Por Deivid Jorge Benetti
Existe uma diferença enorme entre aquilo que aparece nas redes sociais e aquilo que se percebe caminhando pelas ruas.
Nos últimos dias, circulando por Porto Alegre e pela Região Metropolitana, passando por bairros, paradas de ônibus, avenidas e diferentes pontos da cidade, tenho percebido algo que chama atenção: as pessoas estão saturadas da política.
E não estou falando de uma pesquisa eleitoral. Estou falando daquilo que vejo no contato direto com as pessoas.
O cidadão parece cansado de ouvir falar em Lula, Bolsonaro, direita, esquerda, lado A e lado B. Muitas vezes, basta iniciar uma conversa sobre política para ouvir: “não quero saber disso”, “não aguento mais”, “chega dessa briga”.
A política continua sendo necessária. O problema é que a política, para uma parcela significativa das pessoas que encontro nas ruas, parece ter perdido a capacidade de despertar confiança.
O panfleto que vai direto para o lixo
Uma cena que presenciei nesta semana, na Avenida Salgado Filho, em Porto Alegre, resume bem essa sensação.
Um rapaz estava trabalhando na distribuição de panfletos de campanha. Estava fazendo o seu trabalho, cumprindo sua função e abordando as pessoas.
O que chamou minha atenção foi a reação de algumas delas.
As pessoas pegavam o material, muitas vezes aparentemente para não ignorar o trabalhador que estava entregando. Mas, em seguida, olhavam rapidamente, amassavam o papel e colocavam no lixo.
Não havia interesse em saber qual era o candidato.
Não havia curiosidade sobre propostas.
Era quase um gesto automático: pegar, amassar e descartar.
E isso me fez pensar sobre o atual momento político.
Talvez o problema não seja mais apenas a rejeição a determinado candidato. Talvez exista algo maior: o cidadão está cansado do próprio modelo de disputa política que vem sendo apresentado há anos.
A internet não mostra necessariamente a rua
Nas redes sociais, a impressão pode ser completamente diferente.
Ali, os debates políticos continuam intensos. Os defensores de cada lado são barulhentos, os confrontos acontecem diariamente e os algoritmos ajudam a manter as pessoas dentro de bolhas políticas.
Mas quem está nas ruas percebe outra realidade.
Quem pega ônibus.
Quem caminha pela Avenida Salgado Filho.
Quem trabalha no Centro.
Quem circula pela Zona Norte, Zona Sul, Alvorada, Canoas, Viamão e outros municípios da Região Metropolitana.
É nesse contato que percebo uma espécie de exaustão política.
E talvez seja justamente por isso que as próximas eleições possam apresentar um cenário diferente do que as redes sociais fazem parecer.
O cidadão não quer mais escolher entre duas brigas
Minha percepção é que existe uma parcela da população que simplesmente não quer mais participar da disputa permanente entre Lula e Bolsonaro.
Não quer saber quem atacou quem.
Não quer mais acompanhar a guerra ideológica.
Não quer receber mais um discurso dizendo que precisa escolher necessariamente entre dois lados.
Existe um sentimento crescente de que o lado A e o lado B representam faces diferentes de uma mesma moeda política, como já ouvi de um político que hoje não está mais entre nós.
Isso não significa que todos pensem dessa maneira.
Também não significa que Lula e Bolsonaro sejam politicamente iguais em suas ideias, governos ou projetos. Seria intelectualmente desonesto afirmar isso.
O que estou dizendo é outra coisa: para uma parcela das pessoas nas ruas, a polarização perdeu a capacidade de convencer.
O eleitor pode estar procurando outra coisa.
Pode estar procurando alguém que fale sobre emprego, segurança, saúde, transporte, educação, impostos, custo de vida e problemas concretos da cidade e do Estado.
O desafio para quem pretende disputar uma eleição
Se essa percepção estiver correta — e reforço que estou falando de uma observação jornalística pessoal, não de uma pesquisa — os políticos terão um problema pela frente.
Não basta mais colocar uma fotografia em um panfleto.
Não basta repetir slogans.
Não basta atacar o adversário.
Não basta dizer que o outro lado é pior.
O eleitor pode simplesmente não querer mais ouvir.
E quando o cidadão pega o material de campanha, amassa e coloca no lixo antes mesmo de conhecer a proposta, existe ali um sinal que deveria preocupar qualquer candidato.
A população não necessariamente está deixando de se importar com política. Ela pode estar deixando de acreditar na política como ela vem sendo apresentada.
Essa é uma diferença importante.
Porto Alegre está dando sinais?
É principalmente em Porto Alegre que tenho percebido essa situação com mais intensidade nos últimos dias.
A cidade é um espaço extremamente diverso. Pessoas com diferentes posições políticas, histórias e realidades convivem diariamente.
Mas, no contato direto, tenho encontrado algo recorrente: cansaço.
Cansaço da polarização.
Cansaço das discussões.
Cansaço das promessas.
Cansaço de ouvir sempre os mesmos nomes.
Cansaço de ser obrigado a escolher entre dois lados.
Talvez as redes sociais estejam mostrando uma guerra política que existe, sim, mas que não representa necessariamente a totalidade da população.
Porque existe um outro eleitor.
Ele está no ônibus.
Está trabalhando.
Está caminhando pela cidade.
Está pagando suas contas.
E muitas vezes simplesmente não quer mais saber da briga política que domina a internet.
Esse eleitor também vota.
E talvez seja justamente ele que os candidatos estejam deixando de enxergar.
Esta é a minha percepção nas ruas de Porto Alegre e da Região Metropolitana.
Não é pesquisa.
Não é levantamento estatístico.
É aquilo que tenho observado no contato diário com a população.
E, se existe uma mensagem que eu tiraria dessas ruas neste momento, seria esta:
o eleitor não necessariamente desistiu de votar. Ele pode estar desistindo de acreditar. Qual tua opinião ?
— Deivid Jorge Benetti
Colunista do Jornal MPV










