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Pacientes esperam horas por socorro do SAMU

Investigação identificou ambulâncias paradas por falta de motoristas e técnicos de enfermagem, além de pacientes que aguardaram horas por atendimento. Prefeitura abriu processo administrativo contra empresa terceirizada.

A falta de profissionais nas escalas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) tem provocado atrasos no atendimento de emergências em Porto Alegre. Uma investigação publicada pelo Grupo de Investigação da RBS (GDI), da GZH, revelou falhas recorrentes na cobertura das equipes, ambulâncias fora de operação e pacientes que precisaram esperar horas pela chegada do socorro.

Segundo a reportagem, planilhas internas obtidas pela investigação apontam pelo menos 292 faltas de motoristas sem reposição entre 1º de janeiro de 2025 e 30 de setembro de 2026. A apuração também identificou situações em que cinco das 18 ambulâncias da Capital ficaram paradas simultaneamente por falta de profissionais.

O problema afeta a capacidade de resposta do serviço, que tem como função atender ocorrências de urgência e emergência, prestar os primeiros cuidados e transportar pacientes para unidades de saúde quando necessário.

Os dados levantados pela investigação também apontam que a ausência de profissionais em determinadas escalas pode sobrecarregar as equipes que permanecem em atividade, ampliando o tempo de espera de pessoas que dependem do atendimento pré-hospitalar.

Pacientes aguardam horas pela chegada de ambulâncias

A investigação acompanhou ocorrências em Porto Alegre, nas quais pacientes e pessoas envolvidas em acidentes precisaram esperar por longos períodos até receber assistência.

Em um dos casos relatados, um acidente de motocicleta na Avenida Ipiranga mobilizou pessoas que aguardavam a chegada do socorro. O chamado foi registrado às 20h45min, em um domingo de setembro. Diante da indisponibilidade de ambulância, o SAMU acionou os bombeiros às 21h23min. O veículo de emergência chegou ao local às 21h49min, quando a vítima já havia sido retirada da situação por um motorista que passava pela região.

Em outra ocorrência, na Zona Norte da Capital, um paciente em surto psiquiátrico aguardava atendimento havia 2 horas e 50 minutos, conforme os registros acompanhados pela reportagem.

A investigação também documentou o caso de um idoso de 71 anos que sofria com dores intensas e aguardou mais de cinco horas por assistência na Zona Leste. O chamado foi realizado às 16h45min de 4 de setembro, e o paciente só deu entrada no hospital às 22h48min.

Segundo o relato da família, o homem utilizava sondas para alimentação e eliminação de urina, o que dificultava seu transporte por meios próprios.

Os episódios ilustram as consequências que a indisponibilidade de equipes pode ter para pacientes que necessitam de atendimento urgente. Em situações de emergência, a demora pode agravar o quadro clínico e aumentar os riscos à saúde.

Falhas nas escalas comprometem a operação do SAMU

De acordo com os dados apresentados pela investigação, somente em setembro de 2026 foram registradas 45 faltas de motoristas.

A reportagem também aponta que, ao longo de 2026, os motoristas faltaram ao trabalho 297 vezes e chegaram atrasados para outros 106 plantões, conforme os registros consultados pelo GDI.

Os números mostram a dimensão do problema relacionado à composição das equipes. Quando um profissional não comparece e não há substituto disponível, a ambulância pode ficar impossibilitada de operar, reduzindo a capacidade de atendimento em diferentes regiões da cidade.

Socorristas ouvidos pela investigação relataram que a falta de uma equipe pode exigir que os profissionais em atividade atendam também áreas que seriam cobertas por outras unidades.

Esse cenário pode aumentar a carga de trabalho, ampliar os deslocamentos e elevar o tempo de resposta aos chamados. A indisponibilidade de veículos também reduz a margem operacional para atender a ocorrências simultâneas.

Porto Alegre possui 18 equipes de atendimento móvel, distribuídas em bases descentralizadas. A estrutura busca permitir que as ambulâncias cheguem aos locais das ocorrências com a maior rapidez possível, considerando a gravidade dos casos e a disponibilidade dos recursos.

Prefeitura aplica sanções e abre processo administrativo

A empresa Gerir Hospitalar, responsável pela gestão dos condutores contratados para o serviço, foi alvo de medidas de fiscalização devido às falhas registradas nas escalas.

