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Primeiros anos são decisivos para alfabetização

Especialistas destacam consciência fonológica, educação infantil estruturada e acompanhamento individual como fatores importantes para o desenvolvimento da leitura e da escrita.

O Dia Mundial da Alfabetização, celebrado nesta terça-feira (8), chama atenção para uma das etapas mais importantes da formação escolar: o desenvolvimento da capacidade de ler, escrever e compreender textos.

No Brasil, os indicadores mostram avanços, mas também revelam que o desafio ainda está longe de ser superado. Dados da PNAD Contínua Educação, divulgados pelo IBGE, apontam que 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever em 2025. A taxa de analfabetismo chegou a 4,9%, o menor índice desde o início da série histórica, em 2016.

Ao mesmo tempo, o analfabetismo funcional continua sendo um problema relevante. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos apresentam dificuldades para compreender, interpretar e utilizar informações escritas no cotidiano, mesmo quando conseguem ler palavras e frases simples.

Os números reforçam que alfabetizar não significa apenas ensinar uma criança a reconhecer letras ou juntar sílabas. O processo envolve também compreensão, interpretação, escrita e capacidade de utilizar a linguagem em situações reais.

Primeiros anos são considerados fundamentais

Especialistas em educação e desenvolvimento infantil destacam que a alfabetização começa a ser construída antes mesmo do ensino formal da leitura e da escrita.

A psicopedagoga e psicomotricista Luciana Brites chama atenção para a importância da chamada consciência fonológica, habilidade que permite à criança perceber e manipular os sons da fala.

Segundo a especialista, a criança precisa construir uma relação entre aquilo que ouve e aquilo que posteriormente será representado por letras e palavras. A percepção dos sons, das sílabas, das rimas e das estruturas das palavras contribui para a aprendizagem posterior da leitura e da escrita.

O processo ocorre de forma progressiva.

Primeiro, a criança desenvolve habilidades relacionadas à linguagem oral e à percepção dos sons. Depois, passa a estabelecer relações entre esses sons e as letras. Com a prática, a leitura tende a ganhar velocidade e automatização.

Educação infantil não deve ser confundida com alfabetização antecipada

Um dos alertas apresentados pelos especialistas é contra a transformação da educação infantil em uma espécie de antecipação do ensino fundamental.

A fase dos zero aos cinco anos é considerada importante para o desenvolvimento de habilidades que posteriormente servirão de base para a alfabetização.

Entre elas estão:

  • desenvolvimento da linguagem;
  • atenção;
  • memória;
  • coordenação motora;
  • interação social;
  • desenvolvimento emocional;
  • percepção auditiva;
  • ampliação do vocabulário;
  • contato com histórias e livros.

A orientação é que essas habilidades sejam trabalhadas de maneira adequada à idade, sem transformar a educação infantil em uma cobrança antecipada para que todas as crianças saibam ler e escrever.

A partir dos quatro anos, por exemplo, atividades com rimas, palavras que começam com sons semelhantes e percepção de sílabas podem estimular a consciência fonológica sem necessariamente exigir que a criança já esteja realizando uma alfabetização formal.

Existem diferentes caminhos para alfabetizar

Outro ponto destacado pelos especialistas é que não existe uma fórmula capaz de alfabetizar todas as crianças exatamente da mesma maneira e no mesmo ritmo.

Em Caxias do Sul, a rede municipal não adota um único método obrigatório para todas as turmas. Os professores têm autonomia para escolher estratégias pedagógicas de acordo com as características dos estudantes, respeitando as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A Secretaria Municipal da Educação trabalha com a expectativa de que, ao final do 2º ano do ensino fundamental, os estudantes tenham desenvolvido não apenas a capacidade de codificar e decodificar palavras, mas também de compreender textos, fazer pequenas inferências e produzir textos curtos.

A alfabetização, portanto, é tratada como um processo que envolve mais do que simplesmente decorar letras.

Método fônico é utilizado na rede privada

Enquanto a rede municipal de Caxias do Sul não estabelece um método único, o Colégio Murialdo, na rede privada, utiliza o método fônico.

Nesse modelo, o ensino parte da relação entre grafemas — letras ou representações escritas — e fonemas, os sons da fala.

A criança aprende inicialmente a reconhecer os sons e suas correspondências com as letras. Depois, trabalha a combinação desses elementos para formar sílabas e palavras.

Entre as atividades utilizadas estão rimas, cantigas e recursos pedagógicos que ajudam a criança a perceber os sons.

Uma das ferramentas utilizadas pela escola é o chamado sussurrofone, um equipamento artesanal feito com tubos de PVC que permite que a criança fale e escute a própria voz simultaneamente.

