Diferença patrimonial entre candidatos e candidatas diminuiu em comparação com 2022, mas desigualdade econômica ainda pode interferir nas condições de disputa eleitoral.
A diferença de patrimônio entre homens e mulheres candidatos nas eleições de 2026 no Rio Grande do Sul diminuiu em relação ao último pleito geral, mas continua significativa. Entre os concorrentes que declararam possuir bens, o patrimônio mediano dos homens chega a R$ 377,5 mil, enquanto entre as mulheres é de R$ 265 mil.
Isso significa que o patrimônio mediano masculino é aproximadamente 42,5% superior ao feminino, revelando uma diferença de R$ 112,5 mil entre os dois grupos.
Os números consideram as declarações apresentadas pelos próprios candidatos à Justiça Eleitoral. A análise utiliza a mediana, e não a média, porque patrimônios excepcionalmente elevados de poucos candidatos poderiam distorcer o resultado geral.
RS tem mais de mil candidatos registrados
O Rio Grande do Sul possui 1.051 candidatos registrados para as eleições de 2026. Desse total, 266, equivalentes a 25,3%, não declararam patrimônio à Justiça Eleitoral.
Por esse motivo, o levantamento sobre a diferença patrimonial considera os 785 candidatos que informaram bens acima de zero.
As declarações patrimoniais fazem parte das informações apresentadas no processo eleitoral e ajudam a ampliar a transparência sobre quem disputa os cargos públicos.

Diferença diminuiu entre candidatos a deputado federal
Apesar da desigualdade geral, os dados mostram uma mudança importante quando a comparação é feita com as eleições de 2022.
Entre as mulheres que disputam uma vaga de deputada federal, o patrimônio mediano declarado passou de R$ 130 mil em 2022 para R$ 246,6 mil em 2026, crescimento de aproximadamente 89,7%.
No grupo masculino ocorreu o movimento contrário. O patrimônio mediano dos candidatos a deputado federal caiu de aproximadamente R$ 353 mil para R$ 291,6 mil, redução de 17,4%.
Com isso, a distância patrimonial entre homens e mulheres nessa disputa caiu consideravelmente: era de aproximadamente R$ 223 mil em 2022 e agora está em torno de R$ 45 mil.
Patrimônio das candidatas a deputada estadual mais que dobrou
A mudança também aparece entre os candidatos que buscam uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS).
Entre as mulheres, a mediana dos bens declarados passou de R$ 150 mil para R$ 302,4 mil, crescimento de aproximadamente 101,6%.
Entre os homens, o patrimônio mediano passou de cerca de R$ 300 mil para R$ 383,6 mil, avanço próximo de 28%.
A diferença entre os dois grupos, portanto, também diminuiu. Se em 2022 estava próxima de R$ 150 mil, em 2026 caiu para aproximadamente R$ 81,2 mil.

Por que o patrimônio pode influenciar uma campanha?
A diferença vai além da situação financeira pessoal dos candidatos.
Recursos próprios podem dar maior capacidade para estruturar o início de uma campanha enquanto os candidatos aguardam os repasses partidários. Além disso, pessoas com maior patrimônio podem ter acesso a redes profissionais e sociais capazes de facilitar a obtenção de doações privadas.
A cientista política Teresa Sacchet, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Observatório Nacional da Mulher na Política, aponta que ampliar a quantidade de candidaturas femininas é apenas uma parte do problema. Para a pesquisadora, também é necessário garantir condições efetivas para que essas candidaturas consigam competir.
Pelas regras eleitorais, candidatos podem financiar a própria campanha respeitando o limite previsto pela legislação. A regulamentação do financiamento e da prestação de contas busca estabelecer mecanismos de controle e transparência sobre os recursos utilizados durante a eleição.
Mulheres representam parcela menor entre candidatos milionários
A diferença fica mais evidente quando são analisados os candidatos que declararam patrimônio elevado.
Dos 1.051 candidatos registrados no Rio Grande do Sul, 166 declararam patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão.
Nesse grupo estão 131 homens e 35 mulheres. Dessa forma, as mulheres representam aproximadamente 21,1% dos candidatos milionários no Estado.
Apesar da participação ainda minoritária, houve crescimento em relação às eleições de 2022. Naquele pleito, o Estado tinha 143 candidatos com patrimônio milionário, sendo apenas 21 mulheres, equivalentes a 14,7% do grupo.

