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Matemática vira desafio nas escolas do RS

Defasagem acumulada, desigualdade socioeconômica, efeitos da pandemia e dificuldades na trajetória escolar ajudam a explicar os baixos índices de aprendizagem; especialistas defendem mudanças desde os primeiros anos.

A aprendizagem em matemática continua sendo um dos principais desafios da educação básica no Rio Grande do Sul. Dados recentes de avaliações nacionais e internacionais mostram que, embora os estudantes gaúchos estejam em posição superior à média brasileira em alguns indicadores, ainda existe uma parcela expressiva de alunos que chega ao final da educação básica sem dominar conhecimentos considerados fundamentais.

O problema não pode ser explicado por um único fator. Especialistas ouvidos em análise sobre os resultados apontam uma combinação de defasagens acumuladas ao longo da vida escolar, condições socioeconômicas, efeitos da pandemia, formação de professores, experiência dos estudantes dentro das escolas e dificuldades relacionadas à própria aprendizagem da matemática.

Os números mais recentes ajudam a dimensionar o problema. No Pisa 2025, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Rio Grande do Sul alcançou 378 pontos em matemática, praticamente no mesmo nível da média brasileira, de 377 pontos. A média dos países da OCDE foi de 453 pontos.

Apesar do resultado gaúcho superar ligeiramente o nacional, a distância em relação à média internacional mostra que o desafio permanece significativo.

Matemática apresenta o pior desempenho entre as áreas avaliadas

O Pisa avalia estudantes de 15 anos em três áreas principais: matemática, leitura e ciências.

No Rio Grande do Sul, os resultados de 2025 foram:

  • Matemática: 378 pontos;
  • Leitura: 413,5 pontos;
  • Ciências: 411,4 pontos.

Na comparação com o Brasil, o Estado ficou ligeiramente acima nas três áreas. A média brasileira foi de 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências.

O problema aparece quando os resultados são comparados internacionalmente.

A média da OCDE chegou a 453 pontos em matemática, 474 em leitura e 488 em ciências.

Isso significa que, mesmo com o desempenho gaúcho ligeiramente superior ao brasileiro, os estudantes do Estado continuam muito abaixo do patamar médio observado entre os países integrantes da organização.

Condição socioeconômica influencia o desempenho

Um dos fatores analisados para compreender os resultados é o perfil socioeconômico dos estudantes.

Pesquisadores do Instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) fizeram uma estimativa considerando fatores como acesso à internet e escolaridade dos pais.

A análise estimou que, levando em conta essas características, a pontuação esperada para o Rio Grande do Sul em matemática seria de 397 pontos.

O Estado alcançou 378.

A diferença representa 19 pontos abaixo do resultado esperado quando considerado o contexto socioeconômico dos estudantes.

O contraste é diferente em outras áreas.

Em leitura, os estudantes gaúchos ficaram 25,4 pontos acima do resultado esperado considerando o contexto socioeconômico. Em ciências, o desempenho ficou praticamente no nível esperado, com diferença positiva de 0,5 ponto.

Para o diretor-fundador do Iede, Ernesto Martins Faria, o resultado do Estado não se distancia muito do que seria esperado considerando o perfil socioeconômico dos alunos, mas a matemática continua apresentando um desafio maior.

Defasagem aumenta ao longo da trajetória escolar

Os dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, elaborado pelo Todos Pela Educação, também mostram uma diferença importante entre as etapas de ensino.

Na rede pública do Rio Grande do Sul, o percentual de estudantes com aprendizagem adequada em matemática foi de:

  • 57,5% nos anos iniciais do Ensino Fundamental;
  • 28,8% nos anos finais do Ensino Fundamental;
  • 18,1% no Ensino Médio.

Os números mostram uma queda expressiva conforme o estudante avança na trajetória escolar.

No sentido inverso, aumenta a parcela daqueles que chegam às etapas mais avançadas sem domínio suficiente dos conhecimentos esperados.

No Ensino Médio, 41,3% dos estudantes estavam abaixo do nível básico em matemática.

