O desafio de separar fatos, versões e interesses no debate público brasileiro
Por Eliane Ribas Semeler – Estrategista Política | Colunista do Jornal MPV
Vivemos um período em que a política brasileira deixou de ser disputada apenas nas instituições e nas urnas. Hoje, uma parte significativa da disputa acontece nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e nas plataformas digitais, onde uma manchete pode alcançar milhões de pessoas em poucos minutos.
Nesse ambiente, a velocidade da informação frequentemente supera a capacidade de verificação dos fatos. É justamente nesse contexto que surgem as chamadas narrativas políticas, capazes de influenciar a opinião pública antes mesmo que todos os elementos de uma notícia sejam conhecidos.
Nos últimos dias, ganhou repercussão a afirmação de que “30 prefeitos bolsonaristas foram presos em Santa Catarina”. G1 A informação gerou intenso debate nas redes sociais e passou a ser utilizada por diferentes grupos políticos como argumento para reforçar suas posições. Com nova prisão, Santa Catarina chega a 30 prefeitos presos desde 2020.
Tiago Baltt (MDB), de Balneário Piçarras, foi detido nesta terça-feira (19); o segundo em 2026. Maioria das prisões ocorreu durante a Operação Mensageiro, entre 2022 e 2024. Segue a lista dos prefeitos presos
| Nº | Prefeito(a) | Partido à época | Município | Operação |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Orildo Antônio Severgnini | MDB | Major Vieira | Et Pater Filium |
| 2 | Adelmo Alberti | PSL (à época) | Bela Vista do Toldo | Et Pater Filium |
| 3 | Beto Passos | PSD | Canoinhas | Et Pater Filium |
| 4 | Deyvisonn Souza | MDB | Pescaria Brava | Mensageiro |
| 5 | Luiz Henrique Saliba | PP | Papanduva | Mensageiro |
| 6 | Antônio Rodrigues | PP | Balneário Barra do Sul | Mensageiro |
| 7 | Marlon Neuber | PL | Itapoá | Mensageiro |
| 8 | Antônio Ceron | PSD | Lages | Mensageiro |
| 9 | Vicente Corrêa Costa | PL | Capivari de Baixo | Mensageiro |
| 10 | Joares Ponticelli | PP | Tubarão | Mensageiro |
| 11 | Luiz Carlos Tamanini | MDB | Corupá | Mensageiro |
| 12 | Adriano Poffo | MDB | Ibirama | Mensageiro |
| 13 | Adilson Lisczkovski | Patriota | Major Vieira | Mensageiro |
| 14 | Armindo Sesar Tassi | MDB | Massaranduba | Mensageiro |
| 15 | Patrick Corrêa | Republicanos | Imaruí | Mensageiro |
| 16 | Luiz Shimoguri | PSD | Três Barras | Mensageiro |
| 17 | Alfredo Cezar Dreher | Podemos | Bela Vista do Toldo | Mensageiro |
| 18 | Felipe Voigt | MDB | Schroeder | Mensageiro |
| 19 | Luiz Antônio Chiodini | PP | Guaramirim | Mensageiro |
| 20 | Clézio José Fortunato | MDB | São João do Itaperiú | Mensageiro |
| 21 | Douglas Elias Costa | PL | Barra Velha | Travessia |
| 22 | Ari Wollinger (Ari Bagúio) | PL | Ponte Alta do Norte | Limpeza Urbana |
| 23 | Gustavo Cancellier | PP | Urussanga | Terra Nostra |
| 24 | Clori Peroza | PT | Ipuaçu | Fundraising |
| 25 | Fernando de Fáveri | MDB | Cocal do Sul | Fundraising |
| 26 | Marcelo Baldissera | PL | Ipira | Fundraising |
| 27 | Mario Afonso Woitexem | PSDB | Pinhalzinho | Fundraising |
| 28 | Clésio Salvaro | PSD | Criciúma | Caronte |
| 29 | Júnior de Abreu Bento | PP | Garopaba | Coleta Seletiva |
| 30 | Tiago Baltt | (partido não informado na lista fornecida) | Balneário Piçarras | Regalo |
Fatos e narrativas políticas não são a mesma coisa
É importante distinguir informação objetiva de interpretação política.
Santa Catarina registra um número expressivo de prefeitos presos, afastados ou investigados em operações conduzidas pelos órgãos de controle e de Justiça, principalmente por suspeitas de corrupção, fraudes em licitações e organização criminosa. Entretanto, afirmar que todos os envolvidos pertencem ao mesmo campo ideológico não representa, necessariamente, a realidade dos processos em andamento. Entre os investigados existem agentes públicos filiados a diferentes partidos políticos, o que demonstra que a corrupção não possui exclusividade partidária. A Justiça investiga condutas individuais, analisa provas e aplica a legislação. Ela não julga correntes ideológicas.
A força das narrativas políticas na era digital
A comunicação política passou por uma transformação profunda.
Hoje, algoritmos privilegiam conteúdos que despertam emoções, indignação e engajamento. Quanto maior a capacidade de gerar reações, maior tende a ser o alcance da publicação. Esse cenário fortalece a disseminação de mensagens simplificadas, muitas vezes construídas para confirmar convicções já existentes no eleitorado. A consequência é um ambiente de crescente polarização, no qual interpretações passam a competir com fatos objetivos. Não se trata de minimizar investigações nem de defender qualquer grupo político. Pelo contrário. O combate à corrupção deve atingir qualquer agente público que tenha cometido irregularidades, independentemente de sua filiação partidária, posição ideológica ou influência eleitoral.
Da mesma forma, o respeito ao Estado Democrático de Direito, ao devido processo legal e à presunção de inocência deve ser garantido a todos.
O papel da imprensa diante da polarização
Em tempos de excesso de informações, o jornalismo profissional assume uma responsabilidade ainda maior.
Mais do que reproduzir declarações ou acompanhar o ritmo das redes sociais, cabe aos veículos de comunicação verificar dados, contextualizar acontecimentos e oferecer ao leitor diferentes perspectivas sobre um mesmo fato.
A credibilidade tornou-se um dos ativos mais importantes da imprensa.
É exatamente essa função que diferencia o jornalismo da simples circulação de conteúdos na internet.
A democracia depende de cidadãos capazes de formar suas próprias conclusões a partir de informações verificadas e contextualizadas.
Transparência fortalece a democracia
O fortalecimento das instituições democráticas passa necessariamente pela transparência, pela independência dos órgãos de investigação e pelo respeito às garantias constitucionais.
Da mesma forma, exige responsabilidade daqueles que produzem e compartilham informações.
Nem toda afirmação amplamente divulgada representa a totalidade dos fatos.
A democracia se fortalece quando o debate público é construído sobre evidências, documentos, decisões judiciais e informações verificáveis, e não apenas sobre discursos que reforçam a polarização política.
Vivemos um momento em que a informação se tornou um dos principais instrumentos de poder.
Por isso, o maior compromisso da sociedade deve ser com a verdade factual, com o pensamento crítico e com a defesa das instituições democráticas.
Em uma democracia madura, o cidadão não escolhe apenas entre narrativas. Ele exige transparência, responsabilidade e compromisso com os fatos.
- Supremo Tribunal Federal (STF): https://portal.stf.jus.br
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE): https://www.tse.jus.br
- Conselho Nacional de Justiça (CNJ): https://www.cnj.jus.br
- Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC): https://www.tre-sc.jus.br
- Política, Democracia, Narrativas Políticas, Polarização, Desinformação, Comunicação Política, Opinião Pública, Eliane Ribas Semeler, Jornal MPV, Brasil.