Professores acompanham evolução individual

Outro elemento considerado importante é o acompanhamento individual.

Na rede municipal de Caxias do Sul, professores realizam diagnósticos iniciais e acompanham a evolução dos estudantes ao longo do ano.

A alfabetizadora Marisol de Fátima Gomes Sobroza utiliza atividades como contação de histórias, jogos, rimas, aliterações, construção de frases e exercícios relacionados aos sons das palavras.

Os trabalhos produzidos pelos alunos são reunidos em um portfólio para permitir a comparação entre diferentes momentos do processo de aprendizagem.

Essa estratégia permite identificar quais habilidades já foram desenvolvidas e quais ainda precisam de intervenção.

Família também participa do processo

A alfabetização não acontece exclusivamente dentro da sala de aula.

Professores destacam que a participação das famílias pode ajudar a criar um ambiente favorável à aprendizagem, principalmente por meio de atividades simples do cotidiano.

A recomendação não é transformar a casa em uma segunda escola, mas aproveitar situações comuns para aproximar as crianças da leitura e da escrita.

Algumas possibilidades incluem:

  • ler histórias juntos;
  • conversar sobre o que foi lido;
  • observar placas nas ruas;
  • identificar palavras em embalagens;
  • ler rótulos;
  • brincar com rimas;
  • estimular a criança a contar histórias;
  • conversar sobre palavras novas.

O contato frequente com a linguagem contribui para ampliar o vocabulário e fortalecer o interesse pela leitura.

Erros fazem parte da aprendizagem

Outro aspecto destacado pelos educadores é a necessidade de respeitar o ritmo individual de cada criança.

Durante a alfabetização, erros de leitura e escrita são esperados. Eles também podem ajudar professores a identificar em que estágio de desenvolvimento o estudante está.

A recomendação é evitar comparações excessivas entre crianças da mesma idade.

Uma criança pode avançar rapidamente em determinada habilidade e precisar de mais tempo em outra. O acompanhamento contínuo permite que a escola identifique essas diferenças e ofereça intervenções adequadas.

Como identificar dificuldades

Alguns sinais podem indicar que a criança precisa de acompanhamento mais próximo.

Entre elas estão dificuldades persistentes para perceber rimas e semelhanças sonoras, além de situações em que a criança consegue nomear letras isoladamente, mas encontra dificuldade para juntar os sons e formar palavras.

Isso não significa automaticamente que exista um transtorno de aprendizagem. A identificação de dificuldades deve considerar o desenvolvimento geral da criança e ser feita com acompanhamento da escola e, quando necessário, de profissionais especializados.

O mais importante é evitar que uma dificuldade persistente seja ignorada durante anos.

Brasil registra avanço na alfabetização

Além da redução do analfabetismo entre a população adulta, o país também registrou avanço recente na alfabetização infantil.

Dados divulgados em 2026 apontam que 66% das crianças da rede pública estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental em 2025, acima dos 56% registrados em 2023 e dos 59% de 2024. O resultado também superou a meta nacional de 64% estabelecida para 2025.

O objetivo estabelecido para os próximos anos é ampliar esse percentual e garantir que uma parcela cada vez maior das crianças consiga concluir o ciclo de alfabetização na idade adequada.

Alfabetização vai além de ler palavras

Uma criança alfabetizada não é apenas aquela que consegue identificar letras ou pronunciar palavras.

O processo envolve compreender aquilo que está sendo lido, localizar informações, fazer relações entre diferentes partes de um texto e utilizar a escrita para se comunicar.

Por isso, especialistas defendem que o ensino da leitura e da escrita seja acompanhado pelo desenvolvimento da compreensão textual.

A capacidade de ler sem compreender o conteúdo não representa o domínio completo da alfabetização.

O papel da escola e da sociedade

O Dia Mundial da Alfabetização serve, portanto, não apenas para celebrar avanços, mas também para discutir os obstáculos que permanecem.

A alfabetização influencia diretamente a trajetória escolar. Dificuldades não identificadas nos primeiros anos podem se acumular e comprometer aprendizagens posteriores.

Por isso, professores, famílias, gestores públicos e toda a sociedade têm participação nesse processo.

A construção de uma população plenamente alfabetizada depende de investimento na educação infantil, formação de professores, acompanhamento dos estudantes e políticas capazes de reduzir desigualdades.

Os dados brasileiros mostram evolução, mas os índices de analfabetismo funcional e as diferenças de aprendizagem indicam que a alfabetização continua sendo um dos principais desafios educacionais do país.

No Dia Mundial da Alfabetização, a principal discussão deixa de ser apenas quando uma criança aprende a ler e passa a ser como garantir que ela aprenda a ler, escrever e compreender de maneira consistente.

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