Nos anos finais do Ensino Fundamental, eram 19,2%, enquanto nos anos iniciais o percentual ficava em 12,3%.

A diferença revela um problema de acumulação: dificuldades que não são corrigidas em uma etapa podem acompanhar o estudante durante os anos seguintes.

O problema começa antes do Ensino Médio

A dificuldade não surge repentinamente quando o aluno chega ao Ensino Médio.

Se uma criança não consolida conhecimentos básicos de matemática nos primeiros anos, poderá enfrentar obstáculos posteriormente em conteúdos que dependem dessas habilidades.

Operações fundamentais, interpretação de problemas, frações, porcentagens, medidas e outros conceitos funcionam como uma espécie de base para conhecimentos mais complexos.

Quando essa base não está consolidada, o estudante pode avançar de ano sem necessariamente ter adquirido todas as habilidades esperadas.

O resultado é uma defasagem acumulada.

A secretária-adjunta da Educação do Rio Grande do Sul, citada na reportagem, reconhece a existência desse problema e afirma que parte dos estudantes chega ao Ensino Médio carregando lacunas acumuladas desde o Ensino Fundamental.

Aprovação não significa necessariamente aprendizagem

Outro ponto importante é a diferença entre aprovação escolar e aprendizagem efetiva.

O estudante pode avançar para a série seguinte sem dominar completamente os conteúdos previstos para a etapa anterior.

Esse fenômeno pode produzir uma trajetória escolar aparentemente regular, mas com lacunas que ficam cada vez maiores.

Análises anteriores sobre os indicadores educacionais do Estado já apontavam essa diferença entre evolução das taxas de aprovação e desempenho acadêmico.

No Ensino Médio, por exemplo, a melhoria de determinados indicadores não necessariamente significa que o conhecimento matemático tenha avançado na mesma proporção.

Por isso, especialistas defendem que políticas educacionais não devem avaliar apenas quantos alunos permanecem ou são aprovados, mas também o que efetivamente aprenderam.

Pandemia deixou marcas na aprendizagem

A pandemia de Covid-19 também aparece entre os fatores que contribuíram para o aumento das dificuldades.

O fechamento das escolas e a interrupção das aulas presenciais afetaram principalmente estudantes que já viviam em condições de maior vulnerabilidade.

O acesso desigual à internet, equipamentos, espaços adequados para estudar e acompanhamento familiar contribuiu para ampliar diferenças que já existiam.

A recuperação dessas perdas não acontece automaticamente com a simples retomada das aulas presenciais.

É necessário identificar quais conhecimentos foram perdidos e criar estratégias específicas para recuperá-los.

O próprio Saeb 2025 mostrou avanços na aprendizagem no Estado em relação a 2023, indicando recuperação em diferentes etapas.

Ainda assim, os dados mais amplos mostram que existem lacunas importantes a serem enfrentadas.

RS melhorou no Saeb, mas desafios permanecem

Os resultados de 2025 mostram que o Rio Grande do Sul apresentou evolução nas notas de matemática.

No 5º ano do Ensino Fundamental, a média passou de 229,02 pontos em 2023 para 234,94 em 2025.

No 9º ano, subiu de 261,98 para 271,58 pontos.

Já no 3º ano do Ensino Médio, passou de 281,17 para 291,53 pontos.

Os resultados demonstram melhora recente.

O problema é que evolução não significa que o desafio tenha sido resolvido.

O Estado ainda precisa garantir que os estudantes alcancem níveis adequados de aprendizagem e que as diferenças acumuladas entre as etapas sejam reduzidas.

Diferença entre os anos iniciais e finais preocupa

Os números do Anuário Brasileiro da Educação Básica deixam evidente que o desempenho muda significativamente ao longo da escolaridade.

Enquanto 57,5% dos alunos dos anos iniciais apresentam aprendizagem adequada em matemática, esse percentual cai para 28,8% nos anos finais e chega a apenas 18,1% no Ensino Médio.

