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74,8% dos gaúchos estão comprando menos

Pesquisa do Instituto de Pesquisas de Opinião (IPO) aponta redução do poder de compra no Rio Grande do Sul; percepção é ainda maior entre mulheres, pessoas de menor renda e moradores do Vale do Rio Pardo.

A percepção de perda do poder de compra avançou entre os consumidores do Rio Grande do Sul. Pesquisa do Instituto de Pesquisas de Opinião (IPO) mostra que 74,8% dos gaúchos afirmam estar comprando menos do que compravam há um ano.

O levantamento revela um cenário de maior cautela das famílias em relação ao consumo, com redução de compras e priorização de despesas consideradas essenciais. Outros 15% dos entrevistados disseram que mantiveram o mesmo nível de consumo, enquanto apenas 9% afirmaram estar comprando mais. O restante não soube ou não respondeu.

A percepção registrada no Rio Grande do Sul é mais negativa do que a observada em uma pesquisa nacional comparada pelo próprio IPO. No levantamento nacional da Quaest utilizado como referência, 69% dos brasileiros disseram estar comprando menos.

A diferença mostra que a sensação de aperto no orçamento é particularmente forte entre os consumidores gaúchos neste momento.

Preço dos alimentos pesa no orçamento

Entre os fatores apontados na pesquisa está o aumento do custo dos alimentos.

Embora a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tenha mostrado alta de aproximadamente 4,4% nos alimentos, próxima da inflação média de 4,47%, houve períodos de maior pressão sobre os preços ao longo de 2026.

Segundo a análise apresentada na pesquisa, entre os fatores que contribuíram para essa pressão estão o aumento dos custos de transporte associado ao diesel, a redução da área plantada de determinados grãos e alterações na produção mundial de alimentos e carnes.

Nos meses mais recentes, alguns preços começaram a apresentar redução. Entretanto, o cenário dos combustíveis permanece como um fator de atenção para o custo dos produtos.

A alta do diesel, por exemplo, pode voltar a pressionar o frete e, consequentemente, os preços de mercadorias transportadas pelas rodovias.

Endividamento também afeta capacidade de consumo

A redução do consumo ocorre em um ambiente no qual parte das famílias já possui uma parcela significativa da renda comprometida.

Outros levantamentos citados na análise apontam para níveis elevados de endividamento e inadimplência entre consumidores.

Os juros elevados são apontados como um dos fatores que dificultam a reorganização financeira das famílias, principalmente para quem precisa recorrer ao crédito para manter despesas correntes.

A facilidade de contratação de determinadas modalidades de crédito também aparece entre os fatores relacionados ao comprometimento da renda.

Outro elemento citado é o gasto com apostas on-line, que passou a fazer parte das discussões sobre orçamento familiar e consumo.

Mulheres relatam maior perda do poder de compra

A diferença entre os grupos pesquisados chama atenção.

Entre as mulheres, 77% afirmam estar comprando menos do que há um ano.

O percentual é superior à média geral de 74,8% registrada na pesquisa.

A percepção também varia conforme faixa etária, escolaridade e renda familiar.

Segundo a diretora do IPO, Elis Radmann, entrevistada pelo podcast Nossa Economia, as mulheres relatam mudanças no orçamento doméstico para preservar despesas consideradas prioritárias.

Entre os gastos que podem ser reduzidos estão serviços relacionados à estética e cuidados pessoais.

A pesquisa indica, portanto, que a redução do consumo não ocorre necessariamente de maneira uniforme. As famílias estão escolhendo quais despesas manter e quais podem ser adiadas ou eliminadas.

Renda mais baixa sente impacto maior

A percepção de perda do poder de compra também é mais elevada entre pessoas com menor renda.

Entre os entrevistados com renda de um a dois salários mínimos, o percentual chega a 77,4%.

O indicador também é elevado entre pessoas com Ensino Fundamental, alcançando 79,8%.

Já entre os entrevistados com renda superior a seis salários mínimos, 16,4% afirmam estar comprando mais, percentual significativamente superior ao observado entre os grupos de renda mais baixa.

Os dados mostram que a percepção sobre o consumo varia de acordo com a capacidade financeira das famílias.

Quanto menor a margem disponível no orçamento, maior tende a ser o impacto de aumentos de preços, juros, dívidas e outras despesas obrigatórias.

Faixa de 35 a 44 anos apresenta índice elevado

A pesquisa também identificou diferenças importantes entre as faixas etárias.

Entre pessoas de 35 a 44 anos, a percepção de perda do poder de compra chega a 81,5%.

Já entre entrevistados de 25 a 34 anos, a percepção de aumento do poder de compra aparece em 11,8%.

Esses números indicam que a situação financeira não é percebida da mesma forma por todos os grupos da população.

Questões como composição familiar, renda, despesas fixas, acesso ao crédito e estágio profissional podem influenciar a forma como cada pessoa avalia sua capacidade de consumo.

Santa Cruz do Sul registra maior percepção de queda

A diferença regional é ainda mais expressiva.

A região de Santa Cruz do Sul apresentou o maior percentual de entrevistados que afirmaram estar comprando menos: 90,2%.

O resultado chama atenção porque significa que aproximadamente nove em cada dez entrevistados da região percebem redução no próprio poder de compra.

Na sequência aparecem:

  • Ijuí: 78,4%;
  • Uruguaiana: 78,1%.

Mesmo a região com o menor índice apresentou maioria dos entrevistados relatando redução no consumo.

