Por A Voz de um Pai Atípico escrito por Douglas Garcia Tenedini, colunista do Jornal MPV.
Essa talvez seja uma das frases que mais escuto quando alguém descobre que meu filho é autista. E eu sei que, para quem fala, é um elogio. É uma tentativa de enxergar uma qualidade, de dizer que ele tem potencial, que existe algo especial nele.
Mas, às vezes, eu fico pensando: inteligência a que preço?
Porque as pessoas enxergam a criança que sabe as bandeiras dos países, que reconhece planetas, cores, palavras, músicas, personagens e tantas outras coisas. Mas quase ninguém enxerga o que acontece depois. Ninguém vê as horas de crise. Ninguém vê uma criança que pode saber coisas que muitos adultos não sabem, mas que ainda precisa de ajuda para realizar tarefas básicas do dia a dia.
Ninguém vê que ele pode falar, mas isso não significa que consiga se comunicar. Falar palavras não é necessariamente conseguir dizer o que sente, o que dói, o que incomoda, o que precisa ou o que está acontecendo dentro daquela cabeça.
Ninguém vê a dificuldade de interação.
Ninguém vê a dependência.
Ninguém vê a fralda.
Ninguém vê que, para algumas coisas que parecem simples para qualquer outra criança, ele ainda precisa de nós.
E é justamente aí que eu quero chegar.
Por que a sociedade tem tanta necessidade de medir uma criança autista pela inteligência?
Se ela aprende rápido, é “um gênio”.
Se sabe coisas extraordinárias, todo mundo se impressiona.
Mas e quando ela não consegue fazer aquilo que a maioria das crianças da mesma idade já faz?
Aí parece que a inteligência deixa de importar.
Só que uma coisa não anula a outra.
Meu filho pode ser extremamente inteligente e, ao mesmo tempo, precisar de muito suporte. Pode saber coisas incríveis sobre o mundo e ainda precisar de ajuda para entender o próprio mundo. Pode memorizar informações com uma facilidade impressionante e, ainda assim, não conseguir explicar que está frustrado, com medo, com dor ou sobrecarregado. Pode ter habilidades que surpreendem qualquer pessoa e, ao mesmo tempo, enfrentar dificuldades que só quem vive dentro de casa conhece.
Essa é a parte do autismo que quase ninguém vê.
Por isso, quando alguém me diz:
— “Mas ele é inteligente!”
Eu tenho vontade de responder: “Sim. E justamente por isso ele merece que enxerguem muito mais do que a inteligência dele.”
Meu filho não precisa provar que é inteligente para merecer respeito. Não precisa saber todas as bandeiras do mundo para ser valorizado. Não precisa aprender mais rápido que os outros para ter oportunidades. E não precisa deixar de ter dificuldades para que suas capacidades sejam reconhecidas. Eu não quero que olhem para ele e vejam apenas um autista inteligente. Quero que vejam uma criança inteira. Com suas habilidades. Com suas dificuldades. Com suas crises. Com suas conquistas. Com suas limitações. Com aquilo que ele já consegue fazer e, principalmente, com aquilo que ainda precisa aprender. Porque inteligência é maravilhosa. Mas inteligência não elimina necessidade de suporte.
E, para uma família atípica, talvez essa seja uma das maiores incompreensões de todas: as pessoas comemoram aquilo que nosso filho consegue fazer, enquanto nós, muitas vezes, estamos lutando para ajudá-lo a conseguir fazer aquilo que ainda não consegue.
Então, sim. Meu filho é inteligente. Muito. Mas a pergunta que eu gostaria que a sociedade aprendesse a fazer não é apenas: “O que ele consegue fazer?” É também: “Do que ele precisa?” Porque talvez seja aí que comece a verdadeira inclusão.
A Voz de um Pai Atípico reúne textos de Douglas Garcia Tenedini, colunista do Jornal MPV.
A coluna aborda autismo, inclusão, acessibilidade e direitos. Também apresenta experiências sobre paternidade atípica, família e inclusão social.
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