seu eleitorado para superar a diferença registrada na primeira etapa.
O segundo turno será, portanto, uma disputa pela parcela de eleitores que ainda pode mudar de escolha, pelos votos dos candidatos derrotados e também pela capacidade de cada campanha de reduzir sua rejeição.
A votação decisiva ocorrerá em 25 de outubro, quando os eleitores escolherão entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República.










