
Coluna: Alvorada na Real e Mães Atípicas
Sou Sandra Salenave , defensora dos direitos da criança e do adolescente e uma militante da causa da inclusão. Luto diariamente para construir uma sociedade mais justa, acessível e acolhedora.
A violência sexual contra crianças e adolescentes exige mais do que indignação. Exige prevenção, escuta, proteção e uma rede pública preparada para reconhecer situações de vulnerabilidade e agir de forma responsável. Em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa discussão precisa fazer parte da realidade cotidiana de famílias, escolas, serviços públicos e comunidades.
Até quando vamos nos calar diante da violência sexual contra crianças e adolescentes?
A violência sexual contra crianças e adolescentes não pode ser tratada apenas como uma estatística. Por trás de cada ocorrência existe uma vítima, uma família e uma história que pode carregar consequências profundas ao longo da vida. Quando falamos sobre proteção infantil, estamos falando sobre direitos fundamentais, dignidade e sobre o direito de toda criança crescer em um ambiente seguro.
O monstro não tem cara de monstro
Existe uma ideia perigosa que ainda precisa ser desconstruída quando falamos sobre violência sexual infantil: a de que o agressor será necessariamente um desconhecido e terá aparência de alguém ameaçador. A realidade pode ser muito diferente. O agressor pode estar próximo da vítima, frequentar o mesmo ambiente familiar ou social e, em determinadas situações, ser alguém que conquistou a confiança da criança e de seus responsáveis.
Por isso, a prevenção não pode se limitar a ensinar crianças a ter cuidado com desconhecidos. É necessário desenvolver, de maneira adequada à idade e ao nível de compreensão de cada criança, uma educação para a proteção. Ensinar sobre limites, respeito ao próprio corpo, situações inadequadas e a importância de procurar um adulto de confiança pode contribuir para que crianças e adolescentes reconheçam situações que precisam ser comunicadas.
Entretanto, é fundamental deixar claro que a responsabilidade pela proteção não pode ser colocada sobre a criança. Crianças não são responsáveis pela violência que sofrem. Cabe aos adultos criar ambientes seguros, prestar atenção aos sinais de alerta e garantir que exista uma rede capaz de acolher e encaminhar corretamente cada situação.
O silêncio também precisa ser enfrentado
Um dos maiores obstáculos no enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes é o silêncio. Muitas vítimas podem sentir medo, vergonha ou culpa. Algumas podem acreditar que ninguém irá acreditar em seu relato. Outras podem não compreender imediatamente que determinada situação representa uma violência.
É justamente nesse momento que a postura dos adultos se torna fundamental. Ouvir uma criança exige atenção, cuidado e responsabilidade. Quando existe um relato ou uma suspeita, a reação não deve ser de julgamento, ameaça ou exposição. O primeiro compromisso deve ser garantir a segurança da vítima e buscar orientação junto aos serviços e órgãos responsáveis pela rede de proteção à infância.
Também precisamos compreender que acolher não significa investigar por conta própria ou transformar suspeitas em acusações. A apuração deve seguir os procedimentos adequados e ser realizada pelas instituições competentes. A sociedade pode e deve denunciar situações de violência, mas precisa fazê-lo de maneira responsável, preservando a vítima e evitando a exposição desnecessária de crianças e adolescentes.
Crianças com deficiência precisam de proteção
Quando discutimos proteção de crianças com deficiência, precisamos reconhecer que existem situações específicas de vulnerabilidade que exigem atenção. Dificuldades de comunicação, dependência de adultos para determinadas atividades e barreiras no acesso aos serviços podem dificultar a identificação e o relato de situações de violência.
Isso significa que a rede de proteção precisa estar preparada para atender diferentes formas de comunicação e compreender as particularidades de cada criança. Família, escola, saúde, assistência social, segurança pública e Justiça precisam atuar de maneira articulada para que a proteção não dependa exclusivamente da capacidade da vítima de explicar o que aconteceu.
Uma política de inclusão verdadeiramente efetiva precisa incluir também a proteção contra a violência. Não basta garantir acesso à escola ou a determinados serviços. É necessário assegurar que crianças e adolescentes com deficiência sejam ouvidos, respeitados e protegidos.
A realidade de Alvorada também precisa ser discutida
Falar sobre violência sexual contra crianças em Alvorada significa olhar para a realidade concreta das famílias que vivem no município. A proteção da infância não pode ser discutida apenas em grandes campanhas nacionais ou em discursos institucionais. Ela precisa estar presente nos bairros, nas escolas, nos serviços de saúde, na assistência social e nos espaços onde as famílias procuram ajuda.
A população de Alvorada precisa ter acesso a informações claras sobre prevenção, direitos e caminhos para buscar proteção. Ao mesmo tempo, os serviços públicos precisam estar preparados para receber essas demandas com profissionais capacitados e atendimento adequado.
Esse debate também interessa a toda a Região Metropolitana de Porto Alegre, porque a proteção da infância não termina nos limites administrativos de um município. Crianças circulam entre escolas, famílias, serviços de saúde e diferentes espaços sociais. Por isso, políticas públicas de proteção precisam considerar a realidade regional.
Crianças e adolescentes não são slogans
A defesa da infância não pode aparecer apenas em campanhas, discursos ou datas comemorativas. Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos e precisam de proteção permanente.
Isso significa discutir prevenção, mas também atendimento, acompanhamento das vítimas, apoio às famílias, capacitação dos profissionais e funcionamento efetivo da rede de proteção infantil. Quando uma criança sofre uma violência, não basta perguntar o que aconteceu. Também precisamos perguntar o que será feito depois, quem irá acompanhar essa criança e quais mecanismos estarão disponíveis para ajudá-la a reconstruir sua vida.
Como sociedade, precisamos abandonar a ideia de que falar sobre violência sexual é criar medo. Informação adequada não cria medo. Informação protege. Uma criança que sabe que pode procurar ajuda e um adulto que sabe como acolher um relato podem fazer diferença diante de uma situação de risco.
Até quando vamos permanecer em silêncio?
Romper o silêncio não significa fazer acusações sem provas ou transformar suspeitas em condenações. Significa reconhecer que a violência sexual contra crianças e adolescentes é um problema grave que precisa ser enfrentado com informação, responsabilidade e políticas públicas efetivas.
Como mãe e como alguém que acompanha de perto as questões relacionadas à infância e às famílias, acredito que precisamos falar mais sobre esse assunto, inclusive quando a discussão é desconfortável. A proteção não pode depender do silêncio para preservar aparências. Quando uma criança está em risco, a prioridade deve ser sua segurança, sua dignidade e seu direito de ser protegida.
Precisamos preparar pais, mães, professores e profissionais para ouvir sem julgar. Precisamos ensinar nossas crianças, de acordo com sua idade e desenvolvimento, que elas podem procurar ajuda quando uma situação provocar medo ou desconforto. Precisamos fortalecer os serviços públicos e cobrar políticas públicas para proteção da infância que funcionem na prática.
A pergunta, portanto, permanece: até quando vamos nos calar diante da violência sexual contra nossas crianças e adolescentes?
A resposta precisa começar pela coragem de falar, pela responsabilidade de ouvir e pela disposição de proteger.
Crianças e adolescentes não são slogans. São vidas, são direitos e são pessoas que precisam de proteção.