Maioria das candidatas milionárias está em partidos de direita e centro-direita
Outro dado observado no levantamento é a distribuição partidária das candidaturas femininas.
Das 361 mulheres candidatas no Rio Grande do Sul, 243, ou 67,3%, estão vinculadas a partidos classificados no levantamento como de direita ou centro-direita. Outras 118, correspondentes a 32,7%, disputam a eleição por legendas de esquerda ou centro-esquerda.
Entre as 35 candidatas que declararam patrimônio de pelo menos R$ 1 milhão, 29 estão em siglas de direita ou centro-direita.
Somadas, essas 29 candidatas concentram aproximadamente R$ 99,7 milhões, equivalentes a 75,9% do patrimônio declarado pelo conjunto das candidatas milionárias analisadas.
Perfil das candidaturas pode ajudar a explicar crescimento
Uma das hipóteses apresentadas pela cientista política Teresa Sacchet para explicar a mudança está relacionada ao perfil das mulheres recrutadas pelos partidos.
Siglas de direita e centro-direita passaram a ampliar estratégias direcionadas ao eleitorado feminino e à organização de candidaturas de mulheres. Nesse processo, também passaram a atrair candidatas com maior poder econômico, incluindo empresárias e profissionais que já possuem patrimônio e redes de relacionamento antes de entrar na disputa eleitoral.
Esse movimento pode ter contribuído para aumentar o patrimônio mediano das candidatas em 2026.

Dinheiro não garante eleição, mas pode alterar condições da disputa
Ter patrimônio elevado não significa automaticamente obter mais votos ou conquistar um mandato.
A eleição depende de diferentes fatores, incluindo força partidária, exposição pública, estrutura de campanha, histórico político, comunicação, recursos financeiros e capacidade de mobilização.
Entretanto, especialistas apontam que a disponibilidade financeira pode representar uma vantagem, principalmente no início da campanha.
Candidatos com maior capacidade econômica podem ter mais condições para organizar equipes, deslocamentos, produção de conteúdo e outras estruturas necessárias durante a disputa, dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral.
Já candidatos mais dependentes dos fundos partidários precisam aguardar decisões internas das legendas sobre a distribuição dos recursos.
Distribuição dos recursos entra no debate
A desigualdade econômica também coloca em discussão como os partidos distribuem os recursos públicos destinados às campanhas.
Uma das preocupações apontadas por especialistas é que o dinheiro seja disponibilizado em tempo suficiente para permitir que candidaturas com menor patrimônio consigam organizar suas campanhas desde o começo do período eleitoral.
Teresa Sacchet também chama atenção para a tendência de partidos priorizarem candidatos que já possuem mandato e disputam a reeleição, o que pode aumentar a dificuldade enfrentada por novos nomes.
As normas eleitorais estabelecem regras específicas para arrecadação, aplicação de recursos e prestação de contas, com o objetivo de garantir transparência sobre o financiamento das campanhas.

Representatividade também passa pelo perfil econômico
A discussão sobre patrimônio eleitoral não envolve apenas homens e mulheres.
Para o cientista político Augusto Neftali de Oliveira, professor da PUCRS, diferenças muito grandes entre o perfil econômico da população e o dos candidatos podem gerar um distanciamento entre a sociedade e aqueles que ocupam os espaços de representação política.
A questão envolve saber até que ponto o Legislativo consegue refletir características econômicas e sociais presentes na própria população.
Quando pessoas com maior patrimônio possuem melhores condições para entrar e permanecer na disputa eleitoral, grupos economicamente menos favorecidos podem enfrentar barreiras adicionais para alcançar cargos políticos.
Diferença diminui, mas permanece significativa
Os dados de 2026 mostram dois movimentos simultâneos no Rio Grande do Sul.
De um lado, houve redução da diferença patrimonial entre candidatos homens e mulheres, especialmente nas disputas para deputado federal e estadual.
De outro, os homens continuam apresentando patrimônio mediano significativamente superior quando são consideradas as candidaturas que declararam bens.
O cenário mostra que a presença feminina nas eleições não deve ser analisada somente pela quantidade de candidatas. Recursos disponíveis, financiamento eleitoral, estrutura partidária e condições econômicas também fazem parte da capacidade real de competir por um mandato.
Com menos de um mês para as eleições de 2026, marcadas para 4 de outubro, a composição das candidaturas e a distribuição dos recursos de campanha estarão entre os fatores que poderão influenciar a disputa por vagas no Legislativo gaúcho.










