Por Douglas Garcia Tenedini | Coluna A Voz de um Pai Atípico
Ontem vi no Instagram um vídeo de uma família levando um menino autista a um zoológico. Em determinado momento, ele entrou em um espaço onde havia pássaros e começou a interagir com os animais da maneira dele, curioso, tentando brincar e explorar aquele ambiente.
Mas o que mais me chamou a atenção não foi o vídeo. Foram os comentários. Um deles dizia, em tom de deboche: “Engraçado que ele não escolheu a jaula do leão.”
A intenção era clara: insinuar que, se a criança conseguiu escolher entrar onde havia pássaros e não onde havia um leão, então ela saberia perfeitamente o que estava fazendo — e que tudo seria simplesmente falta de educação.
E é justamente esse tipo de pensamento que precisamos combater.
Autismo não é falta de educação. Uma criança autista pode ter dificuldades para compreender determinados riscos, situações sociais, limites e estímulos do ambiente. Isso não significa que ela seja mal-educada, muito menos que deva ser isolada da sociedade. Pais de crianças autistas já enfrentam uma batalha diária que muita gente sequer consegue imaginar.
São noites sem dormir. Crises. Sobrecarga sensorial. Consultas. Terapias. Escola. Preocupações constantes. E uma luta diária para ensinar seus filhos a viver em um mundo que, muitas vezes, não está preparado para eles. E ainda tem gente que acha que a solução é: “Tranca dentro de casa.”

Não.
Lugar de autista é no mundo.
No zoológico.
No parque.
Na praia.
No shopping.
No restaurante.
Na escola.
No cinema.
Na praça.
Onde ele quiser estar.
Foto: Douglas e seu filho
É claro que crianças precisam de supervisão. É claro que os pais precisam orientar e proteger. Isso faz parte da responsabilidade de qualquer família. Mas transformar uma situação que exige cuidado em argumento para defender que uma criança autista fique presa dentro de casa é simplesmente absurdo. E precisamos lembrar que esse pensamento de que pessoas diferentes deveriam ser afastadas da sociedade não é novo. Durante décadas, pessoas com deficiência e pessoas que fugiam dos padrões sociais foram tratadas como incapazes, perigosas ou como um problema que deveria ser escondido. Nós avançamos como sociedade justamente para deixar esse pensamento para trás.
O autismo não transforma uma pessoa em perigo. Uma pessoa autista é uma pessoa neurodivergente. Ela pode perceber, sentir, aprender, se comunicar e compreender o mundo de uma maneira diferente da maioria.
Diferente não significa perigoso.
Diferente não significa mal-educado.
Diferente não significa que precisa ficar preso em casa.
Antes de fazer uma piada ou escrever um comentário cruel, lembre-se de que existe uma criança do outro lado.
Existe uma mãe.
Existe um pai.
Existe uma família.
Uma família que muitas vezes já está cansada, mas continua lutando todos os dias para que seu filho tenha aquilo que qualquer ser humano merece:
o direito de viver.
Inclusão não é colocar o autista dentro de uma bolha.
Inclusão é ensinar a sociedade a conviver com as diferenças.
Porque lugar de autista não é dentro de casa por obrigação.
LUGAR DE AUTISTA É ONDE ELE QUISER.
LUGAR DE AUTISTA É NO MUNDO.
A Voz de um Pai Atípico reúne textos de Douglas Garcia Tenedini, colunista do Jornal MPV.
A coluna aborda autismo, inclusão, acessibilidade e direitos. Também apresenta experiências sobre paternidade atípica, família e inclusão social.
Leia também: A mente de um pai atípico nunca desliga
Ser pai de uma criança atípica é viver com a mente sempre ligada. Não porque nossos filhos sejam um perigo, mas porque muitas vezes eles não percebem determinados riscos da mesma forma que outras crianças. Um pequeno descuido pode se transformar em uma situação muito séria….

28/08/2026 15:22











Um comentário
Verdade, colega Douglas lugar de autista,.onde quer se sentir bem, acolhido onde se sente verdadeiramente em caixado