Em Pelotas, o percentual foi de 66,7%.

Impacto das enchentes ainda aparece na economia regional

A região de Santa Cruz do Sul também enfrenta consequências econômicas relacionadas às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.

De acordo com a avaliação apresentada pela diretora do IPO, os impactos dos eventos climáticos afetaram indicadores econômicos locais e exigiram um processo de reorganização.

A percepção negativa sobre a economia, portanto, não está relacionada exclusivamente ao preço dos produtos.

Questões envolvendo atividade econômica regional, renda, recuperação de empresas e investimentos também podem influenciar a avaliação dos consumidores.

Porto Alegre apresenta maior sensação de estabilidade

A pesquisa mostra ainda diferenças entre as regiões do Estado.

Embora a percepção de redução do poder de compra esteja presente em todas elas, Porto Alegre se destaca pela maior sensação de estabilidade em determinados indicadores analisados.

O cenário da Capital é diferente do observado em regiões que apresentam percepção mais intensa de deterioração econômica.

Isso não significa que os consumidores de Porto Alegre estejam necessariamente comprando mais, mas demonstra que a avaliação sobre a situação econômica varia conforme a região.

Consumidor está priorizando despesas

A redução do consumo não significa necessariamente que as pessoas deixaram de comprar.

Em muitos casos, a mudança ocorre por meio da substituição de produtos, adiamento de compras, redução de quantidades e corte de despesas consideradas não essenciais.

A estratégia costuma ser adotada quando a renda permanece estável, enquanto despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e serviços, ocupam uma parcela maior do orçamento.

Nesse cenário, compras de maior valor podem ser postergadas e gastos considerados secundários passam a ser reduzidos.

Cenário preocupa o comércio

A redução do consumo tem impacto direto sobre o comércio.

Quando uma parcela significativa da população diminui as compras, lojistas podem enfrentar maior dificuldade para manter o volume de vendas.

O comportamento também pode afetar estoques, contratação de funcionários, investimentos e planejamento de expansão das empresas.

Para o varejo, o desafio aumenta quando a queda no consumo ocorre simultaneamente à elevação de custos operacionais.

Esse cenário exige que empresas acompanhem com atenção mudanças no comportamento dos consumidores e adaptem estoques, preços, promoções e formas de pagamento.

Crédito pode ser usado para complementar renda

Outro ponto relevante é a utilização do crédito.

Quando o orçamento familiar fica apertado, algumas pessoas recorrem a cartões, empréstimos ou outras modalidades de crédito para manter despesas.

O problema ocorre quando o crédito deixa de funcionar como instrumento temporário e passa a ser utilizado de forma recorrente para financiar despesas básicas.

Nesse caso, os juros aumentam o custo das compras futuras e podem reduzir ainda mais a renda disponível.

O resultado pode ser um ciclo no qual a família precisa de mais crédito justamente porque uma parcela crescente da renda já está comprometida com dívidas anteriores.

Apostas também aparecem no orçamento

A pesquisa também menciona o impacto dos gastos com bets no orçamento das famílias.

O tema ganhou importância nos últimos anos diante da expansão das apostas on-line no país.

Quando recursos que seriam destinados ao consumo, pagamento de contas ou formação de reserva financeira são direcionados para apostas, a disponibilidade de renda para outras despesas diminui.

O assunto passou a integrar inclusive o debate econômico sobre endividamento e comprometimento da renda.

Percepção não é o mesmo que inflação oficial

É importante diferenciar os resultados da pesquisa do comportamento dos índices oficiais de inflação.

A pesquisa mede a percepção dos consumidores sobre o próprio poder de compra e seus hábitos de consumo.

Já os índices de inflação calculados pelo IBGE medem a variação média dos preços de uma cesta de produtos e serviços.

Assim, mesmo que a inflação acumulada esteja em determinado percentual, uma família pode sentir uma pressão maior ou menor dependendo dos produtos que compra, da renda disponível e da composição das suas despesas.

Uma família que gasta parcela maior da renda com alimentação, transporte ou aluguel pode sentir a inflação de maneira diferente de outra que tenha despesas diferentes.

O que os números indicam

Os dados do IPO apontam para um consumidor gaúcho mais cauteloso.

Com 74,8% afirmando comprar menos, a redução do consumo aparece como um fenômeno amplo no Estado.

A percepção é ainda mais forte entre:

Mulheres: 77%.

Pessoas de 35 a 44 anos: 81,5%.

Pessoas com Ensino Fundamental: 79,8%.

Renda de 1 a 2 salários mínimos: 77,4%.

Região de Santa Cruz do Sul: 90,2%.

No outro extremo, a percepção de aumento do poder de compra é maior entre pessoas com renda acima de seis salários mínimos, chegando a 16,4%.

Cenário exige atenção nos próximos meses

O comportamento do consumidor será um dos indicadores importantes para acompanhar a economia gaúcha nos próximos meses.

Uma eventual recuperação da renda, redução dos juros, queda dos preços de produtos essenciais ou melhora do mercado de trabalho poderia alterar o comportamento das famílias.

Por outro lado, novas pressões sobre alimentos, combustíveis, crédito ou despesas essenciais podem manter o consumidor mais cauteloso.

No caso do Rio Grande do Sul, a recuperação econômica de regiões afetadas por eventos climáticos também continua sendo um fator relevante.

A pesquisa mostra que, neste momento, a percepção predominante entre os consumidores é de redução do poder de compra e maior necessidade de controle do orçamento familiar.

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