A Polícia Civil do Rio Grande do Sul concluiu o inquérito que investigou a fuga de um detento da Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e indiciou três policiais penais por envolvimento no caso. A investigação aponta que um dos servidores teria falsificado um alvará de soltura para permitir que o preso deixasse a unidade prisional pela porta da frente, sem levantar suspeitas.
O principal investigado é o policial penal Rudcrei da Costa Machado, que atuava no setor responsável pelo recebimento e conferência dos alvarás expedidos pelo Poder Judiciário. Segundo a Polícia Civil, ele teria produzido o documento falso, inserido informações irregulares em sistemas internos e realizado alterações para ocultar a fraude após a fuga do detento.
Investigação aponta planejamento da fuga
De acordo com o delegado responsável pelo caso, Augusto Zenon, a investigação concluiu que a fuga não ocorreu de forma improvisada. Conforme o inquérito, houve uma sequência de atos destinados a dar aparência de legalidade à saída do preso.
Segundo a Polícia Civil, o policial penal teria confeccionado um falso alvará de soltura e entregue pessoalmente o documento ao apenado. Com isso, o detento conseguiu deixar a penitenciária utilizando o procedimento normalmente adotado para presos beneficiados por decisões judiciais.
A fraude só foi descoberta posteriormente, quando inconsistências passaram a ser identificadas nos registros administrativos da unidade prisional.
Quatro crimes foram atribuídos ao servidor
Ao concluir o inquérito, a Polícia Civil indiciou Rudcrei da Costa Machado pelos crimes de:
- promover a fuga de pessoa legalmente presa;
- inserção de dados falsos em sistema de informações;
- falsificação de documento público;
- falsidade ideológica.
As acusações serão agora analisadas pelo Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia à Justiça para abertura de ação penal. Até eventual condenação definitiva, permanece válida a presunção de inocência do investigado.
Polícia aponta tentativa de esconder a fraude
Durante as investigações, os policiais identificaram uma série de medidas que, segundo o inquérito, tinham como objetivo dificultar a descoberta do esquema.
Entre elas, estaria a retirada de páginas do livro oficial de registros da penitenciária, alterações em planilhas internas e mudanças de senhas utilizadas por outros servidores.
Além disso, o policial penal teria registrado falsamente que o detento havia saído para atendimento hospitalar, informação que, segundo a Polícia Civil, nunca correspondeu à realidade. Essas ações passaram a integrar o conjunto de provas reunidas durante a investigação.
Outros dois policiais também foram indiciados
Além do principal investigado, outros dois policiais penais foram indiciados pelo crime de prevaricação.
Segundo a Polícia Civil, ambos perceberam divergências entre os sistemas de controle da penitenciária. Enquanto uma planilha interna apontava que o preso havia sido colocado em liberdade, o sistema oficial ainda registrava sua permanência no estabelecimento prisional.
A investigação concluiu que, apesar das inconsistências, os servidores não comunicaram imediatamente os superiores nem adotaram providências para esclarecer a situação.
Os nomes desses dois policiais não foram divulgados pelas autoridades. Eles respondem às acusações em liberdade.
Servidor permanece preso preventivamente
O policial penal apontado como responsável pela fraude foi afastado de suas funções pela Corregedoria-Geral da Polícia Penal e permanece preso preventivamente.
Paralelamente ao inquérito sobre a fuga, a Polícia Civil instaurou outra investigação para apurar possível enriquecimento incompatível com os rendimentos do servidor.
Durante as diligências, os investigadores identificaram a compra de uma caminhonete avaliada em aproximadamente R$ 235 mil, valor considerado incompatível com a remuneração declarada pelo policial penal. A movimentação financeira será analisada em procedimento específico.
Detento segue foragido
O preso beneficiado pela fraude foi identificado como Willian Ramos Silveira, de 29 anos.
Segundo a Polícia Civil, ele cumpre mais de 34 anos de prisão por homicídio qualificado e responde por investigações relacionadas a outros homicídios, sendo apontado como integrante de uma organização criminosa e considerado de alta periculosidade.
Ele deixou a Penitenciária Modulada Estadual de Charqueadas na manhã de 21 de maio utilizando o alvará falsificado e, até o momento, continua foragido. As forças de segurança mantêm as buscas para localizá-lo.
Defesa nega envolvimento
Em nota divulgada à imprensa, a defesa de Rudcrei da Costa Machado afirmou que ainda não teve acesso ao relatório final do inquérito policial e reiterou que o servidor é inocente.
Os advogados sustentam que informações divulgadas até o momento não refletem integralmente os fatos apurados e afirmam que a inocência do policial será demonstrada durante o curso do processo, caso o Ministério Público apresente denúncia à Justiça.