Essa queda indica que não basta melhorar a alfabetização matemática das crianças.

É necessário manter o acompanhamento durante toda a trajetória escolar.

A transição dos anos iniciais para os anos finais, por exemplo, exige adaptação a diferentes professores, maior complexidade dos conteúdos e novas formas de aprendizagem.

Sem acompanhamento, alunos que apresentam dificuldades podem ficar progressivamente para trás.

Matemática também depende da leitura

Um dos pontos destacados por especialistas é que matemática não funciona isoladamente.

A professora Marilaine de Fraga Sant’Ana, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chama atenção para a relação entre o domínio da língua portuguesa e a capacidade de compreender problemas matemáticos.

O estudante precisa interpretar enunciados, identificar informações relevantes, compreender perguntas e organizar o raciocínio antes de realizar determinados cálculos.

Por isso, dificuldades de leitura também podem aparecer como dificuldades de matemática.

A integração entre alfabetização linguística e matemática é apontada como uma estratégia importante para melhorar a aprendizagem desde os primeiros anos.

Existe também uma barreira emocional

A matemática possui ainda uma característica que pode dificultar o aprendizado: a relação emocional que muitos estudantes desenvolvem com a disciplina.

A ideia de que matemática é “difícil” ou destinada apenas a pessoas consideradas muito inteligentes pode gerar ansiedade, medo de errar e desmotivação.

Quando o estudante passa a acreditar que não é capaz de aprender, pode evitar exercícios e situações que exigem raciocínio matemático.

Isso cria um ciclo negativo: menos prática produz menor domínio, que aumenta a insegurança, que por sua vez reduz a disposição para estudar.

Por isso, especialistas defendem uma abordagem que torne a matemática mais próxima do cotidiano.

Ensino precisa dialogar com a realidade dos estudantes

Outro aspecto apontado na análise é a necessidade de tornar a experiência escolar mais significativa.

A matemática pode ser trabalhada a partir de situações concretas: dinheiro, orçamento familiar, compras, descontos, juros, medidas, tecnologia, estatística, gráficos e problemas cotidianos.

Essa aproximação pode ajudar o estudante a perceber que a disciplina não se resume a fórmulas e operações abstratas.

A diretora executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, defende justamente uma mudança na experiência escolar, com maior conexão entre os conteúdos e os interesses dos jovens.

Formação dos professores é parte da solução

Outro fator apontado por especialistas é a formação e valorização dos professores.

Não basta disponibilizar materiais didáticos.

O professor precisa conhecer profundamente o currículo, identificar dificuldades específicas dos estudantes e utilizar estratégias adequadas para diferentes níveis de aprendizagem.

Também é necessário apoio para que o profissional consiga acompanhar estudantes que apresentam defasagens sem deixar de avançar com aqueles que já dominam determinado conteúdo.

A formação continuada aparece, portanto, como uma das ferramentas para enfrentar o problema.

Recomposição de aprendizagem ganha importância

Uma das estratégias utilizadas pelas redes de ensino é a chamada recomposição da aprendizagem.

O objetivo é identificar estudantes que ficaram para trás e trabalhar especificamente as habilidades que não foram consolidadas.

A lógica é diferente de simplesmente repetir todo o conteúdo de uma série anterior.

O estudante precisa receber apoio exatamente nos conhecimentos que faltam para conseguir acompanhar a etapa atual.

No Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual de Educação cita programas como Alfabetiza Tchê e Aprende Mais entre as iniciativas voltadas à melhoria da aprendizagem.

Também foram implementados os Estudos de Aprendizagem Contínua, com acompanhamento ao longo do ano e atenção especial aos estudantes que precisam de reforço em matemática e língua portuguesa.

Combater a evasão também faz parte da estratégia

A permanência na escola é outro componente importante.

Quando o estudante abandona ou interrompe repetidamente os estudos, a defasagem tende a aumentar.

A Secretaria da Educação implementou a Política de Proteção à Trajetória do Estudante, que utiliza informações como frequência, histórico escolar e motivos de afastamento para identificar estudantes com maior risco de abandono.