Conforme a investigação, a empresa recebeu cinco multas que, somadas, chegam a aproximadamente R$ 700 mil. O contrato anual com a Prefeitura de Porto Alegre é de R$ 4.451.123,52.

O secretário municipal da Saúde, Fernando Ritter, afirmou à reportagem que não tinha conhecimento da dimensão do problema e determinou a abertura de um processo administrativo.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que instaurou um processo administrativo sancionatório contra a contratada. O procedimento poderá resultar em impedimento de participação da empresa em licitações, conforme o resultado da apuração.

A pasta também informou que a empresa apresentou sua defesa, que estava em análise pela comissão responsável. Enquanto isso, a licitação para a contratação dos serviços contínuos de condutores de ambulância do SAMU permanecia suspensa até a resolução do processo sancionatório.

A administração municipal indicou que pretende realizar reuniões com a empresa e aplicar as sanções cabíveis, além de buscar uma nova instituição para assumir a prestação do serviço.

O que diz a empresa responsável pelos motoristas

Em manifestação enviada à reportagem, a Gerir Hospitalar afirmou que segue os procedimentos previstos no edital e no contrato para substituir profissionais ausentes.

A empresa argumentou que a reposição não pode ocorrer de forma indiscriminada ou imediata, pois os substitutos precisam atender a requisitos técnicos e legais específicos. Entre as exigências mencionadas estão qualificações profissionais e capacitações obrigatórias.

Segundo a contratada, essas condições reduzem o número de profissionais aptos a assumir os postos de trabalho de maneira imediata.

A empresa também atribuiu parte das dificuldades ao aumento de faltas e pedidos de desligamento observado no início de 2026, período que coincidiu com a abertura de um novo processo licitatório. Conforme a manifestação, a incerteza sobre a continuidade dos vínculos teria contribuído para a rotatividade dos trabalhadores.

Como medida para tentar reduzir as ausências, a Gerir informou ter implementado um prêmio de assiduidade, pago com recursos próprios, para incentivar o cumprimento integral das escalas.

A contratada afirmou ainda que as ocorrências representam menos de 1% do total de horas efetivamente executadas no contrato e sustentou que as falhas pontuais não comprometem sua capacidade operacional geral.

A empresa declarou que continua adotando medidas de recrutamento, seleção, capacitação e ampliação do banco de candidatos para reduzir os impactos das ausências.

As justificativas apresentadas pela contratada integram a apuração administrativa, que deverá avaliar o cumprimento das obrigações previstas no contrato e as responsabilidades pelas falhas registradas.

Por que a demora no SAMU preocupa?

O SAMU é um serviço essencial para o atendimento de situações que exigem assistência médica urgente. A rapidez na resposta pode ser determinante em ocorrências como suspeita de infarto ou acidente vascular cerebral (AVC), acidentes de trânsito com vítimas, crises convulsivas, problemas cardiorrespiratórios e outras emergências com risco de morte ou sequelas.

O atendimento começa pelo telefone 192, quando a central coleta informações sobre a ocorrência e realiza a regulação médica. A partir da avaliação do caso, são fornecidas orientações e mobilizados os recursos necessários, conforme a gravidade e a disponibilidade das equipes.

A estrutura operacional precisa manter profissionais habilitados em número suficiente para garantir a cobertura das escalas. Quando uma ambulância fica parada por falta de pessoal, a capacidade de resposta diminui, especialmente em períodos de maior demanda.

Por isso, além da fiscalização dos contratos, a regularidade das escalas e a reposição dos profissionais ausentes são pontos fundamentais para a continuidade do atendimento à população.

Fiscalização e transparência são fundamentais

A situação revelada pela investigação coloca em evidência a importância do acompanhamento dos contratos públicos que envolvem serviços essenciais.

A Prefeitura deverá analisar as justificativas apresentadas pela empresa e avaliar as medidas administrativas cabíveis. A solução também depende da manutenção de equipes completas e da disponibilidade dos veículos destinados ao atendimento de urgências.

Para os moradores de Porto Alegre, a questão vai além de uma falha administrativa: envolve a capacidade de receber socorro em momentos nos quais o tempo pode fazer diferença para a saúde e a sobrevivência de um paciente.

O acompanhamento dos resultados do processo administrativo, das medidas de reposição de profissionais e da futura contratação será importante para verificar se as falhas identificadas serão efetivamente corrigidas.

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