Na rotina de uma família atípica, a vigilância diante dos riscos faz parte de uma paternidade que precisa equilibrar proteção, autonomia e amor
Por Douglas Garcia Tenedini | Coluna A Voz de um Pai Atípico
Ser pai de uma criança atípica é viver com a mente permanentemente ligada. Não porque nossos filhos representem um perigo, mas porque, em muitas situações, eles não percebem determinados riscos da mesma maneira que outras crianças. Aquilo que para nós pode parecer evidentemente perigoso pode ser, para eles, apenas mais uma possibilidade de explorar o mundo.
E é justamente aí que mora uma das maiores responsabilidades de quem cuida.
Um pequeno descuido pode transformar uma situação absolutamente cotidiana em algo muito sério.
Na nossa casa, por exemplo, tínhamos uma mesa de vidro. Em determinado momento de distração, meu filho subiu sobre ela. A mesa quebrou. Graças a Deus, tratava-se de um vidro antigo e, quando caiu, os pedaços permaneceram praticamente inteiros. Poderia ter sido uma tragédia.
Depois daquele episódio, a decisão foi imediata: retiramos a mesa de vidro de casa.
Mas os cuidados não terminam aí. É preciso observar objetos que podem ser arremessados contra janelas, materiais que podem quebrar, quinas, portas, escadas, tomadas, móveis e tantos outros elementos presentes na rotina de uma residência.
Para muitas famílias, são detalhes comuns. Para uma família atípica, alguns desses detalhes podem representar riscos que precisam ser constantemente avaliados.

Mais um susto dentro de casa
Nesta semana, tivemos mais um episódio que me fez pensar novamente sobre a necessidade de atenção permanente.
Temos em casa um espaço cercado para a nossa cachorra, com aproximadamente 1,40 metro de altura. Meu filho tem cerca de 1,30 metro. Mesmo assim, ele simplesmente pulou o gradil e entrou no espaço onde estava o animal.
Por sorte, nossa cachorra o conhece desde pequena. Cresceu com ele, está acostumada com sua presença e, naquele momento, não aconteceu absolutamente nada.
Mas, depois do susto, vieram aqueles pensamentos que tantos pais atípicos conhecem muito bem.
E se fosse na casa de outra pessoa?
E se fosse um cachorro que não o conhecesse?
E se o animal interpretasse aquele movimento como uma ameaça?
E se, naquele instante, alguma coisa diferente tivesse acontecido?
É por isso que digo que a cabeça de um pai atípico nunca descansa.
Estamos sempre observando. Sempre antecipando possibilidades. Sempre calculando riscos. Sempre pensando no que pode acontecer nos próximos segundos.
O cansaço que ninguém vê
É como viver permanentemente em estado de alerta, como um soldado diante de uma guerra que nunca anuncia de onde virá o próximo perigo.
E isso cansa.
Cansa fisicamente, mas, principalmente, cansa mentalmente.
Muitas vezes, as pessoas olham para uma criança autista brincando, correndo ou explorando o ambiente e enxergam apenas uma criança vivendo sua infância.
O que nem sempre conseguem perceber é o pai ou a mãe logo atrás, acompanhando cada movimento e fazendo perguntas silenciosas:
“Será que isso é seguro?”
“Será que ele vai subir?”
“Será que pode cair?”
“Será que pode se machucar?”
Essa vigilância constante não significa falta de confiança na criança. Também não significa querer impedir que ela explore o mundo.
Significa conhecer aquela criança, compreender suas características e reconhecer que determinados riscos ainda não são percebidos por ela da mesma maneira que são percebidos por nós.

Pais atípicos também precisam descansar
Pais e mães atípicos também precisam descansar.
Precisam de apoio.
Precisam de compreensão.
Precisam que as pessoas entendam que, muitas vezes, aquilo que parece exagero para quem observa de fora é, para quem está diariamente responsável por uma criança atípica, uma forma concreta de proteção.
É amor.
É cuidado.
É responsabilidade.
É estar atento porque sabemos que, em determinadas situações, nosso filho ainda pode não compreender o perigo que existe diante dele.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da paternidade atípica: amar, cuidar, ensinar, orientar e incentivar a autonomia, ao mesmo tempo em que permanecemos atentos aos riscos que podem surgir em uma fração de segundo.
A gente ensina nossos filhos a caminhar pelo mundo.
Mas, enquanto eles aprendem, nós caminhamos ao lado.
E, muitas vezes, caminhamos olhando não apenas para onde eles estão, mas também para onde podem chegar nos próximos segundos.
Porque, para um pai atípico, um simples descuido pode significar apenas um susto.
Mas também pode representar uma tragédia.
Por isso, a mente nunca desliga.
Douglas Garcia Tenedini
Colunista do Jornal MPV
Leia a minha coluna: A Voz de um pai atípico.
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