Entre os fatores considerados estão dificuldades econômicas, problemas de transporte, violência, baixa autoestima acadêmica, questões de saúde e impactos de eventos climáticos.

A ideia é identificar o risco antes que o abandono aconteça e permitir que a escola adote medidas preventivas.

Desigualdade social não pode ser ignorada

A educação não acontece isoladamente da realidade social.

Estudantes que vivem em situação de pobreza, insegurança alimentar, dificuldade de acesso à internet, violência ou instabilidade familiar podem enfrentar obstáculos adicionais para aprender.

Isso não significa que estudantes de baixa renda estejam destinados a apresentar baixo desempenho.

O próprio Pisa identifica no Rio Grande do Sul uma parcela de estudantes socioeconomicamente vulneráveis que conseguem alcançar alto desempenho, chamados de alunos resilientes.

No Estado, essa proporção ficou acima da média da OCDE nas três áreas avaliadas.

O dado demonstra que contexto social influencia, mas não determina sozinho o resultado.

RS tem avanços recentes na educação

Apesar dos problemas, os indicadores mais recentes também mostram avanços na educação gaúcha.

O Ideb 2025 apresentou crescimento em todas as etapas da educação básica no Estado.

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o índice passou de 6 para 6,3 entre 2023 e 2025.

Nos anos finais, passou de 4,9 para 5,4.

No Ensino Médio, avançou de 4,2 para 4,9.

Na rede pública, os avanços também foram registrados nas três etapas.

Isso significa que a análise dos dados precisa considerar os dois lados: existem melhorias recentes, mas permanecem problemas estruturais de aprendizagem, especialmente em matemática.

Desafio começa nos primeiros anos

Uma das conclusões apresentadas pelos especialistas é que não existe solução rápida para um problema que se acumula durante anos.

Se uma criança não aprende determinado conceito no início do Ensino Fundamental, a dificuldade pode acompanhar sua trajetória.

Por isso, intervenções apenas no Ensino Médio tendem a ser insuficientes.

O trabalho precisa começar desde a alfabetização matemática, com acompanhamento constante, formação de professores, materiais adequados e identificação precoce das dificuldades.

Quanto mais cedo a lacuna é identificada, maior a possibilidade de corrigi-la antes que ela se transforme em uma defasagem maior.

O que os dados mostram

Os números mais recentes permitem resumir o cenário da seguinte forma:

Pisa 2025 — Rio Grande do Sul

  • Matemática: 378 pontos
  • Leitura: 413,5 pontos
  • Ciências: 411,4 pontos

Aprendizagem adequada em matemática na rede pública do RS

  • Anos iniciais: 57,5%
  • Anos finais: 28,8%
  • Ensino Médio: 18,1%

Abaixo do básico em matemática

  • Anos iniciais: 12,3%
  • Anos finais: 19,2%
  • Ensino Médio: 41,3%.

Os números deixam evidente que o maior problema aparece justamente no final da trajetória escolar.

O desafio agora é transformar avanço em aprendizagem

O Rio Grande do Sul conseguiu melhorar indicadores educacionais recentes, mas ainda enfrenta uma questão central: garantir que mais estudantes efetivamente aprendam aquilo que precisam aprender em cada etapa.

Em matemática, isso significa reduzir as lacunas acumuladas, identificar dificuldades precocemente, fortalecer a formação docente, melhorar a experiência escolar e aproximar o conteúdo da realidade dos alunos.

Também significa compreender que o desempenho educacional é resultado de uma combinação de fatores.

A escola tem papel central, mas condições sociais, políticas públicas, formação profissional, permanência escolar e participação das famílias também influenciam a trajetória dos estudantes.

Os dados mais recentes mostram que o Rio Grande do Sul está avançando em alguns indicadores, mas a distância entre o desempenho esperado e aquilo que muitos estudantes efetivamente conseguem dominar ainda representa um desafio para a educação gaúcha.

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